Jornalismo marrom

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O que dizer de um jornalismo que consiste basicamente na repetição do que dizem fontes oficiosas, sem dar o devido espaço a outras versões, e se coloca, a priori, absolutamente a favor de uma política de governo que não está, em absoluto, acima de quaisquer suspeitas?

Isso não é jornalismo. Ou é, só que marrom.

A promoção de uma cobertura sensacionalista como a que vem sendo feita em torno da ocupação da Rocinha é interessante somente do ponto de vista político, como já vêm apontando outros textos publicados no Consciencia.net e demais veículos da mídia alternativa.

Já o ponto de vista do cidadão subsiste em práticas de fachada, como as rápidas declarações de moradores da Rocinha dizendo-se felizes com a tomada do morro pelos policiais. Raras mesmo são as ocasiões em que essas mesmas pessoas conseguem espaço adequado na mídia para denunciar abusos de policiais – seja em favelas pacificadas ou não.

Repetindo o perfil da cobertura da ocupação do Complexo do Alemão, os veículos da Grande Mídia espetacularizam uma política de segurança que é essencialmente eleitoreira. Mais uma vez, os destaques ficam a cargo de números de agentes de segurança e veículos militares de guerra envolvidos nas operações, de armamentos e drogas apreendidos e de declarações de autoridades, “especialistas” e até artistas (!).

No mais, não se pode considerar verdadeiramente jornalística uma cobertura que não questiona em momento algum determinada política de governo.

As UPPs são, de fato, o melhor investimento em segurança pública? Trata-se de um projeto realmente sustentável, considerando-se o universo de favelas da cidade? Até quando será mantido um modelo de relacionamento governo/favelas que se baseia, fundamentalmente, na atuação do aparelho repressor do Estado?

Não seriam válidos esses questionamentos? Será que a população não teria interesse em saber as respostas?

Ok, essas são discussões de um nível mais macro e não necessariamente mereceriam destaque na pontual cobertura da ocupação da Rocinha. Então, que tal estas perguntas: se o Estado tem um serviço de inteligência eficiente, como alega o secretário de Segurança de Estado, além de um poder bélico infinitamente superior ao dos traficantes, por que não se ocupou a Rocinha antes? Como pôde um bandido tão conhecido como Nem ficar foragido durante todo este tempo? Quais medidas exatamente serão tomadas para evitar que outros crimes na favela e seu entorno sejam alavancados com o desmonte da quadrilha local?

Por último, voltando ao nível macro, o que vem depois das UPPs? Sim, porque as UPPs ao menos deveriam ser algo da ordem do paliativo e, portanto, provisório. Qual é a política social e econômica para as favelas do Rio de Janeiro?

E, no que se refere à questão das drogas, a orientação é seguir com a política de enfrentamento e repressão por vias bélicas? Por que não investir em operações focadas nos altos escalões da administração pública que permitem a entrada de armas e drogas no país?

São temas espinhosos, sem dúvida. Por isso mesmo, deveriam estar sempre em pauta.

 

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