Jon Sobrino: In Memoriam – José Comblin (1923-2011)

José Comblin nasceu em Bruxelas em 1923. Em 1958 veio como sacerdote para a América Latina. Esteve sobretudo no Brasil e no Chile, e de ambos foi expulso pelas ditaduras. Acompanhou muitas comunidades e foi assessor próximo de Dom Hélder Câmara, e de varios bispos do povo. Escreveu inúmeros libros e artigos, e pronunciou muitas conferências até o fim de sua vida de 88 anos.

1. Comblin esteve várias vezes em El Salvador. Participou em 2005 do primeiro Congresso Internacional de Teologia celebrado na UCA [Universidade Centro-Americana]. Falou sobre “Os padres da igreja latino-americana”, pensamento seu que já é clásico, e parabenizou a UCA por ter publicado as obras completas de Dom Oscar Romero.

Em 2010 veio pela última vez para o segundo Congresso de Teologia. Falou de um tema crítico e decisivo, que ele repetiu sem desanimar. O Cristianismo é fé que vem do Evangelho. Não é religião que nós fazemos. Por necessidade tem-se que estar no segundo, mas tem-se que viver do primeiro.

Foi comovente sua carta de aceitação do nosso convite. “Claro que aceito o convite. O assunto me convén. Mas tudo depende de uma circunstancia. Completarei 87 anos e não sei se celebrarei nesta terra ou no purgatório. O Senhor ainda não me comunicou.” Também publicou varios artigos nesta Revista Latinoamericana de Teología.

2. Durante décadas, Comblin insistiu nos pobres e oprimidos. Muito recentemente voltou a dizer: “Não nos engañemos. O mundo se divide entre opressores e oprimidos. Os primeiros são minorías. Os segundos, imensas maiorias.” Não existe globalização, pois a humanidade não está se fazendo homogénea, mas cada vez mais antagónica.

Em suas viagens a El Salvador a primeira foi ir ao mundo de pobres. A Pequim, lugar duramente golpeado durante a guerra, onde trabalha seu amigo, o Pe. Rogelio Ponseele. E a a Bajo Lempa, onde trabalha seu amigo, Pe. Pedro Leclerq. Assim se comreendem melhor suas palabras programáticas.

Nos meios de comunicação se fala dos pobres sempre de forma negativa, como dos que não têm bens, os que não têm cultura, os que têm para comer. Visto de fora, o mundo dos pobres é todo negatividade. No entanto, visto de dentro, o mundo dos pobres tem vitalidade, lutam para sobreviver, inventam trabalhos informais e constroem uma civilização diferente de solidariedade, de pessoas que se reconhecem iguais, com formas de expressão próprias, inclusive a arte e a poesía.E quando completou 80 anos, eu o ouvi dizer: “Ter fé é muito fácil. Não é mais preciso ver os pobres”.

3. E veio a El Salvador para estar com Dom Romero, verdadeiro e ilustre padre da igreja. Após o Congresso, pudemos concelebrar a eucaristía de aniversario do Dom. Estávamos dentro da Catedral, e pude observá-lo detidamente. Um bispo da Guatemala leu uma homilía e, quando terminou, Comblin só fe zum comentário que dele saiu espontâneo, com paz e com um tom de tristeza: “Convencional”. Os milhares de pessoas na praça mereciam outra coisa. Surpreendeu-me mais sua devoção. Mesmo distante do altar, ele participou plenamente da liturgia, com alva e estola. Respondia como um simples fiel. Rezou o Pai Nosso de mãos dadas com outros e deu a paz a outras pessoas ao seu redor. E se notava a devoção.

4. Faleceu de caneta na mão e os pés visitando comunidades. E me lembrei de outra eucaristía no México. Com a hóstia na mão, nos ofereceu com estas palabras: “Que o corpo de Cristo nos acompanhe até à última luta”.

Foi teólogo excepcional, cristão honrado, radical e devoto. Seguidor do Evangelho com toda naturalidade. E libre para estar em sintonía com Jesus de Nazaré e seu Deus.

Após sua norte, o chamaram “mestre” (O. Beozzo), “um desafio à inteligencia acadêmica” (L. Boff), “guía inquieto e exigente como os antigos profetas, denunciando sempre nossas incoerências na fidelidade aos preferidos de Deus” (L. Álvez). Terminamos com o testemunho de Mônica Muggler, sua fiel acompanhante durante muitos anos: “Ele tinha o dom maravilhoso de reunir em uma grande familia todos os que sonham com uma igreja mais humana, mais presente, mais amante e fiel a Jesus e seu Evangelho”.


Publicado em Revista Latinoamericdana de Teologia / 82, Universidad Centroamericana “José Simeón Cañas”, San Salvador, El Salvador, Año XXVIII, enero-abril 2011, p.3-4.

Tradução: Alder Julio Ferreira Calado