Lugar de mim

rodasNunca enfatizarei o bastante, o quanto tenho voltado a ser quem sou, graças ao diálogo. Um diálogo em boa medida possibilitado em particular por esta revista, mas também em espaços como a família e os amigos e amigas. Aquelas pessoas que nos querem bem, que se importam conosco.

A gente pode ter-se perdido, como creio que foi o meu caso, mas podemos nos ter de volta. E para isto, é imprescindível esse espaço aconchegante, caloroso e confiável, de algumas pessoas que verdadeiramente nos querem bem.

Não se volta pela mão de doutrinas ou teorias, dogmas nem fórmulas mágicas. Volta-se pela companhia de pessoas inteiras em quem começamos a ter reflexos do ser que somos. Reflexos que tínhamos deixado de ver, em função da necessidade imposta por papéis sociais em que fomos nos alienando, nos estranhando.

Alguém que acreditou em mim, alguém em quem fui tendo outra vez vislumbres do ser que sou, tornou-se uma peça chave na recuperação da minha identidade. Este alguém é alguém em particular, e várias outras pessoas. Volta-se em comunidade. Daí a Terapia Comunitária Integrativa como um lugar em que a pessoa pode ir se tendo de volta.
Pode ir se lembrando de quem é.

Como seres humanos, somos seres de habitação, seres que ocupam um lugar, ou muitos lugares. Mas os lugares não são espaços arbitrários. O lugar da nossa habitação, os lugares em que podemos ser e de fato somos quem somos, são lugares nossos, lugares próprios.

“Poéticamente habita o ser humano”, disse o poeta. Poéticamente, porque o lugar que somos, o lugar da nossa pertença, é um lugar integrado, não figurado. É um lugar real, feito por nós mesmos; não é um lugar emprestado, ou cedido por alguém.

No tempo em que comecei a me ter de volta em escritos, pela palavra lançada em busca de ecos no diálogo, esta revista era ainda um blog. O fato de ter sido aceito para formar parte deste espaço, foi muito significativo para mim.

Eu comecei a ter vislumbres do meu próprio ser, na medida em que ia interagindo com outras pessoas, algumas conhecidas diretamente, outras virtualmente. E nestes já mais de 13 anos de permanência neste espaço, a vida foi indo, a vida foi vindo, nesse seu vaivém.

Agora estou voltando da minha terra natal, Mendoza, Argentina, onde pude ir me incorporando a trabalhos formativos em Terapia Comunitária Integrativa, em Posadas (Misiones) e Paraná (Entre Ríos). Isto marcou uma inflexão.

Tive que sair da Argentina por causa da situação criada no país pela ditadura cívico-militar que se ensenhoreou da vida e da morte dos argentinos e das argentinas, nos anos de 1976 a 1983. Quebra, perda de raízes.

A recuperação da minha identidade vem ocorrendo nos espaços da Terapia Comunitária Integrativa, mas também no espaço da família e das redes solidárias, de amigos e amigas. Nas redes da saúde mental comunitária e da literatura e da poesia.

A literatura e a poesia como lugares em que se recupera a unidade da vida, a realidade da vivência, sua integridade. A vida tal como ela é, nos vem nestes espaços de refazimento, em que não somos genéricos (ninguém é genérico ou genérica), mas individuais: o ser que somos.

No exercício do diálogo propiciado pelas publicações nesta revista e também nos meus blogs e nos livros que fui publicando nestes 13 anos, foi se desfazendo o estranhamento em que tinha caído, sem me dar conta.

“Ninguém se enxerga sozinho. Necessitamos do outro como nosso espelho e nosso guia” (Peter Berger). Na medida em que fui me vendo nas falas e nas vidas, nas experiências e nas histórias de vida de outras pessoas, pude ir reconstruindo meu próprio lugar.

Pude ir me vendo de novo como um ser com raízes, com uma história pessoal e familiar parecida (embora única), em meio a esforços coletivos de recuperação da própria identidade. Isto é o que a Terapia Comunitária Integrativa possibilita.

Desfaz-se a ilusão da fragmentação, da solidão e do isolamento. Podemos nos ver novamente como coletivos, como partes de uma trama maior que nos inclui, nos contém e nos sustenta, nos dá sentido. Há uma esperança, há um amanhã, porque há raízes, há pertencimento.

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