Muito além das calçadas

 

Travestis e Transexuais do Brasil discutem identidade e políticas públicas no Rio de Janeiro de 6 a 11 de dezembro durante o 16º Entlaids no Hotel Golden Park – Glória

 
“Muito prazer, eu existo!”. Com este slogan, duzentas/os ativistas das cinco regiões do país se reúnem no 16º Encontro Nacional de Travestis e Transexuais (Entlaids) para discutir temas como utilização do nome social em documentos pessoais e políticas públicas em diferentes áreas, com o objetivo de assegurar a cidadania plena dessa parcela da população. Pela primeira vez na história do país, as TTs unificarão discurso de como querem ser enxergadas e respeitadas. Durante o evento, que é deliberativo, elas construirão finalmente o conceito do que é ser uma travesti e um (a) transexual.

A 16ª edição do encontro, coordenada pela Astra-Rio (Associação de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro), acontece no Hotel Golden Park (Rua do Russel, 374 – Glória) e receberá autoridades governamentais, como o Governador Sérgio Cabral, o prefeito Eduardo Paes, secretários municipais e estaduais, além de acadêmicos e ativistas do Movimento LGBT em geral. A atriz Carolina Ferraz e o estilista Carlos Tufvesson são os padrinhos do evento. “Fui batizado militante na pia da Astra-Rio. Tenho um carinho imenso por essas meninas”, orgulha-se Tufvesson.

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Para a presidente da Astra-Rio, Majorie Marchi “é um desafio para nossa associação organizar na Cidade Maravilhosa o maior e mais importante evento nacional voltado para travestis e transexuais. É um importante momento de protagonismo para nós, justamente porque temos urgência em debater temas como trabalho, educação, segurança, renda, emprego, gênero e saúde. No Brasil, há poucas políticas que atendam as demandas da nossa realidade porque nossos governantes se baseiam em estudos internacionais que não condizem com que nós TTs vivenciamos no dia-a-dia em nosso país”, esclarece.

A coordenadora do Entlaids ainda sinaliza que durante o encontro será apresentada uma proposta de se ter um processo travestilizador para o Sistema Único de Sáude. Atualmente, o SUS já realiza um processo transexualizador (administração de hormônios antes da cirurgia, acompanhamento anual das taxas hormonais e por dois anos antes e após a cirurgia de transgenitalização por equipe multidisciplinar para apenas mulheres-trans).

Almejando o reconhecimento da identidade travesti a partir de políticas públicas específicas, a proposta prevê ações como terapia com hormônios. Isso reduziria o uso de silicone líquido, utilizado para modelar o corpo, diminuindo, também, o risco de morte pelo uso da substância. Também será discutido o aumento do número de cirurgias de transgenitalização, bem como o acesso de transexuais masculinos (homens-trans) às políticas de saúde, que não são contemplados atualmente pelo SUS.

Entenda o Entlaids
Todo ano é aprovado um regimento interno com diretrizes do evento. Ao todo, são 80 delegadas/os (com poder de voto), 100 convidados (sem poder de voto) e 20 palestrantes das cinco regiões do Brasil. Nos grupos de trabalho, TTs vão deliberar como querem ser entendidas, medida importante para afinar o discurso em dimensão nacional e ter mais visibilidade nas políticas públicas em diferentes áreas sociais.

A partir dessas discussões, elas fortalecerão o Projeto de Lei 2976/08, criado pela então Deputada Federal Cida Diogo (PT-RJ) que contou com a justificativa redigida por Majorie Marchi e que tramita na Câmara de Deputados. O PL 2976/08 cria a possibilidade das pessoas que possuem orientação de gênero travesti, masculino ou feminino, utilizem ao
lado do nome e prenome oficial, um nome social.

Além de mesas de debates, oficinas de cidadania (elaboração de projetos, advocacy e organização institucional) e rodas de conversa, haverá show com Ângela Leclery e projeção de vídeos sobre o tema nos intervalos. Por fim, as TTs elegerão a cidade-sede do Entlaids do próximo ano.

O evento conta com o patrocínio do Governo Federal (através do Programa Nacional de DST e Aids do Ministério da Saúde e da Secretaria Especial de Direitos Humanos/PR); do Governo do Estado do Rio de Janeiro (através da Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos e da Secretaria de Saúde e Defesa Civil); da Prefeitura do Rio (através das Secretarias de Turismo, Saúde e Assistência Social); e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD/ONU); além do apoio da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e da PACT Brasil.