Lições da convivência

Um vizinho desta cidade, cansado de reclamar inutilmente sobre as condições insuportáveis a que o submetera a convivência indesejada com um vizinho desconsiderado que durante mais de cinco anos poluía o ar e fazia barulhos inconvenientes, decidiu tirar proveito do que parecia ser uma situação sem saída.

Uma vez que nada podia fazer para se livrar, nem por entendimento direto nem indireto, dos barulhos e do mal cheiro, optou por se aproveitar das lições de convivência que obtivera nesse árduo período.

Obteve a solidariedade e a intermediação amiga, o apoio de familiares, e soube do valor dos conselhos de quem passara por situações semelhantes. Percebeu que não estava só, e que, embora tivesse razão, porque a área da sua residência não é comercial nem industrial, nada poderia fazer para preservar seu direito ao sossego e ao ar puro.

Ao invés de continuar se digladiando contra o que não poderia mudar, decidiu, como tantas outras pessoas neste mundo, cooperar com o inevitável. Leia-se: aproveitar o som da oficina mecânica para lembrar do seu bairro na sua cidade natal, tão longe no espaço, onde um ferreiro amenizava o silêncio das tardes com os inevitáveis sons de ferragens batidas e serra elétrica. Pensar que ao menos era preferível essa barulheira oriunda do trabalho familiar, do que outras piores que poderiam vir, se estas cessassem.

Desta forma, queridas leitoras e leitores, findava, ao menos era o que parecia, a aparentemente interminável batalha de um certo vizinho desta cidade, pelo direito ao lazer e ao repouso.