Ler José Comblin (1923-2011), por Eduardo Hoornaert

1. Hoje, um sentimento de urgência toma conta de nós. Percebemos que nunca na história um grupo tão minúsculo de pessoas comandou, por meio da grande mídia, a vida da quase totalidade da população mundial. Desse modo universaliza um tipo de ditadura que a maioria das pessoas não percebe. A TV instalou-se na vida das pessoas e gerou um tipo de pensamento confuso. Não se revelam os labirintos do poder.

Os noticiários são sistematicamente mentirosos (acerca de Kadaf, Saddam Hussein, etc.) enquanto mantêm silêncio acerca do que é realmente importante (as ‘primaveras’ que se espalham pelo mundo).
Hoje, ter um mestre como Comblin é um privilegio. Pois é raro encontrar pessoas que superam a condição de ‘inteligência confusa’ e dizem as coisas com uma clareza meridional. Os livros desse mestre constituem um tesouro a ser explorado. Quando as coisas mudam com rapidez (como agora), necessitamos urgentemente de pensadores a nos indicar caminhos possíveis, no exato momento em que vivemos. Nosso mestre faleceu antes de tomar conhecimento das primaveras que se iniciaram em janeiro 2011 na Tunísia. Como ele teria comentado isso (como comentou o bolivarianismo)?

2. O que ler de José Comblin? Recomendo ler principalmente acerca de três temáticas, mas sei que com isso nem de longe estou esgotando a riqueza da produção intelectual do mestre. Eis os 3 temas: ‘espírito santo’, ‘povo de Deus’, ’método pedagógico’. O mais importante é o tema ‘espírito santo’, que será abordado amanhã. Só quero lembrar aqui que a ‘obra grande’ (opus magnum) de Comblin comporta 5 livros escritos ao longo de 25 anos (entre 1982 e 2007): Tempo de ação (1982); A força da palavra (1986); Vocação para a liberdade (1999); O povo de Deus (2002), A vida em busca da liberdade (2007). Os três últimos talvez sejam os mais interessantes para as novas gerações (Paulus, SP). O miolo do pensamento de José Comblin está aí.

3. O que quero aprofundar mesmo hoje são os dois temas restantes. Primeiramente o do povo de Deus. Aos 35 anos, Comblin percebe que o povo de Deus (da paróquia de Bruxelas) não é mais o povo de Deus. ‘Aqui não tem mais o que fazer’ (o cristianismo engolido pela burocracia corporativa do clero). Ele parte para o Brasil em busca do povo de Deus. E o encontra. O Brasil o fascina e transforma. Ele é como Paulo fariseu que abandona Israel, mas permanece fariseu. O padre José abandona a igreja, mas permanece padre. Ele enxerga a igreja além da igreja, fica alegre com o ‘subsistit’ de Lúmen Gentium (Vaticano II) e mais ainda com o ‘pacto das catacumbas’ no final do concílio (1965).

Quando Dom Helder lhe pede um texto para Medellín 1968, ele ‘manda brasa’ (tenho comigo um exemplar original da ‘wikileaks’ desse texto para a grande imprensa). Esse texto vai além do cristianismo, além da religião, alcança diretamente os grandes problemas que afligem a humanidade. É baseado numa das leis fundamentais do povo de Deus, a desobediência. As leis foram criadas para que os pobres fiquem calados. Aplicando as leis não se consegue nada. É preciso infringir as leis.

4. Penso que, mais importante que Comblin teólogo (conselheiro de bispos), é Comblin pedagogo. A teologia da enxada é um método pedagógico que excede de longe as experiências concretas de Salgado de São Félix e Tacaimbó. É o método Paulo Freire aplicado à formação de agentes de pastoral. Comblin figura ao lado de Paulo Freire e de Ivan Illich como expressão de uma pedagogia nova que nasce na AL na década de 1960. A ideia de partir de temas geradores é revolucionária. Existe, mais profundamente ainda, uma conexão entre o ‘método Comblin’ e o famoso método Cardijn (ver, julgar, agir). Partir de temas geradores é o mesmo que partir do ‘ver’ para depois ‘julgar’ (conferir com bíblia) e ‘agir’. Nesse método está o valor permanente de Medellín 1968. Se compreendemos o método, descobrimos facilmente as adulterações (como Aparecida 2007: como dizer que a igreja é missionária se ela, na realidade, se articula por meio das paróquias e dos sacramentos?).

Pois o método pedagógico da teologia da enxada está baseado no ‘amor desordenado’. Por amor, Deus renuncia ao seu poder e decide criar o homem livre, o que acarreta necessariamente o pecado (o abuso da liberdade). Em outras palavras, Deus ‘cria’ a possibilidade do pecado quando ele decide criar o homem livre. Daí o desfecho incerto da história humana e a luta que ‘sempre continua’. A história pode dar certo ou resultar em catástrofe. Pois o amor não fundamenta a ordem, mas a desordem. O amor quebra toda a estrutura da ordem. O amor fundamenta a liberdade e, por conseguinte, a desordem.


O autor partilhou estas reflexões em João Pessoa, no Seminário Teológico em Memória de José Comblin, realizado na UFPB (26/10/2011)