Indagações de quem espera contra toda esperança

Categorias experienciais portadoras de potencialidades reinventivas

Em épocas tenebrosas de organização societal (e outras situações, similarmente sombrias), temos, não raro, a impressão de que inexistem saídas. Então, o desespero bate à porta, mais facilmente. E pior: quem assim avalia, ainda tem a pretensão de estar lidando com dados de realidade. Até certo ponto, isto pode mesmo acontecer, mas apenas como uma face – ainda que a mais visível – da realidade. Não explica, contudo, toda a realidade, sempre bem mais complexa do que aparece aos nossos olhos. A inteireza do objeto cognoscível sempre escapa à ingênua pretensão dos sujeitos cognoscentes (pessoais e coletivos: é que a realidade sempre comporta um componente de imponderabilidade… Com efeito, em sua complexidade e vastidão, a realidade apresenta facetas menos visíveis ou mesmo (quase) invisíveis.

Quantas vezes, ao longo da história, quando tudo parecia já dado, eis que irrompe o imponderável?! E isto nada tem a ver com fatalidade, com as forças cegas do que se chama destino. Tem, antes, a ver com nossos limites (pessoais e coletivos) de compreender o “todo” da realidade concreta, inclusive da realidade histórica. Quantas vezes, não sofremos do limite de estarmos mais propensos a perceber determinados sinais da história do que outros tidos como aparentemente menos relevantes?! E, no entanto, chega uma hora, em que aqueles sinais antes considerados desprezíveis ou menos relevantes assumem a dianteira dos acontecimentos, pelo seu acúmulo e maturação…

Sucede, por outro lado, que, sob a alegação de que as mudanças históricas acontecem, “de qualquer modo”, corremos o risco de sucumbir à ingenuidade de cruzarmos os braços, à espera de que o imponderável irrompa “ex nihilo”, como uma fatalidade… Sem negar o reconhecimento de certa incidência do acaso, o imponderável desponta, não raramente, como expressão e resultado de um acúmulo e maturação de acontecimentos que se passam, antes, nas “correntezas subterrâneas”: aquelas experiências moleculares que foram ininterruptamente levadas a cabo, a certa altura do tempo, eclodem, manifestam-se nas águas de superfície.

Aqui me vêm à lembrança vários episódios recentes e menos recentes, dentre os quais a brava saga de Gregório Bezerra, ainda criança, criada pela avó, nas cercanias de Panelas, no Agreste pernambucano. Uma criança, em meados da década de 1900 (ele é exatamente de 1900), vivendo os rigores de grande seca, lá ia aquela criança, movida a paixão pelo seu povo e por criatividade, a perscrutar obstinadamente sinais de água, algum filete de água de fonte… E, como “quem procura, encontra”, também Gregório encontrou. Quedo-me a imaginar o deslumbramento daquela gente com o milagroso achado da criança… (cf. Memorias, de Gregório Bezerra). Mais recentemente, sobretudo em junho de 2013, irromperam grandes manifestações de massa, a ganharem as ruas de todo o país, clamando por mudanças, sem que houvesse aí o habitual protagonismo de movimentos sociais (sindicais e populares) a conduzirem tais irrupções, trazendo alguma surpresa para os sujeitos históricos convencionalmente tidos como principal fonte articuladora. Este são apenas dois minusculos exemplos dentre tantos registrados, no curso da história que nos ajudam a perceber para além dos determinismos.

De modo semelhante, cabe-nos ensaiar uma leitura da realidade histórica que, buscando ser fiel aos acontecimentos concretos do dia-a-dia, permita manter-nos sempre abertos a surpresas que ela, por vezes, nos oferece, mas não sem nossa disposição de percebê-los interpretá-los adequadamente e toma-los a sério.

O proposito dessas notas é o de destacar algumas categorias experiências que nos ajudem a pontencializar o ensaio de passos, na direção almejada.

Para tanto, socorremo-nos também de alguns clássicos e contemporaneos de reconhecida contribuição, nesta aventura.

* Que tal beber (também) na fonte de nossa ancestralidade? – Sendo, ao mesmo tempo, e de forma complementar, Natureza e Cultura, somos chamados, no processo de humanização, a tomar consciência e a agir adequadamente, como tecelões e tecelãs dessa bendita relação, de modo a, de um lado, bem distinguir cada um desses pólos de relação, e, por outro lado, a bem articulá-los, enquanto fios da malha das relações existenciais do dia-a-dia. Tomar consciência desta dupla condição significa sentirmo-nos irmanados com toda a comunidade dos viventes de nosso Planeta e com o Cosmo, em sua extraordinária pluriversidade. Tomando consciência de, e assumindo nossa condição de partículas cósmicas, nos tornamos mais humildes, menos vorazes e menos ávidos de pretensos “donos” da Natureza. Sentimo-nos Natureza, marcados, em grande parte, pelos traços que caracterizam outros animais, os vegetais e os minerais, de que somos formados e que carregamos presentes em nosso corpo e em nosso espírito, desde as origens do nosso Planeta. Carregamos, conscientemente ou não, as energias que movem os diferentes membros do nosso Planeta, irmanados por uma profunda carga sinergética que em nós se reflete e em nós atua, inclusive, por meio do exercício da memória dos nossos ancestrais. Tal característica nos faz sentir unidos a tantos outros viventes e à Mãe-Terra, de tal maneira que as agressões cometidas contra a Mãe-Terra e quaisquer de seus membros ressoam no mais íntimo de nós. Assim, somos chamados a tomar certa distância crítica de certo pretensão de assenhoramento da Mãe-Terra e dos demais viventes, donde certa desconfiança saudável com relação a determinada interpretação do conceito de “hominização” (aqui se acentuando o genitivo “hominis”, denotando-se uma relação de posse, de pertencimento, tendendo a um antropocentrismo), no sentido de uma apropriação pelos humanos do conjunto dos viventes da Terra. Trabalhar, dia após dia, pessoal e coletivamente, essa relação, de modo adequado, ou seja, numa perspectiva de parceria e complementaridade – eis um grande desafio para nós, hoje. Da forma como venhamos a assumir esta relação, vamos sendo capazes de promover uma con-vivência saudável, amorosa, harmoniosa e complementar entre os humanos, e destes em relação com os demais viventes.

Distinguir e cuidar de cada um desses pólos (Natureza e Cultura) significa assegurar condições de um processo de humanização, na perspectiva de sua plenitude – Uma vez reconhecida nossa dupla condição – de Natureza e Cultura -, importa-nos ter presente qual nosso papel concreto em cada uma dessas dimensões. Enquanto seres de Natureza, muito temos a celebrar da vida, de nossas carências, de nossos limites, do nosso inacabamento, bem como de nossas potencialidades enquanto animais. Aqui é enorme o leque de aspectos a aprender e a a exercitar, de nossa parceria com os animais, com as plantas, com os minerais. Muito a aprender da água, do ar, do fogo, da terra, das pedras (Num de seus depoimentos, pouco antes de ser assassinado, o Cacique Xicão Xukuru, lembrava que as pedras eram os ossos da Mãe-Terra, enquanto a água era seu sangue e a floresta, seus cabelos…). Quanto aprendemos dos parceiros animais! De sua luta pela vida, de sua convivência, de seu modo de colocar-se ante os perigos, de suas estratégias de defesa, de sua extraordinária sensibilidade aos mínimos sinais… E o que dizer da gesta e dos feitos de nossos antepassados humanos? Quanto aprendizado! Pois bem, hoje somos os herdeiros dessa ancestralidade, sentindo-nos a eles unidos, portadores de densa sinergia, que nos move a (con)viver e a promover a vida, em todas as suas manifestações. E, hoje, o fazemos, com enormes vantagens, pelas experiências secularmente, milenarmente acumuladas?!..

No pólo especificamente humano, a grande diferença – ainda que complementar – é conferida pelo universo da Cultura, ambiente que permite vantagens e características exponenciais, em comparação com o mundo dos demais viventes. No plano da Cultura, é que as diferenças se acentuam, em benefício dos humanos: a criticidade, a autoconsciência, a criatividade, a inventividade, a capacidade de planejar, de avaliar, de mover-se no diversificado campo das artes, não apenas como usuário, como fruidor, mas também como produtor. No terreno cultural, os humanos se mostram seres vocacionados à Liberdade, capazes de assumir valores éticos de conduta pessoal e coletiva. É graças à Cultura, que os humanos se tornam capazes de resistir exitosamente os mais complexos desafios econômicos, políticos e de outra natureza. É graças à Cultura, que os humanos são capazes de desenhar e materializar distintos modos de produção, de consumo e de gestão societal. É pela força criadora da Cultura, que os humanos vão se tornando capazes de incessantes mudanças, no plano pessoal e no plano coletivo. Enquanto os demais seres viventes se restringem ao que se acha posto em seu DNA, são seres pré-programados, os humanos, por seu turno, são capazes de irem forjando seu (co)existir, em busca de plenitude. A depender de suas escolhas… Diversamente dos demais seres viventes, os humanos podem fazer-se perguntas do tipo da que se segue.

* Resignar-nos ante os impasses ou ensaiar passos em direção ao “inédito viável”? –

* O que significa manter-nos em “estado de busca” – Fecundas iniciativas de que se tem notícia, irrompem de uma atitude de espírito, de uma contínua prontidão e de atenção aos múltiplos e sucessivos sinais que a vida e a história não cessam de nos oferecer, desde nossas relações do chão do dia-a-dia. Não basta que se produzam tais sinais. Se não há quem os capte, resultam culturalmente inócuos. Sua fecundidade e sua eficácia transformadoras brotam fundamentalmente de um permanente estado de busca, de uma prontidão de espírito, de uma contínua vigilância, como condição para nos darmos conta da existência de tais sinais. O teólogo José Comblin, em seu livro Um novo amanhecer para a Igreja? (Paulus, 2001) alude a esta atitude de vigilância, ao rememorar o hábito, em antigas cidades cercadas por muralhas, tendo na guarita um vigilante, a observar para fora da cidadela, e a quem perguntavam: “Custos, quid de nocte?” (Houve alguma novidade, durante a noite, Vigia? Vigia?). Episódio parecido é descrito em Isaías, 21. Sem esta disposição de nos pormos à escuta, à observação persistente, em especial em tempos tenebrosos, dos sinais mais sutis, não apenas não iremos longe, como podemos deparar-nos, tardiamente, com trágicas surpresas. Importa, pois, manter-nos despertos. Ernst Bloch falava do “sonho desperto”… Manter-nos em estado de busca!

* Aprimoramento de nossa capacidade perceptiva dos sinais dos tempos– O próprio estado de busca, tendo em vista o aumento de sua eficácia, implica um outro esforço: o de constante aprimoramento da capacidade perceptiva dos sinais. Com efeito, ler, interpretar, compreender os sinais constituem aquisição, fruto de empenho constante, de um lado, e, de outro, de incessante aprimoramento dos sentidos, em especial se e quando bem articulados: ver, ouvir, tocar, cheirar, degustar, sentir, intuir – cada um deles, e em seu conjunto, temos que exercitar, como instrumentos progressivamente aprimorados na captação dos mais distintos sinais. Neste ensaio, recorremos tanto às potencialidades da Natureza quanto às da Cultura, sempre tendo como bússola o “inédito viável”, ou seja, a incessante busca de fazer acontecer, desde já – ainda que de forma molecular – os sonhos que alimentamos, tanto em relação a um novo modo de produção, quanto a um novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal.

João Pessoa, 08 de julho de 2017.

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