Libertatura

Creio que todas as pessoas são, em si mesmas, um mistério, uma realidade apenas desvendável em parte, e muito laboriosamente. Isto faz com que a minha atitude, e entendo que também de muitas outras pessoas, seja de uma profunda reverência pela vida. Quando a pessoa já viveu um certo número de anos, uma densa experiência se acumula na sua memória. Isto é uma fonte de riqueza, mas também pode nos vedar os olhos para uma realidade que está constantemente mudando, dentro e fora de nós.

Tenho tentado encontrar meu lugar no mundo de muitas maneiras, e continuo tentando. Nisto, os humanos somos tenazes. Admiro a persistência das pessoas que não se rendem, que mesmo quebradas (e quem não esteve?), não se abandonam por completo. Uma réstia, uma faísca, permanecem na maior escuridão. Tal vez a imagem que melhor expresse a condição em que me vejo retratado, seja a de um aprendiz. Alguém que trata de ir descobrindo a cada instante, cada dia, o que vem de novo, o que há de novo. E nesta tentativa, a literatura tem se mostrado para mim a ferramenta mais eficaz.

A literatura desfaz a ilusão do repetido, mostra a constante novidade de tudo dentro e fora de nós. Desfaz a ilusão da objetividade. Pior do que a ilusão, a prisão da falsa objetividade criada pelo intelectualismo, como diz Julio Cortázar em A volta ao dia em 80 mundos. Há como que uma inércia, uma força da rotina, que por aí podem ter-nos ido convencendo de que este dia já foi, de que é mais um dia, e não este único dia. A pressão dos papéis sociais aprisionadores, há várias forças que podem ter-nos ido estranhando de nos mesmos.

E a literatura oferece meios para que possamos ir recuperando a noção da originalidade, a plena vivência deste ser único que cada um de nós é, vivendo momentos únicos, e mais: criando a sua própria realidade, pelo aguçamento da capacidade de observação, pelo despertar de uma atenção acentuada, e pela confiança total em que somos capazes, por nós mesmos, de construir o mundo em que desejamos viver.

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