JOSÉ COMBLIN: um escrito profético, a título de subsídio, em vista da conferência de Medellín, numa conjuntura de efervescência…

Graças ao historiador Eduardo Hoornaert – a quem, de público, manifesto, meu reconhecimento e gratidão -, chega às minhas mãos, por via postal, cópia de um escrito do Padre José Comblin, sobre o qual o próprio Hoornaet tem-se debruçado, mais de uma vez e que me desperta especial interesse. 

Por várias razões, particularmente, pela forte influência que teve o escrito nos preparativos e nos protagonistas da II Conferência Episcopal Latino-Americana de Medellín, que está a celebrar  este ano, meio século. Como se verá, tal escrito, tendo tido reconhecida influência nos protagonistas da mencionada conferência, apresenta traços de candente atualidade, 50 anos depois de elaborado, em circunstâncias de tempo bastante exíguo.

Nasceu de uma reunião – conta Eduardo Hoornaert – convocada por Dom. Helder Câmara, no primeiro semestre de 1968 (portanto, há 3 anos de sua chegada a Recife), da qual participaram seus assessores mais próximos dentre os quais Padre Marcelo Carvalheira, Padre José Comblin, o próprio Eduardo… Tratava-se, da parte de Dom Helder, de solicitar da equipe de assessores, subsídios, em vista da realização, em agosto daquele ano, da II Conferência Episcopal Latino-Americana, a realizar-se em Medellín, Colômbia, e da qual o próprio Dom Helder era uma figura de influência, entre outros Bispos participantes. A tarefa acabou assumida por Padre José Comblin, que levou tão a sério seu compromisso, que pouquíssimos dias depois, apresentou a Dom Elder e respectiva equipe de assessores. O escrito suscitou enorme interesse entre seus leitores, a ponto de se ter sugerido que fosse discutido com as turmas de estudantes seminaristas. Este texto acabou sendo vazado – não se sabe como exatamente – para gente da Direita (o Vereador Wandenkolk Wanderley) que o fez publicar integralmente em duas páginas do Diário de Pernambuco, em 12 de junho de 1968. Não é preciso dizer do efeito explosivo que causou naquela conjuntura de intensa mobilização contra a ditadura civil-militar, instalada havia quatro anos.

Nas linhas que seguem, buscamos, primeiro, registrar rápidos traços daquele contexto; em seguida, cuidamos de trazer a lume pontos-chave do referido escrito, e, por último sublinhar aspectos do texto que ainda hoje repercutem como de relevante atualidade.

Breves traços do cenário sociopolítico, quando da elaboração do escrito

O Brasil iniciara o “rumor de botas” (Eder Sader) a ouvir-se no Cone Sul, desde o Golpe empresarial-militar de 1964. A despeito da crescente repressão que se ia instalando, ainda se podia contar com forças de resistência, em especial nos espaços da chamada Igreja na Base. Vale a pena destacar, a este propósito, alguns episódios que se produziram, um pouco antes e um pouco depois ( neste último caso, já sob a influência da Conferência de Medellín ).

Mesmo em clima de crescente fechamento, ressoavam vozes e atitudes proféticas consideráveis. Pouco tempo após o Golpe, no Nordeste, por exemplo, atuavam grupos e segmentos eclesiais de brava resistência, a exemplo da JOC/ACO conseguira protestar, por meio de um texto memorável – “Nordeste: o homem proibido”, tempo em que Dom Helder já havia assumido, na Arquidiocese de Olinda e Recife, suas funções de Arcebispo, fazendo-se cercar de uma equipe de assessores (como já o fizera, no Rio, aliás) de reconhecida qualidade, dentre os quais o autor do escrito ora em apreciação, Pe. José Comblin. A ACR (Ação dos Cristãos no Meio Rural, sucedânea da JAC), o MER (Movimento de Evangelização Rural), também davam seus primeiros passos, no Nordeste, onde um segmento eclesial com rara sensibilidade profética, inclusive no âmbito do episcopado. Convém lembrar a atuação, à época, de figuras signatárias do Pacto das Catacumbas, dentre as quais um Dom Helder, um Dom Fragoso (em Crateús – CE, a partir de 1964), um Dom Francisco Austregésilo de Mesquita (Afogados da Ingazeira- PE), um Dom José Brandão (Propriá – SE), aos quais vale acrescentar ainda a presença de um Dom José Távora, arcebispo de Aracaju, ( falecido em 1966) com grande protagonismo na organização do MEB (Movimento de Educação de Base, mantido pela CNBB, seguindo uma inspiração freireana, e por isso mesmo sendo duramente perseguido, após o Golpe Civil-Militar), além dos signatários do profético Manifesto dos Bispos e Superiores Religiosos do Nordeste, intitulado, eu ouvi os clamores do meu povo. Sobre este Documento, ver: (http://www.alterinfos.org/archives/DIAL-99.pdf).

Eis alguns traços que compunham o cenário sócio-eclesial, em que foi elaborado o texto do Pe. José Comblin. E em que consistia, em linhas gerais, este escrito?

Pontos fortes do escrito

O referido texto-subsídio começa lançando críticas às análises econômicas e sociológicas, então dominantes, por entendê-las pouco comprometidas com rigor científico, estimando-as inspiradas em meras deduções, sem a devida interpretação da realidade concreta latino-americana. Enquanto lia tais registros, eu ficava a imaginar quem seria o alvo da crítica: um Gilberto Freyre, por exemplo? Vale lembrar que este sociólogo não poupava esforços de tecer ácidas críticas contra D.Helder, na imprensa pernambucana…

Visando à realização da II Conferência Episcopal Latino-Americana, cuidavam os dirigentes eclesiásticos de influenciar, desde Roma, desde p Vaticano, a partir dos preparativos, os protagonistas do referido encontro, oferecendo esquemas e subsídios, ao seu modo. O escrito combliniano estende aos organismos eclesiásticos oficiais semelhantes críticas, principalmente considerando seu silêncio ou ignorância da realidade específica latino-americana, quanto aos verdadeiros desafios históricos, econômicos, políticos, sociais e culturais, enfrentados por seus povos originários, pelos africanos aqui escravizados, pelos camponeses, pelos operários, pelos jovens…

A essa altura do texto, Pe José Comblin aprofundava sua crítica à Igreja oficial _ particularmente à Igreja do continente_, à medida que não se detém apenas em sua má interpretação da realidade, mas também responsabilizando-a pelas suas posições práticas, em relação aos povos do continente, e em especial, ao povo dos pobres, cujos direitos e aspirações passavam ao largo de suas prioridades, acostumada que vivia a aliar-se com os setores privilegiados. Um exemplo de tal descompromisso para com seu público interno, ele denuncia o caso do sistema de “desobriga”, termo empregado para designar uma espécie de dispensa às massas populares católicas, de cumprirem os deveres e compromissos relativos ao comparecimento habitual aos ofícios litúrgicos convencionais, ao tempo em que a hierarquia latino-americana se contenta com reproduzir o que faz e o que pensa o catolicismo europeu bem como a aliar-se com os setores dominantes latino-americanos, que constituem as elites mais atrasadas, por se envergonharem e tomarem distância dos empobrecidos do continente “(índio, negros, camponeses, analfabetos, etc

-Incapacidade organizativa da Igreja Latino Americana, no uso de seus recursos, gerando dispersão e desperdício

-Excessiva dependência da Hierarquia Latino Americana das ideias e dos recursos financeiros europeus e suas consequências

-Doze pontos problemáticos da Igreja Latino Americana sem cuja resolução não irá adiante.

Pontos do texto de Comblin:

– É forte a tendência ao foquismo, que se tem mostrado, contudo, equivocado. Mesmo sem ignorar, em casos extremos, o recurso à força, tende a apostar na via pacífica, como caminho para paz e o desenvolvimento.

– Reconhecer a dignidade das massas exploradas, superando a longa herança colonialista

– Deixar tratamento classista (conluio com os setores dominantes)

– Reformar o tipo de administração eclesiástica: burocrática e dispendiosa

– Reconhecer e respeitar os direitos trabalhistas de seus funcionários

– Superar o assistencialismo

– Ajudar as camadas populares a superar uma expressão demasiado devocionista de catolicismo

– Investir na formação dos leigos

– Tendo a coragem de se desfazer de suas riquezas, a Igreja só estaria fazendo justiça, e aplicando a Doutrina Social da Igreja.

– Mudar a mentalidade para contribuir com o desenvolvimento, ela mesma deixando de ser subdesenvolvida

– Critica a inércia e a incapacidade das classes dirigentes latino-americanas, de protagonizar um projeto de desenvolvimento, com seu esforço, por várias razões:

* suas elites costumam ter um padrão de vida próximo das elites dos países centrais do Capitalismo;

* não aceitarem qualquer sacrifício, ou desfazer de seus privilégios, mesmo diante da penúria da grande maioria;

* vivem a querer imitar o estilo da burguesia norte-americana;

* caberia ao Estado como indutor de desenvolvimento ter dirigentes fortes, para conceber e implementar políticas públicas do interesse das classes populares;

* em situações especiais,

* *  *

– Como conclusão, o autor faz diversas indicações de pistas para a Igreja Latino-Americana, dentre as quais:

– exercitar sua dimensão internacional, no sentido de contribuir para o desenvolvimento;

– trabalhar a conscientização dos leigos, e estimular sua contribuição social

– criar institutos pastorais de desenvolvimento, com administração de leigos, em vez de seguir apostando na suposta eficácia de sua pesada estrutura administrativa (de Paróquias e Dioceses);

– distribuir sua infraestrutura parasitária (terrenos, prédios, terras…), dando o testemunho e o exemplo evangélicos para a sociedade;

– ajudar a formar convicções das possibilidades de mudança, principalmente junto às camadas populares, em geral bastante conformistas e tendentes a atribuir ao destino ou a Deus a sorte de sua penúria. É necessário criar condições para despertar a esperança dos pobres e sua busca de mudança, como expressão da vontade e do Projeto de Deus.

O que dizer do escrito do Pe. Comblin, meio século depois?

Por ocasião da elaboração deste texto, seu autor tinha 45 anos de idade. Já contava com um conhecimento considerável sobre a América Latina. Havia chegado ao Brasil, em 1958, inicialmente a Campinas-SP, onde priorizou o acompanhamento da JOC, além de assumir aulas em colégio religioso. Em 1962, fora convidado a assumir aulas na Universidade Católica, em Santiago, de onde, a convite de Dom Helder, retorna ao Brasil, em 1965, instalando-se, desta vez, em Recife, compondo a Equipe de Assessores de Dom Helder, além de haver também exercido as funções de professor e diretor de estudos do Seminário Regional do Nordeste II, no Instituto de Teologia do Recife. Desde o início de sua fecunda formação acadêmica, em Lovaina, na Bélgica, aprendera e vinha aprimorando uma produção teológica de novo tipo, em comparação com os padrões convencionais então dominantes. Isto se traduzia no cuidado ininterrupto de tomar como suporte de sua reflexão estritamente teológica o contexto histórico-social, donde sua sólida base interdisciplinar, fazendo interlocução ora com a História, ora com a Sociologia, ora com a Economia, ora com a Política, etc. Traços, aliás, bem presentes na elaboração do texto ora em apreço. Sua formação acadêmica, reforçada pela paixão pela causa  libertadora do povo dos pobres, sua postura de observador perspicaz dos sinais dos tempos, sua espiritualidade incarnada, inspirada nos valores do Reino de Deus e sua justiça – eis alguns fatores que ajudam a compreender sua genialidade como teólogo.

Resta, por conseguinte, impactante a atualidade do texto, pelo menos no que diz respeito aos seus principais aspectos. Com efeito seja no que toca à realidade macro-social latino-americana seja no que se prende às suas críticas em relação à alta hierarquia do continente, descontados certos aspectos conjunturais, os pontos aí levantados mostram-se em linha com o que se apresentavam, há cinquenta anos. No que toca especificamente às estruturas eclesiásticas, seu texto me fez lembrar o sentimento de alguns/algumas de nós, para quem resulta mais difícil mudar as estruturas eclesiásticas do que o modelo societal. Eis um grande desafio a ser enfrentado, sobretudo, pelos Leigos e Leigas, sem cuja participação as mudanças perseguidas não se cumprirão. Isto não quer dizer que, tanto no espectro societal, ao interno da Igreja Católica Romana (e de outras Igrejas cristãs), não tenha havido algum avanço, mas, considerando o vigor profético da Conferência de Medellín, por exemplo, há muito chão pela frente, a ser percorrido…

João Pessoa, 26 de Março de 2018.

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