Memória e justiça na Universidad Nacional de Cuyo (Argentina)

No dia 22 de março deste ano, foi realizada uma homenagem aos estudantes e professores da Facultad de Ciencias Políticas y Sociales da Universidad Nacional de Cuyo, Mendoza, que foram perseguidos pela ditadura cívico-militar argentina. O ato consistiu na inauguração de um mural com o nome dos 136 estudantes que foram expulsos em 1976 sob a alegação de serem ou terem sido subversivos, e mais o nome dos professores que foram demitidos. Há na placa, também, o nome de cinco desaparecidos que pertenceram ao quadro da UNCuyo.

A placa se encontra na aula magna da casa de altos estudos, que leva o nome de Mauricio López, professor e cristão metodista, também desaparecido pela ditadura cívico-militar. Soube deste ato de reparação da memória, pela decana da Facultad de Ciencias Políticas y Sociales, Mgter. Graciela Cousinet, que me convidou ao ato dias antes do acontecimento, me informando que o meu nome estava na placa. O que senti ao saber disto, foi um grande alívio. Agora mesmo, que escrevo estas linhas, suspirei fundo.

No tempo em que fomos expulsos da universidade pela ditadura cívico-militar que matava e sequestrava a torto e a direito em nome de uma luta anti-subversiva mentirosa e implacável, ser chamado de subversivo equivalia a várias coisas, nenhuma delas agradável. A imediata: você está na lista, você poderá desaparecer a qualquer momento, como todos os outros e outras que vinham desaparecendo nesses dias e nos anos anteriores, quando os comandos paramilitares e parapoliciais já vinham matando por toda parte da Argentina. A consequência imediata de termos sido expulsos da universidade foi uma perda total de referências.

Ficamos isolados, ninguém queria contato com subversivos, poderia ser o passaporte para a morte ou para o desaparecimento, que significava tortura e esquecimento. As pessoas diziam, direta ou indiretamente: por algo será. Ou seja, você estava na mira dos algozes, e ninguém queria ficar do seu lado, a não ser a família e alguns amigos desses raros, que valem tudo. Quando, passados 36 anos do golpe militar na Argentina, soube desta homenagem, senti que foi feita justiça. A pecha de que algo de errado tínhamos feito, ficara finalmente afastada.

Nada de errado tinhamos feito, ao contrário. O que fora punido pela delinquência cívico-militar, fora uma atividade construtiva, positiva, legal, que consistira na elaboração de um curriculum da carreira de sociologia, que envolveu a participação de docentes e estudantes, e consulta às entidades sociais e populares, para construir uma sociologia ao serviço das classes populares e dos trabalhadores. Isto era um delito para os delinquentes. Agora que o nosso nome foi limpo, olhamos para a frente, prosseguindo com a tarefa de construir homens e mulheres novos, mais fraternos e mais justos, formas de sociabilidade inclusivas, libertadoras.

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