Micro-relações revolucionárias anunciam, preparam e inauguram um tempo alternativo

Por um longo tempo – e ainda hoje -, temo-nos quedado reféns de uma prática e de uma concepção reducionistas de “Revolução”, propensos a percebê-la como sinônimo de “tomada violenta do poder.”

Assim, nossas melhores energias criativas se deslocam para o domínio de estratégias militares, ao ponto de superestimarem o alcance “revolucionário” da questão militar, tendo como trágica consequência o abandono ou a crescente subestimação do sentido substancial das ações revolucionárias, centradas na tecedura de relações pessoais, comunitárias, societais alternativas ao modelo hegemônico. Isto se deu ou se dá tanto mais em consequência do abandono ou do desprezo do caráter revolucionário das mircro-relações, nutridas pela mística revolucionária cotidianamente exercitada, pessoal e coletivamente, pelos sujeitos grávidos de alternatividade à lógica e à rotina do atual modo de produção, de consumo e de gestão societal. Ainda que mantendo um discurso anticapitalista, tornamo-nos contaminados, nas micro-relações do dia-a-dia, pelo germe do Capital e sua multiplicidade de atrativos, a começar pelas suas manifestações de enorme efeito pirotécnico de demonstração de força, de poder, de luxo…

Tempo houve – e não faz muito -, em que tínhamos razões de sobra, para desconfiarmos das obras suntuosas, dos mega-eventos, das iniciativas de grande potencial pirotécnico, tão ao gosto do Mercado e do seu Estado, eternos adoradores do deus Mamon. Tal é, com efeito, seu poder de sedução, que consegue inebriar também grupos e pessoas que dizem combatê-lo… Até que nos demos conta de que este modelo, sendo histórico, não tem fôlego para se manter eternamente, que podemos e devemos estar atentos ao caráter dos seus frutos, ele terá feito em nós profundos estragos, inoculando em nós marcas traumáticas duradouras, tais como: individualismo, consumismo, compulsão à acúmulo de bens supérfluos, reféns de modismos, de “marketings”, de grifes, de”disputa de privilégios, de narcisismo, da ideologia do endividamento, de multiformes ataques socioambientais, projetos necróficos, desfiguração da condição humana…

No passado recente e menos recente, também no presente, nas mais distintas esferas da realidade, dói-nos constatar como prevalecem largamente tais valores e tais práticas.

1.Práticas nossas, no dia-a-dia.

No domínio econômico, impera – sempre em nome da ideologia do progresso ou da “modernização” – a frenética corrida às “obras faraônicas”, (expressão cunhada no tempo da Ditadura Civil-Militar, instalada a partir de 1964, no Brasil, enquanto na América Latina, nos quedamos aterrorizados com, no dizer de Eder Sader o “rumor de botas”…). Eram chamadas de “obras faraônicas”, pelos setores ligados às classes populares, iniciativas tais como a rodovia Trans-Amazônica, a hidrelétrica de Itaipu, a construção de usinas nucleares, entre outras. Na versão atualizada desta mesma lógica “faraônica”, que tanto favorece gigantescos esquemas de corrupção, multiplicaram-se tais iniciativas – dezenas de hidrelétricas, projetos de transposição como a do Rio São Francisco, atividades de efeito devastador de povos da região e bens preciosos como nossa densa biodiversidade, nosso subsolo e nossos territórios devastados pela gula desenfreada das gigantescas empresas de mineração presenteadas pelo (des)governo Temer e seus aliados, entre outras atrocidades.

Ainda no plano econômico, cumpre destacar os estragos tremendos provocados pela praga do desperdício. A cultura do desperdício já nos acompanha, há um bom tempo. Desperdiçamos alimentos, água, energia, tempo, habilidades criativas…

No plano político, enquanto superestimamos grandes eventos, campanhas eleitorais, agendas oficiais, de um lado, por outro lado nos descuidamos das micro-relações, e seu potencial revolucionário. De um lado, atribuímos, a justo título, considerável importância aos atos de corrupção vindos de cima, enquanto pouca ou nenhuma atenção emprestamos aos “pequenos” atos de corrupção por nós mesmos cometidos, em nossas micro-relações do dia-a-dia, acabamos por demonstrar uma atitude de hipocrisia, sempre de dedo riste apontando falhas alheias, enquanto nos tornamos uma verdadeira fábricas de auto-justificativas – inúteis! -, tentando fugir de nossas responsabilidades pessoais e grupais.

Com frequência, acusamos os “de cima” de autocráticos e ditadores, enquanto no âmbito familiar, nos espaços de trabalho,e em outros micro-ambientes, não atentamos para as nossas próprias ações autoritárias, possessivas e anti-democráticas.

No campo das relações sócio-ambientais, mostramo-nos, em palavras, pródigos de cuidados como nossa Mãe-Natureza, com a biodiversidade, com os rios, com as matas e florestas, com os mares, com a fauna, com a flora, etc, enquanto nos mostramos frequentemente contraditórios, em nossas práticas cotidianas, relacionadas com a nossa “Casa-Comum”, por meio de práticas de desperdícios, de insensibilidade para com as plantas e os animais, descomprometidos com os devidos cuidados moleculares de nossos rios, de nossas praias, de nossos mares, de nossas florestas…

Na esfera dos valores

Uma mística revolucionária pervade, por certo, todas e cada uma das esferas da vida. Também, e talvez sobretudo, o campo dos valores, dada sua influência – positiva ou negativa, conforme nossas escolhas – sobre cada fio existencial do nosso percurso. Sabemos que, seres ao mesmo tempo de natureza e de cultura, somos constantemente condicionados, mas não determinados!, pela complexa e vasta teia de relações que vamos tecendo, ao longo da vida. As circunstâncias nos condicionam, sim, sob vários aspectos. Por outro lado, contudo, a despeito deste condicionamento, temos a nosso favor uma boa margem de liberdade, que nos ajuda a enfrentar e vencer nossos próprios limites, sempre a depender de nossas escolhas. Escolhas feitas em meio a inúmeras situações. Uma delas, por exemplo, tem a ver com nossa atitude diante dos constantes sinais que a vida nos proporciona. Sinais que, a todo momento, se lançam diante de nós, enquanto nós podemos ou não levar a sério. Não raramente, eles se nos mostram, e nós mal os percebemos, embora tenhamos visão, audição e outros sentidos saudáveis. Dão-se-nos reiteradamente, e nós seguimos, por vezes, insensíveis. Não nos dispomos a interpretá-los, adequadamente; e, menos ainda, a tomá-los a sério, em nossa vida. Abdicando de nossa liberdade, de nosso protagonismo (pessoal e coletivo), preferimos ser levados ao sabor dos ventos… O “Deixa a vida me levar”, não raro, constitui uma vã autojustificativa, para não enfrentamos, como devemos, os desafios da vida. Para tanto, empenhamo-nos em multiplicar “álibis”, que, no fundo de nossa consciência, sabemos enganosos: “Eu sou assim mesmo”, “Tenho que ser como sou: é meu destino.”; E assim multiplicam-se, em série, as “boas” justificativas, como forma de evitar a aventura de mudar, de ir mudando, no que está bem ao meu alcance. Não cessamos de dizer que queremos um mundo novo, mas sempre achamos que se trata de algo a ser feito por forças do Além, ou por obra dos outros, sem nossa participação direta neste processo. Neste caminhar, “Revolução” acaba constituindo-se um horizonte longínquo, praticamente inviabilizado no âmbito do concreto, das relações cotidianas, muito menos algo construído também com a minha participação, no que está ao meu alcance.


2.Práticas inspiradas numa mística revolucionária

Doravante, cuidamos de levantar possibilidades de tornar o processo revolucionário como algo concreto, construído passo a passo, também com nossa efetiva contribuição. Neste sentido, somos instados, dia a pós dia, a considerar e tomar a sério nossa cota de participação, nos diversos espaços relacionais dos quais participamos.

* Nas micro-relações econômicas do dia-a-dia

– Como seres (também econômicos), somos chamados a participar, em tudo o que estiver ao nosso alcance, do processo produtivo, em todas as suas dimensões. Por exemplo, nas atividades produtivas caseiras, por que atribuir tal encargo (que deveria ser de todos) a apenas uma pessoa, quase sempre uma mulher, quando podemos e devemos participar também das tarefas produtivas de nossa casa, quer no preparo de alimentos, quer na higiene e no asseio da casa, quer nos cuidados da roupa e da louça, etc. Trata-se de tornar também nosso, o desafio de superar a velha dicotomia trabalho intelectual/trabalho manual… De modo semelhante, somos chamados a tomar consciência e a participar de tantos outros afazeres domésticos, inclusive no necessário equilíbrio entre o que se recebe e o que se gasta.

-Seja no âmbito comunitário, seja no âmbito pessoal, buscar vivenciar uma rotina alegre, de simplicidade, de sobriedade, por meio de uma auto-vigilância em relação aos apelos consumistas, não apenas vindos “de fora”, mas também (quase) imperceptivelmente instalados e “naturalizados” e introjetados, desde o recinto familiar ou da pequena comunidade… Isto se manifesta, no cão do dia-a-dia, sob as mais diversas formas: (re)aprendendo a gostar de pratos simples e saudáveis, mesmo quando os demais seguem suas preferências; (re)aprender a viver sem luxo, sem a ditadura de grifes, de sofisticada parafernália de equipamentos; (re)aprendendo a utilizar vestes, equipamentos fundamentais e outras coisas, pela função essencial que cumprem, não pela marca ou pela sofisticação mercadológica (para que trocar, a cada ano, este ou aquele equipamento, se ele segue cumprindo bem suas funções?) (re)aprender a recorrer aos bens da natureza, com moderação: por que deixar escancarada a torneira, para um simples escovar de dentes? Por que passar cinco minutos debaixo do chuveiro elétrico, se eu posso tomar meu banho em dois minutos, ou com água desaquecida? Por que descartar mercados públicos ou feiras livres, em favor exclusivamente de se fazer compras em “shoppings”? Sem desconsiderar o componente “qualidade”, o que me leva a preferir usar uma roupa ou um calçado comprados na feira, a comprá-los só nos “shoppings”? A quem sirvo ou a quem dessirvo, com tal atitude? (Re)aprender a valorizar, na prática, os produtos das feiras agro-ecológicas, espalhadas por nossas cidades, que, às vezes, nem conhecemos. (Re)aprender a descobrir as belezas tantas de nosso país, de nossa região, ou de dos vizinhos latinoamericanos, em vez de só preferir curtir as “disneys” da vida…? E as perguntas podem – e devem – ser multiplicadas. Cada resposta dada tem a ver – ou não! – com nossa opção revolucionária…

* Nas micro-relações políticas do cotidiano

Tratamos aqui do Político, entendido como uma relação que ultrapassa a dinâmica sociedade-Estado, de modo a alcançar também as micro-relações, que se dão nos mais variados espaços sociais de que participamos: no ambiente familiar, no ambiente de trabalho, nos espaços lúdicos, no campo religioso, etc. Tratamos, em breve, de uma cidadania expressa nas relações do cotidiano, quer no âmbito macro, quer no âmbito micro. Uma coisa leva necessariamente a outra. Aqui, nossa atitude revolucionária, se faz presente e deve ser avaliada sempre a partir de nossas práticas concretas, não tanto a partir do nosso discurso, a menos que este se apresente consequente com minha prática. Neste sentido, a postura revolucionária leva todo cidadão/cidadã a uma constante auto-vigilância quanto às formas de tomada de decisão, nestes espaços, bem como ao reconhecimento do protagonismo de todos, a cada um cabendo contribuir, de acordo com suas possibilidades, de modo a evitar o estrelismo, o mandonismo, o culto da individualidade e vícios semelhantes.

Tal postura mais facilmente se estende às macro-relações, a medida que somos chamados a um permanente exercício de autovigilância, graças ao constante aprimoramento de nossos sentidos, do ver, do ouvir, do sentir, do intuir, tanto no âmbito comunitário quanto no âmbito pessoal. Assim, buscamos exercitar constantemente nossa capacidade crítica e autocrítica, não apenas na escala local, como também regional, nacional, internacional, fazendo-o por meio de um acompanhamento diuturno de fontes diversificadas e divergentes de analise da mesma realidade, evitando assim a tendência a uma endogenia (só ver a partir do olhar dos nossos parceiros).

* Na avaliação e reavaliação dos nossos valores

É a mesma mística revolucionária a inspirar os critérios de avaliação de nossos valores. Para tanto, vale a pena resumirmos os princípios axiais que nos inspiram. Partimos da consciência de sermos seres inacabados, limitados, e por isso mesmo, necessitando superação de nossos limites. Sem o reconhecimento desta condição, não apenas não logramos avançar em nosso processo de humanização, no horizonte do qual resplandece o processo revolucionário como também estaremos fadados a reeditar nossos vícios. Entendemos que, justamente por termos consciência de nossos limites, é que somos chamados a supera-los progressivamente no processo relacional, isto é por meio da convivência, por meio da partilha comunitária. Ao mesmo tempo, entendemos que a superação de nossos limites se dá por múltiplas vias, inclusive pela nossa disposição de aprender com os nossos erros e os erros alheios. A superação dos nossos limites também se da, graças à nossa consciência da relatividade que caracteriza o coexistir, seja nas conquistas, seja nas derrotas: “tudo é relativo”.

Tais princípios não caem do céu, são fruto do nosso estado de busca, ou seja, de um longo e permanente processo de formação, distinto (embora não separado) do que se vive nos espaços escolares. Trata-se de uma formação que nos ajuda a despertar, não apenas nossos limites, mas também nossas potencialidades criativas, artísticas, intelectuais, éticas… Um processo formativo que nos ajuda permanentemente a observar os sinais da vida e dos tempos, interpreta-los e toma-los a sério. Um processo formativo que nos ajuda a entender a intima associação entre passado-presente-futuro, donde a importância de exercitarmos, não apenas a memória histórica, não apenas em sua dimensão retrospectiva, como também em sua dimensão presente e prospectiva, observando seus nexos orgânicos, razão pela qual resulta fundamental trabalhar a esperança que representa o horizonte revolucionário com o qual nos declaramos comprometidos, já desde aqui e agora.

João Pessoa, 27 de dezembro de 2017.

 

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