Incidências da complexidade no processo de humanização: desdobramentos no campo da Educação

Quais os desafios mais embaraçosos do processo de humanização? De que modo os antigos, os povos medievais, modernos e contemporâneos têm conseguido enfrentar tais desafios? Qual lugar da complexidade no processo de humanização? De que maneira a complexidade incide no processo pedagógico? São questões como estas sobres as quais nos debruçaremos, nas linhas que seguem.
 
Sabemos que o processo de humanização comporta um vasto leque de características e de condicionamentos, a partir mesmo dos sentidos atribuídos ao ser humano. Com efeito, a trajetória humana de todo co-existir compreende múltiplos condicionamentos – cosmicos, geográficos, biologicos, psicologicos, culturais, atropológicos, econômicos, políticos, educacionais…, de tal modo que se torna praticamente impossível um conhecimento total do ser humano e de seu processo existêncial. Por mais que se esforce, o ser humano sempre terá que conviver com dúvidas incertezas, lacunas, limites quanto seu próprio conhecimento, bem como do conhecimento do seu entorno. Isto não quer dizer que o conhecimento de si, da natureza, da cultura lhe esteja completamente fora do alcance. Sempre é possível e desejável conhecer-se e conhecer os demais seres viventes, os elementos físicos da natureza, a história, etc, mas sempre de modo parcial, limitado e provisório. A partir da consciência, portanto, de nossa inconclusão (Paulo Freire), é que nos habilitamos a conhecer, de forma processual, as relações do universo, da natureza e da cultura dos quais fazemos parte.

Neste sentido, sempre nos é proveitoso revisitar autores e autoras clássicos e contemporâneos que se tem debruçado sobre tais questões resulta, a este respeito, impactante observar, com frequência forte com fluência de teses fundamentais ainda que assumindo termos diferenciados. É assim que, ao revisitarmos filósofos chineses ou pré-socráticos e tantos outros que se lhes seguiram, observamos, não raro, a presença de profundas semelhanças de suas interpretações sobre o Ser Humano, ainda que utilizando palavras diferentes – “Movimento”, “Holística”, “Interação”, “Totalidade”, “Integralidade”, “Complexidade”… A lista é grande. O que importa, neste exercício teórico-conceitual, é atentarmos para as semelhanças aí presentes, sem desconsiderar as diferenças.

Eis o ollhar, a partir do qual ensaimos uma breve revisitação por algumas figuras que, direta ou indiretamente, têm contribuído para esse entendimento. Sabemos que o exercício do filosofar acompanha os humanos, muito antes dos gregos, como costuma alertar, por exemplo, Enrique Dussel, de modo contundente. Ásia, África, Oriente Medio, são lugares em que filósofos, antes dos gregos, se faziam presentes. A Confúcio, por exemplo, é atribuída a sábia afirmação: “Aquilo que escuto, eu esqueço; aquilo que vejo, eu lembro; aquilo que faço, eu aprendo.” Quanta sabedoria aí contida inclusive do ponto de vista metodológico! Eis aí bem presente a dimensão práxica, de forma magistral. Dimensão práxica a compor-se organicamente com outras dimensões do processo formativo e do processo de humanização, tais como a dimensão cósmica, a dimensão afetiva, a dimensão cognitiva, a dimensão volitiva, a ética, a dimensão estética, a dimensão comunicativa e outras mais.

Heráclito, por sua vez, a par de outros pré-socráticos, imprimiu sua marca em seus fragmentos, referente ao movimento/a mudança que caracteriza a realidade cognoscível, pois, sustenta o pré-socrático, “πάντα ῥεῖ” (”Tudo flui”). A realidade é mutável, tudo muda, tudo está em movimento; o que há de permantente é a mudança, razão por que “Não podes entrar duas vezes nas mesmas águas do mesmo rio.”

Atribui-se, ainda, aos pré-socráticos, o princípio dialético da interação universal, sintetizado na afirmação de que “Tudo está ligado a tudo”. A este respeito, há um poema-canção que traduz, com profundidade, e de modo didático, tal princípio: “Tudo está interligado” (cf. a íntegra da letra no “link”: https://www.youtube.com/watch?v=1do_VBZG9Ps

Outo aspecto característico da realidade afasta-se de uma linearidade cartesiana, fugindo mesmo a qualquer certeza reivindicada por pretensas leis científicas, como faz o paradigma positivista. Os fatos da realidade se dão de forma enviesada, muitas vezes “aos trancos e barrancos”, com altos e baixos, de modo nada simétrico. Os fatos se acham atravessados por incongruências, por contradições. Ao contrário da suposta linearidade cartesiana, por vezes, é a própria relação dos contrários que acaba explicando os fatos da realidade, como sustenta um dos prinípcios da Dialética: o da unidade dos contrários. Num contexto societal, por exemplo, as extremas desigualdades sociais é que explicam, pela raiz, o fenômeno do aparecimento de ricos cada vez mais ricos à custa de pobres cada vez mais pobres…

Há, também, a necessidade de se reconhecer a verdadeira relação entre quantidade e qualidade. Não raro, tende-se a estabelecer um muro intransponível entre uma e outra, quando, em não poucas vezes, se dá conta de que a quantidade também pode desembocar em qualidade.

Como se pode perceber, a realidade – especialmente, a realidade social – constitui um desafio praticamente invencível, quando se pretende conhecê-la em sua totalidade, justamente por comportar uma múltiplicidade quase infinita de aspectos, dificilmente persceptíveis aos olhos do sujeito cognoscente. Por outro lado, a complexidade e a extensão da realidade social não são de todo inacessíveis a quem se acerque da mesma realidade, dotando-se de instrumentos ou mediações que lhe permitam uma relativa compreensão. Isto se da em relação às mais distintas esferas de saberes, inclusive no campo da Educação que, a seguir, trataremos de eleger como alvo específico de nossa reflexão, buscando identificar nela insidências da mesma complexidade.

Ao mencionarmos tais princípios da Dialética, reconhecemos as densas contribuições de autores como além dos pré-socráticos, Hegel e Marx, entre outros. Mais recentemente, partindo diretamente ou não, desses princípios, eis que autores como Edgar Morin e outros nele inspirados, vem contribuindo fecundamente para um conhecimento mais adequado de se lidar com a complexidade dos fatos sociais, inclusive da Educação. A este respeito, recomendamos o vídeo que apresenta instigante reflexão de Edgar Morin, justamente sobre a complexidade: https://www.youtube.com/watch?v=6UT57Jm371w

Incidências da complexidade da realidade social no campo da Educação.

À semelhança do que se passa em todos os campos científicos sobre a realidade social, também na Educação, lidamos sempre com conceitos polissêmicos, no caso da educação, situando-a no seio da Cultura cuidamos de entender o processo formativo dos seres humanos como característica central do processo de humanização. Neste caso, cumpre alertar para a complexidade e a extensão da educação, de modo a não se reduzila à mera escolarização (da Educação infantil à pós-graduação), nem aos espaços formais. Trata-se, antes, de um processo que acompanha todo o co-existir, do nascimento ao último suspiro, tratando-se, pois, de uma Educação contínua, permanente, a serviço do desenvolvimento do ser humano como um todo (isto é, em todos os seus aspectos e dimensões) e de todos os seres humanos.

Por razões de relevância temática, de impactante atualidade e ainda por razões didáticas, optamos aqui por tomar a Educação Ambiental como alvo de nossas reflexões acerca das incidências da complexidade no campo educativo. Para tanto, partimos de uma questão: como surge o debate em torno de uma Educação Ambiental – ou que outro nome tenha: Eco-Educação, Educação Global, Educação Holística…? Sem desconsiderar eventuais exceções, há de se lamentar que o referido debate se deve mais a tristes constatações, do tipo: aquecimento global; derretimento das calotas e consequente elevação do nível das águas oceânicas, acarretando risco de inundação de cidades litorâneas, ilhas, etc.; desmatamentos; acidentes letais em oceanos, rios, solo e subsolo, provodcados por petroleiros, por pela exploração mineral descontrolada; desertificação; morte de fontes de água e de rios; agravamento da frequência e dos efeitos devastadores das catástrofes “naturais”; agravamento dos efeitos de tufões e tsunames; crescente escassez de água; extinção e ameaça de extinção de várias espécies vegetais e animais; envenenamento do subsolo, do solo, das matas, das plantações, dos lençóis freáticos, dos humanos; poluição do ar; poluição sonora… Eis um leque parcial degraves e trágicas ocorrências que imduziram e ainda induzem parcelas crescentes da população mundial a enfrentar tais desafios, recorrendo também a uma ação educativa. Bem melhor teriasido que tal atitude em defesa da Mãe-Terra se tivesse dado ppor motivação de reconhecimetno da dignidade da Mãe-Terra, mas este sentimento infelizmente resta ainda secundário…

Seja como for, o que importa é que nos demos conta de que algo comça a ser feito, sob vários aspectos, também no campo específico da Educação – em particular, da Educação Ambiental, alvo das presentes notas.

O que aqui estamos entendendo por Educação Ambiental?

Ainda que assumindo-a sob distintos nomes – “Educação Global”, “Ecopedagogia”, “Educação Holística”, “Educação Integral”… -, compreendemos Educação Ambiental como a dimensão específica ao processo formativo, atinente aos cuidados das relações sócio-ambientais. É sabido que a temática sócio-ambiental comporta um vasto leque de abordagens e de saberes, a serem tratados de modo interconectado. No caso da Educação Ambiental, cuidamos mais diretamente da espicificidade do campo pedagógico, a partir de questionamentos tais como:
– Comportando a Educação uma multiplicidade de espaços formativos – família, comunidades, escola, movimentos sociais…, seja em suas modalidades formais, seja processos não-formais -, que traços compõem a identidade dos sujeitos discentes e docentes?
– Que traços específicos os identificam como seres naturais e seres culturais?
– Que saberes específicos são requeridos ao processo formativo de seres naturais e culturais, em suas relações com o Planeta?
– Em seu cotidiano formativo, que práticas pedagógicas devem ser priorizadas?
– Onde, como e por quem tais práticas pedagógicas devem ser implementadas?

Eis alguns dos questionamentos a merecerem especial attenção, nestas reflexões. No tocante ao primeiro questionamento – referente à identidade dos sujeitos discentes e docentes -, partimos da conciência da multiplicidade de traços requeridos pelo processo formativo, acima mencionados, resumidamente. No caso específico da Educação Ambiental, cuidamos de focar o despertar de consciência e de atitudes especificamente voltadas para as relações entre os seres humanos e o Planeta, a partir de sua consciência de ser da Natureza, parte efetiva e expressão da mesma, desde sua própria composição corpórea. Todo o seu corpo atesta a presença da Natureza, de seus elementos constituintes: água, minerais, energia, sistema digestivo e outros. O despertar desta autoconsciência há de instigar os aprendentes a mirar o Planeta, com um olhar de admiração e cumplicidade, levando-nos à convicção de que estamos todos a navegar na mesma nau, a sorte dos humanos está imbricada na sorte do Planeta. Isto muda tudo. Isto nos impulsionará a assumirmos o compromisso de cuidarmos tão bem de nós como de cuidar tão bem de nossa “Casa Comum”. Além de sua condição de natureza, os humanos também comportam traços de sua outra condição – a de seres de Cultura. Seu processo de humanização requer um empenho cotidiano na busca de interconectar adequadamente essa sua dupla condição, a partir de uma saudável distinção entre esses seus dois componentes: o que significa responder concretamente à sua condição de ser-Natureza e o que significa responder à sua confição de ser-Cultura? Um desafio a ser trabalhado, ao longo do seu percurso existencial.

Eis por que também é fundamental, no processo formativo, identificar e trabalhar adequadamente quais os saberes requeridos para que os humanos atendam a contento a esta sua dupla condição. Dupla condição a ser vivenciada de modo profundamente interconectado. Isto implica, por exemplo, estabelecer e aprimorar os relações com a Mãe-Natureza. E aqui, no universo escolar, já desponta um desafio de monta, em especial para os sujeitos discentes e docentes mais enraizados no mundo urbano, em que minguam, não raro, os contatos e experiências com o mundo do campo. Como, então, despertar nos sujeitos urbanos, não apenas uma consciência do mundo do campo, mas sobretudo um comprometimento progressivo com sua causa?

Eis uma tarefa bem apropriada a uma proposta consequente de Educação Ambiental. Mais do que simplesmente introduzir a temática nos componentes curriculares, importa forjar um plano de trabalho, com fundamentação teórico-prática, com metodologia consistente, de modo a ir além de uma mera sensibilização da comunidade escolar e das comunidades em volta, mas também de modo a desencadear ações de intervenção sócio-ambiental, desde o âmbito local, articulado a outras instâncias. Como é vasto o universo temático das questões sócio-ambientais (comitês de gestão de bacias fluviais, manejo de matas e enconstas, coleta de resíduos sólidos, gestão hídrica, criação de pequenos animais, parques e jardins botânicos públicos, etc., etc.), há que se estabelecer prioridades, a partir das necessidades e urgências locais.

Em experiências educativas que tais, faz-se presente, de modo explícito, o exercício de Cidadania. Aí, a Educação Ambiental – ou que outro nome tenha – está lidando diretamente com a formção de cidadãs e cidadõas globais, a partir de seu lugar. Cidadã(o)s que se fazem protagonistas de um novo mundo possível e necessário. Cidadã(o)s que logram ir além das reivindicações adstritas apenas às relações Sociedade-Estado. Sem prejuízo deste campo de atuação, são capazes de elastecer sua visão da Política, à medida que cuidam de conectar ações tidas como como situadas nos micro-espaços a ações desenvolvidas nos macro-espaços. O alcance transversal da Educação Ambiental, assim exercitada, extrpola a dimensão cidadã: alcança também muitas outras, tais como as relações sociais de gênero, de etnia, geracionais, cósmicas, éticas, estéticas, entre outras. Todas essas dimensões se acham, como se percebe, atravessadas pelos fios da complexidade, e sob tal baliza devem ser exercitadas, em busca da construção processual de uma nova sociedade, por um novo modo de produção, por um novo modo de consumo, por um novo modo de gestão societal.

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