Mensagem do Papa Francisco

 “Ângelus”, dia 23.09.2018

Caros irmãos e irmãs, o Livro da Sabedoria que ouvimos na primeira leitura, nos fala do justo perseguido, de quem apenas a presença incomoda os ímpios. O ímpio é descrito como aquele que oprime o pobre, que não se compadece da viúva, nem respeita o idoso. O ímpio tem a pretensão de pensar que sua força seja a norma da justiça; pensar submeter os mais frágeis, usar a força de qualquer maneira, impor um modo de pensar, uma ideologia, um discurso dominante, usar a violência ou a repressão para dobrar os outros, que agem em seu cotidiano de modo honesto, simples operoso e solidário, manifestando que um outro mundo, uma outra sociedade é possível. Ao ímpio não basta fazer aquilo que lhe pareça, deixar-se guiar pelos seus caprichos; não quer que os outros, fazendo o bem, ponham em destaque este seu modo de agir. No ímpio, o mal procura sempre anular o bem.

Se muito faz cinco anos, esta Nação assistia à definitiva destruição do Gueto de Vilnius; culminando assim a extinção de milhares de hebreus, num extermínio que havia iniciado dois anos antes. Como se lê no Livro da Sabedoria, o povo hebreu passou por ultrajes e tormentos. Façamos memória desse tempo, e peçamos ao Senhor que nos conceda o dom do discernimento para descobrirmos em tempo de algum modo novo, o germe daquela atitude perniciosa que, de todo modo, atrofia o coração das gerações que não o vivenciaram e que poderiam dar marcha à ré naquele canto da sereia.

Jesus, no Evangelho, nos lembra uma tentação sobre a qual deveremos estar vigilantes e atentos: a ânsia de sermos os primeiros, de estar à frente dos outros, que pode aninhar-se em todo coração humano. Quantas vezes aconteceu que um povo se creia superior, com mais direitos adquiridos, com maiores privilégios a preservar ou a conquistar. Qual é o remédio que Jesus propõe, quando aparece tal pulsão em nosso coração e na mentalidade de uma sociedade ou de um país? Fazer-se o último de todos e o servidor de todos; estar lá onde ninguém vai, onde nada acontece, na periferia mais distante; e servir criando espaços de encontro com os últimos, com os descartáveis. Se o poder tomasse decisão, se nós permitíssemos que o Evangelho de Cristo de alcançar o mais profundo de nossa vida, então a globalização da solidariedade seria de fato uma realidade. “Enquanto no mundo, especialmente em alguns países, reaparecem diversas formas de guerra e desencontros, nós cristãos insistimos na proposta de reconhecer o outro, de sarar as feridas, de construir pontes, estreitar relações ajudar-nos a carregar o fardo uns dos outros” Evangelii gaudium, 67).

Aqui, na Lituânia, existe uma colina de cruzes, onde milhares de pessoas, ao longo de séculos, plantaram o sinal da cruz. Eu os convido, enquanto orarmos o “Angelus”, a pedirmos a Maria que nos ajude a plantar a cruz do nosso serviço, da nossa dedicação lá onde tenham necessidade de nós, na colina onde vivem os últimos, onde se requer delicado cuidado aos excluídos, às minorias, para distanciar dos nossos ambientes e das nossas culturas a possibilidade de aniquilamento do outro, de marginalização, de continuarmos a descartar aqueles que nos são incômodos e perturbam nosso comodismo.

Jesus põe no centro uma criança, põe-no na mesma distância de todos, para que todos nos sintamos provocados a oferecer uma resposta. Fazendo memória do “sim” de Maria, peçamos-lhe que torne o nosso “sim” generoso e fecundo como o dela.

Trad.: AJFC