Impactante discurso do Papa Francisco na periferia de Nápoles

papaCaros irmãos e irmãs, bom dia!

Quis começar por aqui, por esta periferia, minha visita a Nápolis. Saúdo-os a todos, e agradeço-lhes por sua calorosa acolhida. Vê-se, de verdade, que os napolitanos não são frios. Agradeço a seu Arcebispo por me haver convidado – até ameaçado, se eu não tivesse vindo a Nápoles – pelas suas palavras de boas vindas; e sou grato àqueles que deram voz à realidade dos migrantes, dos trabalhadores e dos magistrados.

Vocês pertencem a um povo de uma longa história cheia de eventos complexos e dramáticos. A vida em Nápolis nunca foi fácil, mas nunca foi triste. Esta é a sua grande fonte: a alegria. O caminho cotidiano nesta cidade, com suas dificuldades e seus dissabores, e às vezes com suas duras provações, produz uma cultura de vida que sempre ajuda a levantar-se após cada queda, e a fazer com que o mal nunca tenha a última palavra. Este é um belo desafio: nunca deixar que o mal tenha a última palavra. É a esperança, vocês bem o sabem, esse grande patrimônio, esta alavanca da alma, tão preciosa, mas também exposta a assaltos e roubos.

Sabemos que quem voluntariamente toma o caminho do mal, rouba um pedaço de esperança, ganha uma coisinha de nada, mas rouba esperança a si mesmo, aos outros, à sociedade. O caminho do mal é uma via que sempre rouba esperança, rouba até à gente honesta e trabalhadora, e também à boa família da cidade, à sua economia.

Gostaria de responder à irmã que falou em nome dos migrantes e dos sem morada fixa. Ela clamou por uma palavra que assegure que os migrantes são filhos de Deus, que são cidadãos. Mas é necessário chegar a esse ponto? Os migrantes são seres humanos de segunda classe? Devemos fazer com que os nossos irmãos e irmãs migrantes sintam que são cidadãos, que são, como nós, filhos de Deus, que são migrantes como nós, porque nós todos somos migrantes rumo a outra pátria, aonde todos podemos chegar. Que ninguém se perca pelo caminho.Todos somos migrantes, filhos de Deus, que a todos nos colocou a caminho. Não dá para dizer: “Os migrantes são assim… Nós somos…” Não! Todos somos migrantes, todos estamos a caminho. E essa palavra de que todos somos migrantes, não está escrita num livro, está inscrita em nossa carne, está escrita em nosso caminho de vida, que nos assegura que em Jesus somos todos filhos de Deus, filhos amados, filhos desejados, filhos salvos. Pensemos nisto: somos todos peregrinos, no caminho da vida, nenhum de nós tem morada fixa nesta terra, assim todos devemos caminhar para encontrar Deus: um, primero; depois, o outro, ou, como dizia um ancião, aquele velhinho esperto: “Sim, sim, todos! Vocês vão primeiro, eu vou por último.” Todos devemos estar a caminho.

Em seguida, houve a intervenção do trabalhador. E lhe agradeço, porque naturalmente eu queria tocar nesse ponto, que é um sinal negativo do nosso tempo. De modo especial, é a falta de trabalho para os jovens. Mas, vocês pensem: mais de 40% dos jovens abaixo dos 25 anos não têm trabalho. Isto é grave! O que faz um jovem sem trabalho? Que futuro tem? Que caminho de vida escolhe? Esta é uma responsabilidade, não apenas da cidade, não só do país, mas do mundo. Por quê? Porque existe um sistema econômico que descarta as pessoas, e agora chegou a vez de os jovens serem descartados, isto é, de ficarem sem trabalho. Isto é grave! “Mas, aí estão as obras de caridade, há os voluntariados, há a Cáritas, há o centro tal, há aquele clube que dá de comer…” Mas, o problema não é comer, o problema mais grave é não ter a possibilidade de levar o pão para casa, de ganhá-lo. E quando não se ganha o pão, perde-se a dignidade! Esta falta de trabalha nos rouba a dignidade. Devemos lutar por isto, devemos defender a dignidade de cidadãos, de homens, de mulheres, de jovens. Este é o drama do nosso tempo. Nâo devemos permanecer calados.

Também penso no trabalho pela metade. Que quero dizer com isto? A exploração das pessoas no trabalho. Faz algumas semanas, uma moça que estava necessitada de trabalho, encontrou trabalho numa empresa de turismo, e estas eram as condições: onze horas de trabalho, 600 Euros mensais, sem qualquer contribuição previdenciária. “Mas, é pouco para 11 horas!” – “Se não lhe agrada, olhe a fila de gente que está esperando o trabalho!” Isto se chama escravidão. Isto se chama exploração. Isto não é humano, isto não é cristão. E se a pessoa que faz isso, se diz cristã, é uma mentirosa, não fala a verdade, não é cristã. Também, a exploração do trabalho clandestino – você trabalha sem contrato e lhe pago o que eu quiser – é exploração das pessoas. Sem contribuição previdenciária e para a saúde? “A mim não interessa.”

Eu o entendo bem, irmão, e lhe agradeço pelo que disse. Devemos retomar a luta pela nossa dignidade, que é a luta para procurar, para encontrar e reencontrar a possibilidade de levar o pão para casa! Esta é a nossa luta!

E aqui penso na fala do Presidente da Corte de Recurso. Ele usou uma bela expressão – “percurso de esperança”, e relembrava um mote de São João Bosco: “Bons cristãos e honestos cidadãos”, dirigindo-se às crianças e aos rapazes. O percurso de esperança para as crianças – estas que aqui se acham e para todos – é, antes de tudo, a educação, o percurso de esperança de educar para um futuro: isto previne e ajuda a ir em frente. O juiz disse uma palavra que eu gostaria de retomar, uma palavra que se usa muito hoje. O juiz disse: “corrupção”. Mas, digam-me, se fechamos a porta aos migrantes , se tiramos a dignidade das pessoas, como é que se chama isto? Chama-se corrupção, e todos nós temos a possibilidade de ser corruptos, nenhum de nós pode dizer: “Jamais serei um corrupto.” Não! É uma tentação, é um deslizamento para os negócios fáceis, para a delinquência, para os crimes, para a exploração das pessoas. Quanta corrupção há no mundo! É uma palavra terrível, se pensarmos um pouco. Porque uma coisa corrupta é uma coisa suja! Quando encontramos um animal morto, que está apodrecendo, que está corrompido, é terrível e fede também. A sociedade corrupta fede! O cristão que deixa a corrupção entrar em si, não é cristão!

Caros amigos, minha presença quer ser um impulso a um caminho de esperança, de renascimento e de recuperação da saúde já em curso. Conheço o empenho, generoso e operante da ciência, presente com as suas comunidades e seus serviços na realidade concreta, como também a continua mobilização dos grupos dos voluntários que não deixam faltar sua ajuda. Também encorajo a presença e o empenho operoso das instituições cidadãs, porque uma comunidade não pode prosperar sem o seu apoio, sobretudo em momentos de crise e diante de situações sociais difíceis e às vezes extremas. A boa política é um serviço às pessoas, que se exerce em primeiro lugar em nível local, onde o peso da inadimplência, dos atrasos, das verdadeiras omissões é mais direto e faz um mal maior. A boa política é uma das expressões mais elevadas da caridade, do serviço e do amor. Façam uma boa política, mas entre vocês: a politica é feita com todos juntos! Entre todos se faz uma boa politica!

Napolis está sempre pronta a ressurgir, fazendo como alavanca sua uma esperança forjada por mil provações, e por isso fonte autentica e concreta com a qual se pode contar a todo momento. A sua raiz reside na própria animação dos napolitanos, sobretudo em sua alegria, em sua religiosidade, em sua piedade! Desejo-lhes que tenham a coragem de ir adiante com essa alegria, com essa raiz, a coragem de levar adiante a esperança, de nunca mais roubar a esperança de ninguém, de ir adiante pelo caminho do bem e não pelo caminho do mal, de ir adiante no acolhimento de todos aqueles que vêm a Napolis de qualquer país: que todos saibam o Napolitano, que é tão doce e tão belo! Desejo-lhes que sigam adiante na procura de fontes de trabalho, para que todos tenham a dignidade de levar o pão para casa, e de prosseguir na limpeza da alma, na limpeza da cidade, na limpeza da sociedade para que não haja mais o fedor da corrupção!

Desejo-lhes o melhor, vão adiante e que São Genaro, o padroeiro de vocês, os acompanhe e interceda por vocês.

Abençoo de coração a todos vocês, abençoo suas famílias e este seu bairro, abençoo as crianças que aqui estão em volta de nós. E vocês, por favor, não esqueçam de rezar por mim. A Maronna v’accumpagne!

https://www.youtube.com/user/vatican
Do minuto 22:19 ao minuto 42:31
Trad.:AJFC

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