José Maria Pires, presente!

Ontem à noite, faleceu Dom José Maria Pires. Muitos irmãos e irmãs já estão escrevendo que ele foi um grande profeta e foi um dos pais da Igreja da caminhada libertadora na América Latina. Não adianta eu repetir isso.

Só digo que queria muito bem a ele. E que a imagem mais nítida que tenho dele é de um dos cristãos mais humanos e mais gente que eu já conheci. E como sabia privilegiar e ser fiel às amizades. Desde o começo do seu ministério e até o final dos seus dias, sempre era capaz de viajar, de fazer coisas para estar com seus amigos e amigas. Eu mesmo devo profundamente a ele. Quantas vezes, em meio a incompreensões e censuras da instituição oficial, junto com Dom Tomás Balduíno e Dom Pedro Casaldáliga, era sempre ele que tomava minha defesa na CNBB e em outros espaços.

A sensação hoje é ter ficado mais sozinho. Perdi um pai. Mas, se for aprofundar esse sentimento, estou pensando mais em mim e não nele. Não seria justo. É ele que, hoje, pode afirmar como o apóstolo Paulo: “Completei minha carreira, guardei a fé”

Eu o conheci quando, no meio da década de 60, chegou como arcebispo de João Pessoa e era conservador no sentido de muito eclesiástico e preso a todos os cânones inventados e os que ainda se iriam inventar. Morava no Palácio do Carmo, no centro histórico de João Pessoa. Já nos primeiros dias do seu episcopado, quando eu passava em João Pessoa, ele me hospedava com ele. E assim, ficamos amigos. Cada manhã, eu ajudava como acólito à sua missa e era uma missa bem formal e que o acólito assistia com uma vela acesa, como mandavam os cânones, quando se tratava de missa presidida por um bispo. (Na época, jamais Dom Helder tinha aceitado isso).

Dom José sempre foi um homem de uma dignidade pessoal, de uma coerência consigo mesmo e de uma abertura de inteligência impressionantes, mesmo quando ainda era um bispo tradicional. Depois foi mudando e ele afirmou: o povo dos pobres me converteu. E é verdade. Cada vez mais ele escutava e era transformado no contato com o pessoal das periferias. E para ele foi uma aprendizagem exigente e até dolorosa.

Durante anos e anos, tínhamos um pequeno grupo (formado pelas duas irmãs beneditinas que ele tinha acolhido em João Pessoa e mais por alguns amigos da pastoral) e esse grupo se reunia com ele mensalmente em uma casa de praia. O programa era uma manhã de retiro espiritual, oração e de partilha de vida. Depois praia e almoço e descanso. Ele nunca faltou.

Estive com ele quando junto com Dom Helder, vi os dois atravessarem a cerca e com varas na mão espantarem o gado que os fazendeiros tinham colocado nas terras dos posseiros de Alagamar. E vivemos juntos muitos outros momentos fortes, como o martírio do padre Antônio Henrique e o da querida Margarida Alves em Alagoa Grande. Lembro-me da profundidade e da força de suas palavras na missa de sétimo dia da mártir Margarida.

As memórias são muitas. Não quero falar de mim ao falar dele. Quero só salientar o homem interiormente livre que ele se tornou, o irmão que testemunhava uma profunda humanidade. Ao mesmo tempo, a luta permanente para ir além do clericalismo e da formação eclesiástica estreita que ele recebeu e que deixava marcas até o fim da vida. Em João Pessoa, (nos anos 70) escolheu um cinema perto de casa e um horário semanal (nas quartas na sessão das dez, quando já voltava dos trabalhos pastorais) e ele ia ao filme, que algumas vezes era bom e outras…. E eu insistia com ele: Isso não tem razão de ser. Vamos escolher o filme mais adequado e que vc vai gostar de ver… De vez em quando, dava certo, de vez em quando não.

Quando completou 90 anos, já vivendo em BH, pediu que estivéssemos juntos em dois ou três dias de retiro. Seria seu presente de aniversário. Um pequeno grupo de amigos em uma praia do Nordeste. O dono da casa, (Ricardo Aléssio) lhe perguntou:- O senhor tem alguma dieta? Ele respondeu: – Uma caipirinha antes do almoço sempre faz bem.
Aos 90, já depois do primeiro AVC vivido em Verona (Itália) alguns anos antes, ele entrava na praia sozinho e nós ficávamos com medo. Mesmo sem vontade de tomar banho, o acompanhávamos para não deixá-lo entrar sozinho. E nadava muito bem.

No final do retiro, ao ser perguntado sobre o que tinha concluído daqueles dias de convívio e meditação, respondeu: “Que topo trabalhar até os 113 anos e aí me aposento”.

Deus o levou ontem mais cedo do que era previsto. Deve ter precisado dele e de sua sabedoria lá em cima. Talvez para ajudar a nossa Igreja a seguir os caminhos de Medellín e mesmo do Vaticano II lido a partir da nossa realidade.

Outros irmãos já chamaram a atenção para que nessa mesma data (27 de agosto) foram para Deus os profetas Dom Helder Camara e Dom Luciano Mendes de Almeida. Penso que é também bom lembrar que nessa mesma data (27 de agosto de 1987), em Moçamedes, Goiás, um pistoleiro, a mandado de um latifundiário, atirou com fuzil no padre Francisco Cavazzutti.

Depois de passar dias entre a morte e a vida, o padre Chico recuperou a consciência, saiu da UTI e reviveu. Mas, cego para o resto da vida, a cada dia com dores intensas. Depois de continuar pároco na mesma paróquia ainda por anos e anos, ele já idoso voltou a Módena (Italia) onde vive com seus 83 anos.

Então sim, 27 de agosto é aniversário de nossos mártires vivos e dos que estão no céu para nos estimular a continuar como irmãos e irmãs no testemunho do reino em meio às aflições desses dias que vivemos no Brasil.” Que Dom José no céu continue a nos proteger.

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