Mais pragmatismo, por favor

Três trágicos acontecimentos recentes poderiam talvez ter sido evitados caso a sociedade brasileira fosse mais pragmática e menos apaixonada, ideológica e preconceituosa no tratamento de certas questões, o que, é claro, influencia as decisões políticas no país.

O assassinato do comandante da UPP de Nova Brasília, no Complexo do Alemão, no Rio, é apenas mais um dentre os milhares que já aconteceram e que estão por vir nesta guerra estúpida contra as drogas. Morrem policiais e inocentes enquanto a própria polícia, empresários e políticos enriquecem com o tráfico de drogas e armas – este último diretamente associado ao primeiro, no caso de países pobres ou em desenvolvimento, como o Brasil.

São essas mesmas pessoas, que raramente são presas – já que o público se satisfaz com a execução de aviões e soldados do tráfico e a captura de gerentes do varejo, como Fernandinho Beiramar e afins –, que estão por trás de discursos moralistas que buscam inviabilizar qualquer discussão séria quanto à questão das drogas. Afinal, o quanto não perderiam de receita caso fossem legalizadas? Quantas ONGs e clínicas de reabilitação controladas por pastores evangélicos ou ambiciosos psiquiatras não perderiam seu monopólio no tratamento de usuários?

Outro caso lamentável é o da mulher que recorreu a uma clínica clandestina para realizar um aborto e que, até o momento, está desaparecida. Estima-se que quase um milhão de brasileiras abortem por ano no país. Muitas dessas pacientes, basicamente as mais pobres, morrem ou acabam recorrendo ao SUS após o processo, em função da precariedade do serviço prestado, gerando prejuízo anual de milhões aos cofres públicos. No entanto, o tema ainda é tabu e, principalmente devido à pressão de grupos religiosos, é evitado pelos principais candidatos à presidência da república nas atuais eleições, apesar da laicidade do Estado brasileiro.

A terceira situação que destaco é mais um forte indício de que é necessário que o país disponha de uma lei que criminalize a homofobia. Trata-se do incêndio criminoso de um centro de tradições gaúchas, no Rio Grande do Sul, onde seria promovida a cerimônia de casamento entre duas mulheres. Parafraseando a declaração feita por uma juíza na última semana, se há punição específica para aqueles que cometem atos racistas e de intolerância religiosa, por que não deveria haver no caso de agressão ou ofensa por conta da orientação sexual da vítima?

Estamos em 2014, com experiência o bastante para saber que a humanidade não vai parar de consumir drogas. Narcóticos sempre foram usados por homens e mulheres, seja litúrgica ou medicinalmente, sem contar que há registros científicos de animais que ingerem frutos com substâncias entorpecentes simplesmente para “curtir o barato”.

Tampouco as mulheres vão parar de abortar, quanto mais em uma sociedade em que ter filhos custa cada vez mais caro e que as coloca diante da difícil decisão de ser mãe ou profissional de sucesso. Isso para não falar no caso de grávidas que não teriam condições financeiras ou psicológicas de criar uma criança.

Também é um absurdo pensar que as relações homossexuais deixarão de existir em algum momento. Elas sempre ocorreram e, mais que isso, eram, em sociedades como a grega (berço intelectual da sociedade ocidental), tratadas de modo totalmente diferente, a ponto de filhos de famílias abastadas serem orientados por seus próprios pais a se iniciarem sexualmente com homens poderosos, a fim de ganhar prestígio e sabedoria.

E, para o desespero daqueles que maldosamente (ou por ignorância mesmo) associam a homossexualidade a uma suposta “sem-vergonhice” humana, esse tipo de relação entre os animais também está fartamente documentado na literatura científica. Surpreendentemente, nada disso pôs em risco a perpetuação de espécie alguma – certamente não mais do que a interferência humana.

Críticos exaltados gostam de dizer que são a favor da vida e da família, como vêm fazendo quase todos os candidatos nestas eleições. É um discurso estratégico, pois, ao mesmo tempo em que lhes dá um ar de bonzinhos e corretos, relega aqueles que se propõem a discutir a descriminalização/legalização das drogas e do aborto, ou que são a favor da união civil homossexual, a uma suposta condição de seres malévolos. É de um simplismo sem tamanho, mas que dá muita audiência, apesar do maniqueísmo barato.

Nossos governantes têm a obrigação de ao menos inserir essas pautas na agenda política do país, pois não podem fechar os olhos para as graves consequências de leis obsoletas que, hoje, sustentam-se mais por conta de interesses comerciais e religiosos do que por qualquer argumento lógico.

Quanto às bancadas radicais no Congresso, por que não se prestam a lançar iniciativas pró-ativas, a fazerem algo produtivo, em vez de se dedicarem exclusivamente a barrar propostas que, na prática, não lhes afetarão?

Aos que são contrários ao uso de drogas, ao aborto e à homossexualidade ou união civil gay, que tal não usarem drogas, não abortarem e não transarem ou se casarem com pessoas do mesmo sexo, deixando aqueles que o desejam em paz? #ficaadica

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