Lembrança de Comblin

É grande a tentação de vir a público dizer algumas coisas sobre a partida do nosso querido e inesquecível Padre José Comblin. Talvez seja necessário e oportuno, talvez não. Talvez seja mais o silêncio e o recolhimento, que nos permitam guardar com mais fruto os ensinamentos de alguém que, com tanta sabedoria, soube ser simples ao ponto de ter conseguido ser, e continuar sendo, apenas aquele que é. Esta é a qualidade que mais admiro em alguma pessoa: ela ser quem ela é. Quando é um escritor quem consegue isto, ser os seus escritos, a obra está completa, ele conseguiu. Sou um escritor, e isto é o que mais admiro em quem escreve.

O escritor, o poeta, são os seus escritos. Eles não usam os escritos para se comunicar apenas, não usam a palavra como meio, mas são a palavra, são os escritos. Depois da sua partida, a sua presença começa a vir com mais completude, é como se ele, que estivera disperso em tantas recordações, em tantas leituras e reflexões, nesses poucos e inesquecíveis momentos em que tive a oportunidade de estar com ele, seja em grupo, seja em algumas das nossas caminhadas pela beira mar em Cabo Branco, é como se todo esse ser, com quem conversei poucas mas substanciais coisas a respeito das dores que a ditadura nos legara, sobre o ser poeta, esse ser que fazia o sinal da cruz repetidas vezes sobre o seu corpo, esse ser cuja memória fora tão apropriadamente evocada na missa de sétimo dia na Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe pelos vários padres ali presentes, pelo público em silêncio significativo, é como se todo esse ser, esse único ser, esse ser de luz que vai ganhando mais e mais espaço na minha alma e, acredito, na alma de tanta gente por esse Brasil afora, por essa América Latina afora, esse Comblin que é os seus escritos, é o seu sorriso, é a sua presença de braços cruzados nas reuniões na sua casa do Sítio São José em Bayeux, a nos olhar e a brincar com esse seu tão próprio senso do humor, é como se esse Comblin que ontem reencontro em “O Caminho, ensaios sobre o seguimento de Jesus”, a dizer da vida como peregrinação, o ser e o ter, o amor como a centralidade da vida, é como se esse Comblin que vem cada vez mais a mim, a este presente, a esta hora, fosse já não Comblin mas a própria vida, a lembrança da luz que somos, como tão adequadamente o Padre Josenildo, ou então o outro padre, Waldemir Santana, o primeiro a falar, que começou evocando Comblin.

Já não é mais um ser que se foi, alguém que morreu, embora seja. É esse que se foi, mas é um que está cada vez mais aqui. E é por estares cada vez mais aqui, que te agradeço, que agradeço à vida a graça de ter podido te conhecer, embora muito brevemente. Porque é um ser tão presente e tão simples e profundo como tu, que me lembra da simplicidade e da profundidade da vida. O amor é o começo, o meio, o fim. É algo a ser conquistado, ou talvez esteja tão aqui, que com a tua presença nos queres recordar constantemente isto. Ontem lia “O Caminho, ensaios sobre o seguimento de Jesus”, e agradecia, como agradeço nesta manhã, a clareza do ali dito, e agradeço a quem me emprestou o livro e a quem, na missa da segunda-feira passada, enfatizou este livro com tanta contundência, que aqui estou, tentando, mais uma vez e sempre, ir para lá, para essa Jerusalém que está aqui agora, no meio dos afazeres cotidianos. Quem ama não morre. Não morres, vives.

Sinto-me honrada em ter a graça de poder partilhar desse texto sobre a lembrança do Comblin. Sim concordo inteiramente com o pensamento do cronista com relação a alusão sobre o Ser comblin. Infelizmente não o conhecí pessoalmente, mas tive a graça de ser cnvidada à fazer parte desse tão importante grupo de estudo,” também somos igreja” e aqui ter acesso a obra sua obra.

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