Mídia e violência no Rio: sensação de Déjà vu

A intensa cobertura midiática nos últimos dias sobre a violência no Rio de Janeiro mostra a disposição dos meios de comunicação em se autorreferenciar como coautores no combate ao crime organizado, atuando ao lado das forças policiais subordinadas ao poder político. O modo como jornais e TVs construíram a história do cerco policial-militar na Vila Cruzeiro e no Complexo do Alemão é indicativo dessa intenção.

Um breve resgate histórico ajuda a colocar por terra o sentido de caráter “inédito” da operação. Do mesmo modo, também não é a primeira vez que os órgãos noticiosos evocam um lugar de poder na cobertura sobre segurança pública em momentos de crise. A ostensiva repercussão sobre as ocupações da semana passada remete a outro acontecimento emblemático no histórico de violência na cidade e sensível, particularmente, para o campo jornalístico: o sequestro, tortura e execução de Tim Lopes, em junho de 2002. Apesar de contextos históricos diferentes, as duas coberturas ilustram permanências e continuidades quanto aos trabalhos de memória e ao emprego de estratégias narrativas.

Nos dois casos, a imprensa constrói o discurso jornalístico com base em características que apontam para as dualidades entre o herói e o vilão, o bem e o mal, a impunidade e a esperança. Todos podem acompanhar o enredo, familiarizar-se com o trabalho das forças policiais em prol da libertação das comunidades. Encampam, sem a devida problematização, a versão estatal da ocupação ao manter, notadamente as Organizações Globo, diversas autoridades da Segurança Pública em seus estúdios durante horas a fio. Enquanto isso, uma grande operação de cerco transcorria no subúrbio carioca.

Se a cobertura reforça esses aspectos mais afetos à espetacularização e ao sensacional, ignora fontes relacionadas às lideranças comunitárias que poderiam contribuir para o debate. Omite igualmente a complexidade e as especificidades da criminalidade no Rio de Janeiro, onde as fronteiras entre policiais e traficantes estão misturadas. Prova disso são o fenômeno das milícias e a incorporação, no vocabulário cotidiano, de expressões como “arrego do tráfico”, atos de suborno para a manutenção de atividades ilícitas com a luxuosa conivência de quem deveria combatê-las.

Em episódios como os da Vila Cruzeiro e do Complexo do Alemão, a ação dos meios de comunicação é tão reativa quanto o combate ao narcotráfico no Rio de Janeiro. Não cabe aqui enumerar as deficiências do Poder Público que contribuem para o agravamento da criminalidade nas grandes cidades, mas como a mídia reporta os acontecimentos. O que podemos constatar é que ela não apenas informa sobre o crime, mas busca legitimar-se ao reafirmar que sua atuação é imprescindível para a garantia da legalidade da operação.

Reportagens sobre violência no Rio mantêm uma unidade dramática e exercem uma tensão narrativa que tende a controlar a capacidade de reação do público. Imagem: Latuff.

Reportagens sobre violência no Rio mantêm uma unidade dramática e exercem uma tensão narrativa que tende a controlar a capacidade de reação do público. Imagem: Latuff.

Não que haja discordância quanto ao ponto específico, mas não podemos ignorar que tais comentários conferem força ao discurso dos grupos de comunicação. Em momentos críticos, a imprensa como instituição busca ocupar o lugar de fala autorizada para cobrar das autoridades uma solução – na maioria das vezes, tão imediata quanto à produção do seu noticiário – para livrar os moradores das amarras do tráfico. Não é propriamente exclusividade da cobertura na área de segurança pública.

Os dois episódios têm como traço comum o triunfalismo da operação policial-militar que parece instaurar uma nova fase na política de segurança pública do Rio de Janeiro. No dia seguinte à “Batalha do Alemão” – como O Globo se referia às vésperas da ocupação naquela comunidade – manchetes, títulos, subtítulos e intertítulos destacavam no dia 29/11/2010: “O Rio mostrou que é possível”, “Cabral ressalta fato histórico”, “Vitória e operação sem precedentes” e “O Rio é nosso”, ainda que o resultado da operação, em relação ao número de prisões, não seja compatível com o aparato bélico e a repercussão que levou televisões e jornais a interromperem a programação e produzirem cadernos especiais.

No caso Tim Lopes, era a captura de Elias Maluco que representava, nas narrativas jornalísticas, um momento fundador da segurança pública no Rio. Maluco era o líder do bando, último foragido naquela ocasião e acusado de ser o mandante da execução do repórter da TV Globo.

A narrativa obedece assim a um esquema percebido em outros dramas noticiosos. Mudam as datas e os personagens centrais. Permanecem os códigos simbólicos que são reconhecidos pelo público. Esses mecanismos discursivos podem ser evidenciados também na prisão do traficante Eliseu Felício de Sousa, o “Zeu”. Envolvido na morte de Tim Lopes em 2002, o criminoso foi detido na mega-operação no Complexo do Alemão há poucos dias. A captura de “Zeu” ganhou destaque na cobertura de O Globo e nos comentários de apresentadores da emissora, deixando transparecer uma vontade interdita do grupo comunicacional de vingar a morte do seu profissional.

As reportagens mantêm uma unidade dramática e exercem uma tensão narrativa que tende a controlar a capacidade de reação do público. As matérias se sucedem como se o jornal ou a cobertura de TV estivessem preparando o terreno para o grande desfecho. Sequencialmente, essas foram as manchetes de O Globo no último fim de semana: “Intenso tiroteio entre Exército e tráfico abre Batalha do Alemão” (27/11/2010), “Bandidos não aceitam ultimato e polícia decide invadir Alemão hoje” (28/11/2010) e “O Rio mostrou que é possível” (29/11/2010). É interessante notar, portanto, como a dimensão temporal tem forte presença nos relatos jornalísticos.

O mesmo processo que revela o poder de o jornal instaurar presentes se verifica na repercussão do assassinato do repórter da TV Globo. A partir do prazo de 30 dias divulgado pela Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio para a prisão de Elias Maluco, o campo jornalístico, em geral, e O Globo, particularmente, abrem uma contagem regressiva para a captura do traficante: “Contagem regressiva – Polícia tem oito dias para cumprir promessa feita em agosto: prender Elias Maluco em um mês” (18/09/02); “Polícia deixa Elias Maluco sem comida” (19/09/02); “Perdi Chefe. Mas não esculacha – Elias Maluco é preso 109 dias após a morte de Tim” (20/09/02).

Assim, as notícias vão oferecendo uma sensação de harmonia e tranquilidade frente aos fenômenos que fogem às regras normativas da sociedade. Os jornalistas, do mesmo modo, reafirmam valores morais através da punição daqueles que se afastam dos princípios dominantes na sociedade. Nos dois casos, o jornal destaca o sentimento de esperança que envolve a sociedade. Se em 2002 a matéria “Linho, traficante da Maré, é próximo alvo” (20/09/02) mostra o empenho das autoridades, embaladas pelo êxito da operação, em prender o então chefe do Terceiro Comando após a prisão de Elias Maluco, agora a reportagem “Se chegamos ao Alemão, chegaremos à Rocinha” (29/11/10) fornece a senha para o alvo da próxima mobilização das forças de segurança.

Todo este conjunto narrativo ajuda a fornecer pistas para entender, sob a ótica dos estudos da comunicação, o significado da intensa repercussão midiática sobre a violência no Rio de Janeiro. Ao registrar o episódio como um momento fundador contra o narcotráfico, os jornalistas também contribuem, em última instância, para o processo de legitimação da imprensa como autoridade interpretativa no campo social. A recente crise, em outras palavras, é formadora de autoridade.

(*) Marcio de Souza Castilho é jornalista, doutor em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor da Universidade Federal Fluminense.

Sem levar em consideração a população pobre que mora nas favelas (maioria trabalhadores), a mídia é a cabeça principal que alimenta a “hidra” deste sistema, a qual tem criminalizado a pobreza, além de não fazer uma leitura crítica do contexto que o país se encontra.

No Rio, onde as diferenças se apresentam mais acentuadas, é possível perceber com clareza a raiz dos atuais problemas. No entanto, seus governantes insistem em manter políticas repressivas, a fim de buscar o embranquecimento e europeização da “cidade maravilhosa”, sem esquecer a especulação imobiliária, claro. Antes, no início do século XX, a tática para se chegar a isto era a desculpa da política da higienização. Hoje, é a implementação do estado de terror.

E, para manter a ordem e a anuência, seu Sérgio Cabral além de por o Beltrame (ruralista da elite gaúcha, igual a muitos ditadores truculentos gaúchos que comandaram o Brasil em 70′ e 80′ – sumindo com uns, e torturando outros tantos) como secretário de Segurança Pública, agora conseguiu 800 soldados para reforçar as ações repressivas do BOPE.

Mais uma vez, a violência tratada como problema penal, e não de estrutura de Estado. E, quem faz as leis? Os mesmos que só abrem as janelas que tem a vista para o Calçadão de Copacabana, e não para o Cantagalo!

O que vai acontecer na Copa e Olimpíadas?
Vão por o exército nas ruas para garantir a segurança dos gringos?
O passeio turístico nas favelas será dentro do Caveirão?

Estas últimas semanas sintetiza o que Plínio de Arruda Sampaio expôs durante as eleições: Homofobia na Mackenzie; a ferida aberta que é o Rio; Enem indo por água abaixo, evidenciando a corrupção; PUC mostrando que educação é mercadoria…
É Brasil, tá na hora. Ou vai, ou racha!

Mais em: http://chefatamorgana.blogspot.com/2010/11/o-circo-do-terror.html

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