Luzes da enfermidade

Costumo associar aquelas fotos da Terra em que o planeta aparece recoberto por pequenos pontos de luz – cujos maiores focos representam as regiões mais “desenvolvidas” do mundo, principalmente no hemisfério norte – a um corpo enfermo; algo correspondente a uma imagem feita por microscópio de uma célula recoberta por bactérias ou infectada por algum tipo de vírus, pois, como se sabe, o estado natural do planeta não comporta dispositivos de iluminação que não o sol.

Fico imaginando, como já se especula há tempos, até quando o mundo suportará o uso abusivo que a humanidade faz de seus recursos e todos os dejetos, naturais e sintéticos, que são produzidos e retornados à natureza diariamente. Por vezes, meu desânimo se intensifica a tal ponto que chego a pensar se seria correto ter filhos, sujeitando-os à falta de abastecimento de água e comida, temperaturas insuportáveis e outros possíveis problemas que venham a aparecer no futuro. Quando recobro a consciência, no entanto, logo desconsidero a possibilidade, pois nada, para mim, pode ser melhor do que ter filhos. E, então, ponho-me a pensar – numa dimensão um tanto onírica, é verdade – em possíveis soluções para mudar o curso da inconsequente relação que as sociedades vêm mantendo com seu próprio planeta.

De certo, não existe uma única resolução para o problema, o qual, acredito, demanda como contrapartida diversas ações de cunho prático, verdadeiramente estruturais, que possam alterar e recuperar o atual cenário. Penso haver, contudo, um ponto inicial de mudança, de ordem conceitual, que poderia contribuir para essa tão esperada revolução. Tratar-se-ia de retirar o status de verdade absoluta da ideia de que as sociedades precisam crescer indefinidamente, como se, uma dia, fossem chegar a um ponto ótimo, ou algo parecido.

Isso porque tal concepção gera uma série de efeitos sociais, econômicos e ambientais, além de interpretações errôneas e diretrizes equivocadas – quando não tendenciosas – que, a meu ver, são prejudiciais ao planeta Terra e, por consequência, à humanidade. Um deles se expressa na forma como se avalia a situação de cada país. Geralmente, os mais bem ranqueados e que, com isso, adquirem mais prestígio internacional, são os países que apresentam os maiores níveis de crescimento econômico e atividade industrial, como vem acontecendo com os “neo Tigres Asiáticos”, os BRICs (Brasil, Rússia, índia e China, em especial esta última).

Não obstante a crescente relevância que tais nações vêm obtendo no cenário internacional – obviamente em função dos interesses comerciais que os países mais desenvolvidos têm sobre eles –, internamente, velhos problemas se somam a novas mazelas. Se tomarmos a China como exemplo, veremos que o país nunca poluiu tanto, que sua população é vítima de práticas de dumping social e que o velho cerceamento ideológico continua a pleno vapor. Na índia, a miséria subsiste escancaradamente; a Rússia mantém despudoradamente parte de sua cortina de ferro sobre a Europa Oriental, enquanto o Brasil não consegue universalizar sua rede de saneamento básico, não controla o desmatamento, prepara novos projetos hidrelétricos que podem comprometer sua bacia hidrográfica e aumenta seus níveis de poluição.

É com base nisso que me pergunto: por que a cega obstinação pelo crescimento, mesmo com a falta de recursos que já se observa em escala mundial? Por que não se consideram campanhas de conscientização da população para evitar novas explosões demográficas? Qual a finalidade de avaliar um país via PIB e evolução industrial, em vez de dar maior relevância a aspectos que indiquem verdadeira qualidade de vida em termos coletivos? Não seria mais lógico considerar a situação atual das sociedades do que apostar na promessa de um estágio futuro em que todos serão ricos e felizes? Sem dúvida que sim. Porém, é interessante para os poucos que estão no topo da pirâmide manter as massas em seu lugar, prometendo-lhes um lugar ao céu, desde que sigam fazendo o trabalho braçal (a troco de quase nada).

O mundo utópico, em que todos têm dinheiro – como se o capitalismo fosse viável com o perfeito equilíbrio econômico-social (!!) –, onde não há miséria, guerras, drogas, etc., é a melhor justificativa para a manutenção de governos intervencionistas, que mantém as rédeas do povo sob a justificativa de ser seu maior protetor contra o “mal que assola o mundo” (daí a permanente invenção e reciclagem do Outro ameaçador, como o comunismo russo e Osamas Bin Ladens). Paralelamente, enquanto se pagam impostos exorbitantes que não retornam na forma de serviços públicos de qualidade, e se aceita a violência do aparelho repressor do Estado, dando pancadas em favelados e em servidores que protestam por melhores salários, políticos fazem seus negócios com o empresariado, enriquecem e mantêm tudo como está, porque, afinal, estão prosperando!

E assim prossegue a vida na Terra, num esforço gradativo para acabar com si mesma; visão, sem dúvida, pessimista, mas minimamente realista. Freud foi mesmo genial ao falar em pulsão de morte…

Nessa nos identificamos novamente. Escolhi por um mapa destes mostrando as luzes da insânia acesas pela noite nas conurbações de nosso planetinha, um lugar bem fora
e longe destras sinistras candeias, para continuar e quem sabe terminar minha passagem, por este mundo.

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