Meio século de viola não é brincadeira não

Evocar os irmãos Batista (Otacílio, Dimas e Lourival) tem sido algo muito mais freqüente do que se pode imaginar. Ícones do Repente, em todos os recantos do Brasil.

Não conto as vezes em que, ora da parte do Prof. Aleixo Leite Filho, ora parte do Prof. José Rabelo de Vasconcelos, ambos colegas meus, por vários anos, na Faculdade de Arcoverde (com Aleixo, também, na Faculdade de Filosofia de Caruaru), escutava histórias desses Repentistas exponenciais, em suas proezas em parceria com outros ícones, como Pinto de Monteiro, para citar um só exemplo.

Nas estrofes que seguem, cabe ao sobrevivente da trindade a tarefa de evocar um pouco de suas proezas.

Sou do Pajeú das Flores
Rama do mesmo jardim
Cidade de Itapetim
Dos três irmãos cantadores
Lá eu cantei meus amores
Na noite de São João
No tempo que no sertão

Quem mandava era a pistola
Meio século de viola
Não é brincadeira não

No começo de quarenta
No dia seis de janeiro
Fiz meu repente primeiro
De anos já faz cinqüenta
A viola me sustenta
Deus é mais do que patrão
Jogou em meu coração
Do céu a bendita esmola
Meio século de viola
Não é brincadeira não

Lourival, o mais fecundo
Repentista da trindade
Dimas já virou saudade
Sem saudade desse mundo
De Severino e Raimundo
Eu canto a recordação
Nas asas da inspiração
Meu pensamento decola
Meio século de viola
Não é brincadeira não

Foi sorte nascer com sorte
E viver sempre cantando
Pelo Brasil espalhando

Poesia de Sul a Norte
Canto até depois da morte
O que não cantei no chão
Sou livre como a canção
De um canário sem gaiola
Meio século de viola
Não é brincadeira não.

Para nos contar alguns traços de seu longo e produtivo percurso, Otacílio Batista serviu-se das estrofes de dez versos setessilábicos, glosados a partir do mote “Meio século de viola / Não é brincadeira, não”. Quanto ao tipo de rima, acosta-se ao padrão ABBAACCDDC.

In: Florilégio de estrofes da poesia sertaneja (João Pessoa: Edições Buscas, 2009)

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