Julio Cortázar e a realidade

O estranhamento, a sensação de não estar de todo aqui, é desenvolvida por Julio Cortázar com relação à criação poética, e, também, com relação ao seu próprio conhecimento de si mesmo. No capítulo “Da sensação de não estar totalmente”, in A volta ao dia em 80 mundos, Cortázar, como em muitos outros textos da sua vastíssima e rica obra, examina a sua própria biografia, a sensação de estranhamento da qual no seu caso e no de muitos outros poetas, literatos e criadores em diversos ramos da arte, nasce a poesia, nasce a obra de arte.

Não é que o estranhamento seja condição sine qua non para esta criação poética ou artística, mas é uma condição da sua possibilidade. No seu próprio caso, Cortázar relata que desde muito pequeno, teve essa sensação de não estar totalmente, uma espécie de paralaxe verdadeira, nas suas próprias palavras. Enquanto não se encontrava no mundo das relações sociais cotidianas, isto acontecia nos livros, na literatura, nos escritos. Ali se encontrava totalmente.

Não sei se estou transcrevendo exatamente o que Cortázar disse ou quis dizer, apenas estou dialogando com a minha própria leitura dele, no campo do estranhamento. Essa sensação de não se encontrar alguém no mundo cotidiano, no dia a dia, na chamada vida real, é um chamado, um apelo, para uma outra dimensão da realidade, ou para muitas outras dimensões da realidade, que muitas vezes se nos escapam.

A poesia e a literatura não são apenas formas de escrever ou de expressar o mundo; são formas de ser e de existir, formas de viver no mundo. Quando lemos estas reflexões de Cortázar, que fazem parte da sua visão sobre a realidade, podemos aprender a prestar mais atenção à nossa própria forma de viver no mundo, de ser no mundo. Nesse mesmo livro A volta ao dia em 80 mundos, Cortázar afirma que a litertura dsfaz a deformação da realidade oriunda da intelectualidade raciocinante, bem como da codificação cotidiana.

Esta é uma frase que aponta para um fato crucial, assinalado pelo autor em “Manual de instruções”, um dos relatos de Histórias de Cronópios e de Famas. Nesse relato, a pessoa acorda e encontra ao seu lado a mesma mulher, o mesmo par de sapatos, a mesma colher para mexer o café, e sai para a rua e encontra a rua. A rua, e não a sua cópia arquivada na memória.

Outra vez, não estou citando frases textuais, mas a minha apropriação de um fato fundamental, que o autor expressa de maneira muito simples e brincalhona: tendemos a substituir a realidade pela sua cópia arquivada na memória. Se a gente não perceber isto, simplesmente estaremos deixando de viver. O aqui e agora, essa fugacidade rápida e evasiva de cada instante, pode estar se nos escapando pelo hábito que a amacia e arredonda, substituindo-a pela sua cópia arquivada na memória.

No seu último poema em prosa, “Después hay que llegar”, Cortázar volta sobre essa mesma condição que a vida nos coloca. A possibilidade de que possamos de fato encontrá-la. Pode-se partir de qualquer coisa: o grito de um gato no telhado, a sinfonia número X de Scriabin, uma lista de desaparecidos. Pode-se partir de qualquer coisa, mas depois há que chegar. Chegar não se sabe bem ao que, mas chegar. E esse lugar ou isso ao qual há que chegar, é o sul, um sul que está no meio a números de telefone e manchetes de jornais. Cortázar nos desafia a virmos a chegar a isto que está aqui, isto que está acontecendo e que poderia ser nosso se talvez.