México: líder comunitária presa em condições desumanas fala sobre a luta das mulheres

mulheresNestora Salgado, dirigente da Coordenação Regional de Autoridades Comunitárias (CRAC), dirigiu-se às mulheres no dia 8 de março e afirma que é uma prisioneira política, e que sairá livre para prosseguir a luta que iniciou na polícia comunitária de Olinalá, para combater os narcotraficantes diante da inoperância do Estado.

Nestora Salgado, dirigente da Coordenação Regional de Autoridades Comunitárias (CRAC), vive condições desumanas na prisão, segundo relatou o jornal mexicano La Jornada na sua edição digital de 8 de março.

De acordo com o artigo, a líder comunitária está detida desde 21 de agosto de 2013, como parte de um processo irregular no qual está a ser acusada de sequestro e delinquência organizada. Conforme informação do Comité Liberdade para Nestora, que se reuniu em manifestação de protesto na Cidade do México, no ultimo dia 7, com a participação de familiares de Nestora Salgado e de outros presos políticos do governo de Penna Nieto.

Já há vários meses existe um levante da população em várias províncias do México, em particular em Michoacan e Guerrero, que pegam em armas para combater o crime organizado e libertar a população da ação opressora e repressiva destes gangues. A população, revoltada, organizou as “policias comunitárias”, com o objetivo de resolver com as próprias mãos o problema de delinquência resultante do poder que o narcotráfico adquiriu e, como todos sabem, envolve mesmo a esfera governamental e o próprio estado.

Desde o seu surgimento e fortalecimento, as policias comunitárias têm tomado, literalmente, cidades dessas duas províncias e também de outras, derrotando os traficantes e libertando a população do medo em que toda a sociedade mexicana vive hoje, relatada com letras de sangue diariamente na imprensa local.

Para esclarecer a atual situação, o Esquerda.net publica a mensagem de Nestora Salgado dirigida às mulheres na comemoração do 8 de Marco, Dia Internacional das Mulheres.

Convidamos também os que se solidarizam com a luta contra essa tremenda injustiça que assine a campanha impulsionada pelo Comité Liberdade para Nestora.

Não posso falar com ninguém. Não vejo e nem tomo sol.

(Mensagem de Nestora Salgado para o 8 de Março, dia Internacional da Mulher,enviada de Nayarit, onde se encontra presa, relatando a luta no México e a condição desumana a que esta submetida.)

Meu nome e Nestora Salgado, tenho 42 anos, três filhas, três netos e uma neta. Estou injustamente na prisão desde o dia 21 de agosto do ano passado. Apesar de estar presa e de os meus carcereiros quererem me desmoralizar, dirijo-me com otimismo às mulheres no seu dia internacional. Esta é uma mensagem às mulheres do México e dos Estados Unidos, e as mulheres de outros países que também sofrem discriminação. A minha mensagem é que não desanimem, que protestem, lutem se crêem que são humilhadas seja no trabalho, no seu local de moradia ou mesmo em casa.

A vida para as mulheres em países como o México e muito difícil, sobretudo se somos de famílias camponesas e de povoados como o meu, no meio das montanhas de Guerrero, Estado onde sempre houve muita pobreza e falta de todo tipo de serviços públicos. Também sempre houve muita corrupção e abuso dos governantes.

Sempre trabalhei para manter as minhas filhas, a primeira das quais nasceu quando eu tinha 16 anos. Tive de imigrar muito jovem para os Estados Unidos, onde trabalhei em muitas coisas, limpando casas e como empregada de mesa em restaurantes. Pelo meu esforço também adquiri a cidadania norte-americana.

Mas nunca esqueci as minhas raízes, os meus pais, irmãos e família, que visitava com frequência. Tampouco esqueci o meu povo e comunidade. Não pude ser indiferente ao que estava ocorrendo com os meus vizinhos e o povo de Olinalá, o que, infelizmente, ocorre em muitos lugares do nosso México querido. Os abusos dos delinquentes eram coisa de todos os dias, já não se podia viver em paz, já não podíamos sair de casa, já não podíamos trabalhar, viajar, empreender um pequeno negócio, mandar os nossos filhos com tranquilidade para a escola e nem mesmo ir à praça para tomar um simples gelado.

Logo o povo se organizou e me elegeu como a sua representante. Sou a coordenada da polícia comunitária de Olinalá. No principio tudo foi apoio e atenção do governo. O próprio governador deu-nos duas camionetes e apoio. Também nos deram documentos em que nos reconheciam como polícias comunitárias.

Nós, os comunitários, fizemos o nosso trabalho e fizemo-lo muito bem. Atendemos aos anseios do povo de Olinalá. Combatemos os delinquentes e os que os apoiavam, reduzindo em cerca de 90% os crimes importantes em apenas um ano de luta. Talvez por isso o governo terminou por nos agredir e a mim por capturar-me, junto com outros 12 polícias comunitários da CRAC de Guerrero. Fui capturada no meio de uma impressionante operação militar e policial que o governo não dedica nem aos piores traficantes. Em algumas horas fui mandada para Nayarit, uma prisão de alta segurança, onde estou como se fosse um animal perigoso, isolada dos demais. Só me permitem visitar uma irmã a cada duas semanas e agora uma das minhas filhas. Não posso falar com ninguém., não vejo e nem tomo sol. Não posso receber revistas nem jornais. Nem uma carta ou desenho dos meus netos. Só posso falar uns poucos minutos, por telefone, uma vez por semana, com a minha filha Zaira. Não posso ver televisão.

Sei que querem quebrar-me, mas não conseguirão. Sei que com a minha prisão querem que me arrependa e também todos e todas as demais que se levantem no México contra tanta injustiça. Mas não vão conseguir. Nunca sairá da minha boca um pedido de perdão. Não tenho porque pedir perdão a ninguém. e, muito menos, ao governo. De minha boca e do meu coração só escutarão as palavras de alento para todos aqueles e aquelas que, como eu, se decidam por fazer algo pelo seu povo e os seus filhos.

Dirijo-me especialmente às mulheres, às esposas e mães de outros comunitários presos e digo-lhes que devemos aguentar a fria prisão e que está mais próximo do que acreditamos o dia em que seremos livres. Às mulheres em geral digo que não fiquem sem fazer nada, que não tolerem o governante corrupto e mafioso, que não aceitem a discriminação, de modo algum, nem os maus tratos. Às mulheres de Olinalá, peco que continuem a luta que iniciamos há mais de um ano junto aos nossos esposos e vizinhos.

Os meus carcereiros acusam-me disto e daquilo. Mas sei que, no final, sairei da prisão. Fá-lo-ei com a cabeça erguida, porque sei que ninguém acredita que eu seja uma delinquente. Porque as pessoas honradas do México, dos Estados Unidos e de outros países sabem que sou uma prisioneira política. E sairei da prisão para prosseguir a luta que iniciei na policia comunitária de Olinalá.

Avante mulheres do México e do mundo. A historia ensina que quando ganhamos algo é porque houve sacrifícios. Estamos dispostos a fazê-los. Não tenhamos medo e, sim, tenhamos vontade de acabar com os males e os maus. Dessa maneira, aguarda às mulheres um futuro melhor e luminoso.

Nestora Salgado

Prisão de Alta Sguranca de Tepic, Nayarit, 7 de março de 2014

Fonte: Esquerda.Net