Manifesto da Juventude Operária Católica (JOC)

Encontro Nacional de Antigos/as e Atuais Jocistas

Manifesto 

A Juventude Operária Católica é um movimento internacional fundado por Joseph Cardjin, a partir de um grupo de empregadas domésticas, na Bélgica, em 1912. No Brasil, o movimento está completando 70 anos de caminhada, e, para refletir e celebrar sobre a intensa luta travada ao longo desses anos, nós, antigos/as militantes e os/as atuais jocistas, reunimo-nos, entre os dias 15 e 18 de novembro de 2018, no Arraial de Macacos, Minas Gerais, Brasil, ocasião em que lançamos um olhar sobre o mundo e sobre a atual realidade brasileira, considerando especialmente a nossa classe e a juventude trabalhadora, em vários níveis e aspectos. Lançamos um amplo e profundo olhar sobre diversos aspectos da vida dos/as excluídos/as da sociedade capitalista brasileira: negros, mulheres, lgbts, sem-terra, moradores de rua e demais segmentos marginalizados. 

Comprometidos/as e acreditando na afirmação feita por Cardjin neste município, quando de sua visita à mina Morro Velho, de que “um jovem trabalhador vale mais que todo o ouro do mundo”, dialogamos sobre as causas e as consequências da brutal realidade que assola a classe trabalhadora, afetando principalmente os/as mais fragilizados/as. Reafirmamos a necessidade de mantermos vivos a esperança e o compromisso com a construção de uma sociedade nova, sem explorados e exploradores, justa, igualitária: socialista. 

Rechaçamos, radicalmente, um mundo dividido entre uns poucos que possuem tudo e os muitos que não possuem nada. 

Por isso, ao longo de sua caminhada no Brasil, a JOC vem participando ativamente da luta pela libertação da classe trabalhadora e pelo fortalecimento de uma Igreja evangelicamente compromissada com os pobres. Assim, desde os seus primórdios, a JOC assume o compromisso de formar e organizar os jovens trabalhadores e, por meio da ação deles, fortalecer a organização de base da classe trabalhadora, anunciando e vivenciando no cotidiano o seu método ver-julgar-agir, instrumento metodológico que revolucionou a prática da Igreja Católica no Brasil e no mundo. 

Nos últimos 70 anos, a JOC participou das principais lutas da classe trabalhadora e da Igreja: 

  1. a) A JOC foi precursora da Teologia da Libertação; 
  2. b) Participou ativamente da luta pela ampliação dos direitos trabalhistas consagrados na CLT; 
  3. c) Pelo fortalecimento da organização de base dos trabalhadores; 
  4. d) Por um sindicalismo organizado pela base; 
  5. e) Na denúncia dos desmandos cometidos pelos militares durante a ditadura militar; 
  6. f) Contribuiu decisivamente para a organização de partidos políticos comprometidos com os trabalhadores; 
  7. g) Foi a primeira organização a problematizar a realidade das empregadas domésticas no Brasil e investir na organização deste segmento, cuja luta culminou com a promulgação, em 02/04/12, da Emenda Constitucional 72, mais conhecida como a PEC das Domésticas;
  8. h) Pela redemocratização do País e pelo fim da ditadura militar, quando vários/as militantes foram presos/as e torturados/as e outros/as tiveram que viver na clandestinidade sem, contudo, abandonar a luta operária; 
  9. i) Pela garantia dos direitos civis, políticos e sociais previstos na Constituição brasileira que, aliás, ajudamos a elaborar; 
  10. j) Por melhoria nas condições de vida, trabalho e salário; 
  11. k) Pelo fim da intolerância e desigualdade social nos vários vieses (de cor, de gênero, de classe, de faixa etária, etc.); e 
  12. l) Pela denúncia dos atos temerários da justiça seletiva, da mídia golpista e do governo autoritário, entre outros. 

A JOC segue formando e organizando a juventude desde os locais de trabalho, nos bairros, nas escolas, nas experiências econômicas solidárias autogestionárias e nas mobilizações políticas como a resistência às Reformas Trabalhista e Previdenciária, que fazem aumentar ainda mais a exploração da classe trabalhadora e a violência social, que afetam principalmente a juventude mais pobre e marginalizada. 

Diante da intolerância e da perseguição aos/às mais fragilizados/as, que graçam no mundo e no Brasil, com perdas de direitos, aumento dos preconceitos, banalização da violência, manutenção de privilégios e benesses para alguns e a realização de lucros astronômicos pelo setor financeiro e grandes empresas, verificamos que, nas relações capital/trabalho, apenas o primeiro tem primazia. 

Em face dessa realidade repleta de injustiças, é preciso reinventar gestos de amor, solidariedade e ação entre aqueles/as que amam e lutam pela vida. Nesta perspectiva, o Encontro Nacional de Antigos/as e Atuais Jocistas se inscreve como uma “promessa de vida para nossos corações”. 

Ao celebrar os 70 anos de organização da JOC no Brasil, rememoramos e aprendemos com as experiências de ação passadas e atuais que contribuíram e contribuem para a formação de jovens trabalhadores/as, educando-os/as para serem agentes de transformação de suas vidas, nos seus ambientes de bairro, escola, família e trabalho. Os/as antigos/as e atuais militantes jocistas estão hoje engajados e assumindo responsabilidades em sindicatos, associações de moradores, igreja, organização de mulheres, de negros e outros movimentos sociais, sempre se destacando pela importância de sua contribuição metodológica no processo organizativo, questionando e pautando os objetivos finais do que se quer alcançar com a ação que se está desenvolvendo, com vistas a enfrentar os diversos desafios impostos à juventude trabalhadora pela atual conjuntura. 

 

NOSSO COMPROMISSO 

Em continuidade deste Encontro e em consonância com os princípios e valores da solidariedade e do compromisso fraterno com os/as mais pobres, oprimidos/as e marginalizados/as reavivados na Igreja Católica pelo Papa Francisco ao nos propor sermos uma Igreja de Saída, assumimos como gestos concretos que: 

Continuaremos avançando na luta pela conquista de espaços de participação organizada dos/as jovens trabalhadores/as em todos os setores, principalmente nos organismos de classe e na direção política da sociedade; 

Continuaremos atuando em conjunto com todas as entidades que lutam pelos/as oprimidos/as e marginalizados/as, apoiando suas ações e valorizando o nascimento, desenvolvimento e consolidação de grupos que tenham uma prática libertadora; 

Continuaremos atuando a partir dos espaços que vivemos e trabalhamos, tendo como base o aprendizado obtido na JOC, em especial com o uso do método ver-julgar-agir, a fim de provocar as necessárias mudanças para a conquista da cidadania plena; 

Continuaremos a atuar denunciando e exigindo a revogação das mudanças aprovadas na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) que retiram direitos dos/as trabalhadores/as; 

Continuaremos a denunciar e a lutar pela reversão das privatizações executadas e pelo fortalecimento das empresas públicas; 

Continuaremos a denunciar e lutar pela supre3ssão da Emenda Constitucional 95, que congela os investimentos sociais por 20 anos; 

Continuaremos a lutar pela realizaç~.ao de uma Auditoria Cidadã da Dívida Pública, que consome aproximadamente metade de todo o orçamento público brasileiro; 

Continuaremos a lutar pela plena efetivação da Reforma Tributária que combata a desigualdade, taxando as grandes fortunas, as grandes heranças, os dividendos de grandes empresas e do sistema financeiro e pela reversão das isenções fiscais e do per5dão de dívidas e cobrança dos impostos devidos por grandes empresas; 

Continuaremos a lutar pela retomada dos programas sociais nos moldes anteriores a 2016, reforçando-os e universalizando-os; 

Continuaremos a denunciar a partidarização e seletividade da justiça brasileira que pune apenas os pobres; 

Continuaremos aa mobilizar a sociedade para uma ampla Reforma do Estado, que estimule mecanismos de participação direta, promova a democratização e a pluralidade dos meios de comunicação e garanta o pleno respeito aos direitos humanos; 

Continuaremos a ser solidários às lutas para implementação do direito à demarcação das terras indígenas e quilombolas que reconheça a existência e os direitos das comunidades tradicionais, no campo e nas cidades, e pela realização de uma reforma agrária ampla e popular, com incentivos à produção agroecológica e agroflorestal e à comercialização de alimentos saudáveis para toda a população brasileira 

Fazemos um chamado a todos/as jovens trabalhadores/as, a todas as organizações de classe e à população em geral a discutir e difundir este Manifesto que é fruto do Encontro Nacional em Celebração aos 70 anos da JOC no Brasil.

Coordenação Nacional da JOC Brasileira

 

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