Jovem Kaiowa sequestrado e torturado por milícia no MS

indiansSegundo denúncia realizada junto ao Ministério Público Federal, na manhã do último sábado, 07 de fevereiro de 2015, ocorreu nas imediações da cidade de Naviraí – Mato Grosso do Sul o sequestro de um jovem indígena Kaiowa seguido de intensa e longa prática de agressões e tortura psicológica, realizadas por parte de um grupo armado.

Tal atitude é alarmante porque volta a anunciar a formação de milícias armadas com intuito de atacar comunidades indígenas e suas lideranças no Mato Grosso do Sul, com finalidade única de impedir os indígenas de terem acesso a seus territórios tradicionais, sobretudo àqueles já demarcados ou identificados pela FUNAI. A ação, desta vez ocorreu contra um jovem de um dos acampamentos que ficam próximos a cidade de Naviraí, (parte integrante da grande aldeia de Santiago Kue), localizados na BR 163, trecho que liga as cidades de Juti à Naviraí.

Segundo o relato que acompanha a denúncia, o relógio marcava 11 horas da manhã quando o jovem Kaiowá de 17 anos, voltava da cidade de Naviraí, caminhando ao longo da BR 163, após uma manhã cotidiana de trabalho. Quando o mesmo passava pelo trecho que fica em frente à fazenda conhecida na região como “Central” próximo ao posto da Policia Rodoviária Federal foi abordado violentamente por um grupo armado constituído de aproximadamente 20 homens que estavam em um comboio de veículos, sendo duas caminhonetes Hilux, uma preta e uma branca, quatro carros populares e mais duas motos.

Com os veículos, rapidamente os jagunços cercaram o jovem que ficou sem nenhum poder de reação ou possibilidade de fuga, ainda mais após os jagunços terem lhe mostrado as armas que portavam na cintura. O jovem então foi levado por cerca de 1 Km para dentro das terras pertencentes à fazenda Central onde atrás de uma pequena picada de mato junto a uma barragem o grupo estacionou. Os jagunços após fotografarem o rosto do indígena passaram a lhe indagar a respeito do nome e aparência das lideranças da aldeia Kurupi. Frente ao silencio e terror do jovem e a afirmação de que o mesmo não pertencia a referida comunidade, os jagunços lhe bateram e apontaram contra ele as armas que portavam, mandando por mais de uma vez que o mesmo ajoelhasse para ser executado. De tempo em tempo, ainda apontavam para a barragem dizendo ao indígena que o atariam as pedras e assistiriam a seu afogamento se o mesmo não cooperasse. O martírio durou mais de seis horas e após muitas outras juras de morte a sua pessoa e as lideranças Kaiowá da região o jovem foi deixado no local.

Investidas constantes e monitoramento por parte de jagunços:

O histórico de violência contra as aldeias do entorno de Naviraí evidenciam que o atentado não foi por acaso e nem se tratou de uma ação isolada. Pelo contrario, é infelizmente uma ação padrão de jagunços contratados pelos fazendeiros da região. Tudo indica que existe de fato um grupo que há tempos está constituído como milícia armada e que tem rondado a região para impedir o avanço dos indígenas na retomada de seu território tradicional, já identificado e legitimado pelos estudos da FUNAI.

Segundo narrativas advindas de pessoas dos diversos grupos indígenas da região que por motivos de segurança não desejam se identificar, os jagunços tem realizado um forte cerco intencional sobre as comunidades e através da observação ou de piquetes na estrada, em especial próximo ao posto da Polícia Rodoviária Federal. Os indígenas afirmam que os jagunços realizam cotidianamente a sondagem e observação de todos os integrantes da aldeia e dos acampamentos que ficam no entorno da fazenda Central, os monitoram e acompanham sua movimentação.

A comunidade de Kurupi há tempos vem denunciando, sem efeito, os atentados sofridos. Em outubro do ano passado houve a tentativa de sequestro de um indígena cadeirante por parte dos jagunços (http://www.cimi.org.br/site/pt-br/index.php?system=news&action=read&id=7800). A região apresenta muitos casos de ataques e inclusive torturas realizadas contra indivíduos e comunidades indígenas. Os indígenas denunciaram estes fatos e ao mesmo tempo solicitaram que as autoridades chamassem a força policial para fazer ronda no local e com isso garantir um pouco de segurança para as comunidades, mas nada foi feito até o momento.

Em outubro do ano passado, o CIMI denunciou uma onda de ameaças advindas de fazendeiros da região com o intuito claro de desmobilizar a luta dos indígenas pela reconquista de seu território tradicional, de onde os indígenas foram sistematicamente expulsos por estes mesmos fazendeiros e familiares no passado. Para acessar a matéria e entender mais a situação que envolve os indígenas de Santiago Kue leia aqui: (http://www.cimi.org.br/site/pt-br/index.php?system=news&action=read&id=7789).

Sem leilões, mas com milícias:

Em meados de 2013, começou a circular de forma aberta e pública a informação sobre a realização dos “Leilões da Resistência”, organizados por fazendeiros e sindicatos rurais do Estado do MS. Os organizadores anunciavam orgulhosos que os fundos arrecadados com a venda de gado seriam utilizados para a contratação de segurança privada, formação de milícias e compra de armamentos.

A revoltante iniciativa gerou uma onda de denúncias e de grande mobilização por parte do movimento indígena e de seus apoiadores. No fim de 2013, por decisão judicial a realização do leilão foi impedida. A despeito da decisão e por meio de golpes os fazendeiros o realizaram, porém por meio de nova decisão tiveram que depositar o montante arrecadado, um milhão de reais, em juízo, com utilização vinculada a aprovação das comunidades indígenas.

Pode-se dizer que esta fundamental medida conseguiu brecar a face pública da formação das milícias anti-indígenas, porém trata-se de um ledo engano acreditar que a justiça conseguiu impedir que na prática, no submundo, os fazendeiros e ruralistas, dotados de grandes quantidades de montantes oriundos, sobretudo, da exploração ilegal das terras indígenas, continuem com a arregimentação de jagunços para consolidar a expulsão dos povos originários dos seus territórios tradicionais por meio da força.

O caso ocorrido em Santiago Kue é uma boa demonstração de que as milícias continuam sendo formadas e patrocinadas pelos senhores do agronegócio. Sob a roupagem de seguranças privados continuam organizados à mando dos fazendeiros que potencializados por uma política Federal de paralisação e intenção de revisão das terras indígenas, sentem-se livres para praticar verdadeiros absurdos contra a vida, o bom senso, a justiça, a democracia e o Estado Democrático de Direito.

Como tudo indica, nas bordas de Naviraí, uma destas milícias armadas domina geograficamente a região habitada secularmente pelo povo Kaiowá e de onde estes jamais sairão. Praticam abertamente o terror impedindo os indígenas até mesmo de exercerem seu direito de ir e vir. Fazem isso a todo o momento, inclusive em plena luz do dia, até agora com impunidade. Espera-se que através deste fato, que por sorte não acabou com mais uma vitima entre tantas contabilizadas junto aos povos indígenas, medidas sejam efetivamente tomadas com intuito de livrar da morte aqueles que só buscam a vida e a sobrevivência física e cultural de seus filhos e filhas.

Fonte: CIMI
http://cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=7985&action=read