Mensagem do Papa Francisco

“Ângelus”, dia 17.O2.2019

Caros irmãos e irmãs, bom dia!

O Evangelho de hoje nos apresenta as bem-aventuranças, segundo a versão de São Lucas. O texto associa quatro bem-aventuranças e quatro advertências, formuladas com a expressão “Ai de vocês!” Por meio destas palavras, fortes e incisivas, Jesus nos abre os olhos, nos faz ver com o Seu olhar, para além das aparências, para além do superficial, e nos ensina a discernirmos  as situações com fé. Jesus declara,bem-aventurados os pobres, os que passam fome, os aflitos e os perseguidos, enquanto lança ameaças aos que são ricos,  aos fartos e aos que se riem e aos que são aclamados pela gente. A razão destas bem-aventuranças paradoxais está no fato de que Deus está próximo daqueles que sofrem e intervém para libertá-los de sua escravidão. Jesus vê isto, já vê a bem aventurança para além da realidade negativa. Igualmente o “Ai de vós”, dirigido aos que hoje passam bem, serve para “despertá-los” do perigoso equivoco do egoísmo e para abri-los à lógica do amor, até que estejam a tempo de fazer isto.

A passagem do Evangelho de hoje, nos convida então, a refletirmos sobre o profundo sentido da verdadeira fé, que consiste em confiar-nos totalmente ao Senhor. Trata-se de combater os ídolos mundanos, a fim de abrirmos o coração ao Deus vivo e verdadeiro. Só ele pode dar dar à nossa existência aquela plenitude tão desejada, e no entanto, difícil de alcançar.

Irmãos e irmãs, de fato, nos dias atuais também são muitos os que se apresentam como dispensadores de felicidade: vêm e prometem sucesso em tempo breve, grandes vantagens ao alcance da mão, com soluções mágicas para todo tipo de problema, e assim por diante… E aqui é fácil sucumbir sem se perceber o pecado contra o primeiro mandamento, isto é, o da idolatria, substituir Deus por um ídolo. Idolatria, ídolos parecem coisas de outros tempos, mas na verdade são coisas de todos os tempos! Inclusive de hoje. Indicam algumas atitudes contemporâneas melhor do que muitas análises sociológicas.

Por que Jesus nos abre os olhos sobre a realidade? Nós somos chamados à felicidade, a sermos felizes, e assim nos tornamos e assim nos tornamos à medida que nos colocamos do lado de Deus, do Seu Reino, do lado do que não é efêmero, mas dura pela vida eterna. Somos felizes, se nos reconhecemos necessitados diante de Deus. E isto é muito importante: “Senhor eu tenho necessidade de ti”. E se, como Ele e com Ele, estivermos próximos dos pobres, dos aflitos e dos que passam fome. Também nós os seremos diante de Deus: somos pobres, aflitos e temos fome diante de Deus. Tornamo-nos capazes de ser alegres, a cada vez que, possuindo bens deste mundo, deles não fazemos ídolos a quem vender nossa alma, mas somos capazes de partilhar-los com os nossos irmãos. Sobre isto, hoje a liturgia nos convida, mais uma vez a nos questionarmos e a tornarmos verdade em nosso coração.

As bem-aventuranças de Jesus são uma mensagem decisiva, que nos adverte a não colocarmos nossa confiança nas coisas materiais e passageiras, a não procurar a felicidade junto aos “vendedores de fumaça” – que muitas vezes são vendedores de morte – e profissionais de ilusões. É preciso não ir atrás destes, porque são incapazes de nos dar esperança. O Senhor nos ajuda a abrir os olhos, a ter um olhar mais penetrante sobre a realidade, a curar-nos da miopia crônica que o espirito mundano nos transmite. Com a sua Palavra paradoxal, ele nos sacode e nos faz reconhecer o que realmente nos enriquece, nos sacia, nos dá alegria e dignidade. Em breve, aquilo que realmente dá sentido e plenitude à nossa vida.

Que a Virgem Maria nos ajude a escutar este Evangelho com a mente e o coração abertos, para darmos frutos em nossas vidas, e que nos tornemos testemunhas da felicidade que não decepciona, aquela felicidade dada por Deus que jamais decepciona.

Trad.: AJFC

Digitação: Gabriel Luar Calado Bandeira e Eleonora Calado Deplagne

 

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