No começo era o umbigo

Foto: arquivo

Foto: arquivo

As pessoas adoram reclamar das autoridades, mas culpar o “Outro” – o próximo, o vizinho – é sempre mais cômodo.

Há dois elementos culturais – a cultura como cotidiano, como expressão diária – que, para mim, demonstram categoricamente como estamos mal, mas muito mal mesmo, e isso não tem (apenas) a ver com as autoridades: o trânsito e o direito ao silêncio.

Ontem, eu fui obrigado a dormir com a TV do vizinho no último volume, como sempre acontece – e com essa prática se repetindo por quase toda a cidade –, e, para inovar, ele decidiu começar a assistir televisão por volta das 5h da manhã.

De manhã, obrigado a pegar o carro – o que faço muito raramente –, sou fechado algumas dezenas de vezes no espaço de 15 quilômetros, sendo que por três vezes quase com batida, já com os respectivos motoristas não tomaram conhecimento de que poderia haver outros carros ao lado.

A ideia é a mesma: danem-se os outros, o meu umbigo é o que importa.

Para coroar o período de menos de 10 horas, acordo com a notícia de que a máfia dos taxistas ganhou mais uma: a Câmara dos Vereadores do Rio (“você quis dizer Eduardo Paes”, teria sugerido o Google) aprovou uma lei que multa o “transporte individual remunerado de passageiros sem licença” (leia-se Uber e eventuais assemelhados), beneficiando diretamente os taxistas (leia-se barões dos táxis, que faturam quase 7 milhões de reais TODO MÊS).

E mais: a cidade que detém o campeonato nacional em número proporcional de táxis nas ruas ganhará mais “amarelinhos”: passará da proporção permitida de um passageiro para cada 700 habitantes para um a cada 193 habitantes!

E mais: a lei não regulamentou regiões da cidade e horários desprovidos de frotas e tampouco mexeu nos lucros dos empresários. Partiu Zona Sul, partiu entupir ainda mais o centro da cidade! Partiu campanha presidencial!

E mais: a lei aprovada na Câmara prevê anistia para multas a taxistas! E uma emenda reduz as punições a taxistas que infringirem o código disciplinar da categoria. Partiu – eba! – ficar zapeando entre toda e qualquer pista – de ônibus ou de carros comuns – sem dar a seta e fechando que bem entender. Partiu fazer o que eu bem entender, com ainda mais liberdade! Soma-se a esta medida a ação da Prefeitura de retirar ônibus das ruas sob a justificativa de estar “racionalizando” o trânsito. Bastante racional, começamos a entender agora.

Mas falar em “máfia” é um exagero, não é mesmo?

Um dos autores do projeto é Elton Babu, filho de Jorge Babu, este último acusado formalmente de chefiar um grupo de milícias da zona oeste. O seu partido é o Partido dos Trabalhadores. Jorge, finalmente expulso há alguns anos depois do “temor” de retirá-lo dos quadros do partido porque ele era “muito perigoso” – estou citando um correligionário à época –, teve a felicidade de ver seu filhão ganhar votos para a legenda trabalhista e deixar para trás esses boatos infundados de que ele seria dono de inúmeras “remontadoras não oficiais” em locais obscuros do Rio.

Babu Filho disse ter recusado, aliás, por duas vezes pedidos de audiência do Uber para discutir o projeto mais amplamente. Motivo: ele não tinha CNPJ. “Eu preciso saber quem é Uber”, disse o filhão. Quem legisla nessa cidade? Cadê o Estado “regulador” que defenderá – numa visão tacanha da esquerda estadista – os cidadãos da ameaça do “mercado”?

O umbigo é o princípio. Cada um com o seu. Eis, assim, a melhor Câmara dos Vereadores que a grotesca cultura individualista hegemônica que temos no Rio conseguiu eleger.