Igrejas auto-referenciadas (Eclesioarquia) ou comunidades centradas no seguimento de Jesus (Basileacêntricas)?

Ainda que veiculada uma noção de Reino de Deus, as Igrejas cristãs, inclusive as reformadas, se comportam, salvo raras exceções, como igrejas auto referenciadas, que se bastam a si mesmas. Tal atitude comporta, por sua vez, todo um leque de consequências graves, ainda muito pouco percebidas, no nível da consciência, urgindo ajudá-las a despertarem deste estado.

No caso específico da Igreja Católica Romana, mesmo após cinquenta anos desde a realização do Concilio Vaticano II, cujos documentos centrais insistem na urgência de se rever um modelo de Igreja, com frequência, descolado da Tradição de Jesus, eis que muito pouca coisa mudou e, pelo correr da carruagem, tende a mudar. Povo de Deus – ao menos ao interno da Igreja Católica Romana – que, numa acepção ortopráxica de Reino de Deus, deveríamos estender para toda a humanidade – é situado pela Lumen Gentium como o sujeito coletivo corresponsável pela organização da Igreja Católica Romana, razão por que vem tratado antes da hierarquia. Seria de se esperar que, passado mais de meio século, isto tivesse alterado visivelmente o modelo de organização da própria Igreja. Não é o que se vê. A hierarquia segue comportando-se como único sujeito decisivo da gestão eclesial, por mais que o atual Bispo de Roma não cesse de chamar a atenção, inclusive mediante documentos emblemáticos, como o faz na Evangelii Gaudium, ainda muito pouco lida pelo clero e, menos ainda, levada a sério.

Por outro lado, cumpre lembrar que o Concílio Vaticano II, realizado há mais de cinquenta anos, foi convocado pelo Papa João XXIII, em 1959, como um ponto de partida – não um ponto de chegada -, ante décadas de atraso em que andava mergulhada a Igreja Católica Romana. Mais recentemente, em sua última entrevista, o Cardeal Carlo Maria Martini, quando perguntado sobre sua avaliação da atual situação organizativa da Igreja Católica, não hesitou em responder que ela se achava com uns duzentos anos de atraso (https://tg24.sky.it/cronaca/2012/09/01/carlo_maria_martini_morte_ultima_intervista_corriere_chiesa_indietro_200_anni.html )… Pois bem, mesmo diante de tal sentimento e o de que o Concílio Vaticano II tenha sido realizado, há mais de meio século, como um ponto de partida, seguem engessadas e pesantes as estruturas eclesiásticas, a despeito da posição profética do Papa Francisco. Ainda bem recentemente, ao intervir no final da Conferência sobre os escândalos de abusos sexuais, na Igreja Católica Romana, o Bispo de Roma lembrava a necessidade da participação das mulheres católicas, nas decisões eclesiais. Sendo assim, reduzem-se as esperanças de segmentos não-hierárquicos – e até de minorias dentre os componentes do próprio clero – de que continuam mínimas as chances de alteração desta ordem de coisas. Em outras palavras, se em tempos passados, os próprios componentes da hierarquia eclesiástica, sentindo-se pressionados pelas urgências de novos tempos, aceitavam ceder a tais pressões e introduziam algumas alterações nas estruturas eclesiásticas, convencidos de que “Reformata, Ecclesia reformanda est”, no presente, contudo, não há sinais de que mudanças necessárias e urgentes venham a acontecer, a dependerem apenas do segmento clerical…

Eis por que cresce o sentimento, entre as fileiras das Batizadas e dos Batizados católicos, de que em vão esperam dos hierarcas eclesiásticos iniciativas de mudança deste panorama, e, em consequência, vão se mostrando dispostos a darem, eles mesmos, elas mesmas – passos em direção a efetivas mudanças. Prova disto dão os crescentes grupos e movimentos protagonizados por Leigos e Leigas, em todo o mundo católico, ao tomarem iniciativas de vários tipos.

Há, por um lado, grupos e movimentos de Leigos e Leigas que seguem empenhados em dialogar fraternalmente com o segmento clerical, inclusive por meio de convites, documentos e notas de solidariedade à atuação pastoral-profética do Bispo de Roma. Outros há que, sem qualquer intenção de provocar rupturas ou mal-estar, ousam dar passos no limite de suas atribuições canônicas. Outros, contudo, já começam a dar sinais de certo cansaço, e se atrevem a ultrapassar os limites de suas atribuições canônicas, sob alguns aspectos. Por exemplo, ainda recentemente, deu-se a conhecer uma convocação de um sínodo de Leigas e Leigos, por iniciativa própria, um sínodo autoconvocado. Notícias também circulam de iniciativas comunitárias de celebração da Ceia do Senhor, sem a participação de um presbítero ou, com a presença deste em igualdade de participação com os demais membros da comunidade, como aliás se fazia entre as primeiras comunidades cristãs…

À parte excessos cometidos, aqui e ali, somos forçados a reconhecer a ausência de sinais convincentes, da parte dos responsáveis pela manutenção da atual estrutura organizativa eclesiástica, de se sensibilizarem efetivamente diante desse clamor de renovação. Tal posição enrijecida em nada ajuda a unidade da Igreja Católica Romana. Pelo contrário, contribui para incentivar gestos de ruptura, cujo desfecho não nos anima na direção do diálogo e da unidade dentro da diversidade, a médio e longo prazos.

Diante de tais impasses, que iniciativas ajudariam na direção de uma superação dos mesmos? A título de contribuir com esse diálogo, ocorre-me partilhar algumas ideias, ciente e respeitoso de tantas outras.

A despeito de certa descrença, por parte de alguns grupos e movimentos católicos progressistas, de que não se tem muito a esperar do segmento clerical, entendo não devermos descartar reiteradas tentativas de diálogo, seja com membros ou instâncias hierárquicas abertas a tal iniciativa, seja com quaisquer outros segmentos eclesiais dispostos ao mesmo exercício.

Isto não impede que se vá mais longe, de modo a ousarmos passos ainda não ou pouco tentados. Por exemplo:

– Que tal empreendermos passos em direção a um debate maior e a inciativas de organização mais atuante, a médio e longo prazos, do segmento eclesial protagonizado pelas leigas e pelos leigos, inclusive com vistas à organização de conferências nacionais (como primeiro passo para a organização de conferências continentais)?

– Por que não ousarmos passos, a médio e longo prazos, com vistas a um novo Concílio a ser desta vez protagonizado, por delegações proporcionais de todos os segmentos eclesiais?

Convém ressaltar que tais iniciativas constituem apenas algumas de tantas possibilidades a serem debatidas e amadurecidas, não apenas pelo segmento eclesial composto pelas leigas e pelos leigos, mas pelo conjunto católico de Batizadas e Batizados, compromisso a ser assumido no tempo que o Espírito do Ressuscitado nos inspirar…

João Pessoa, 27 de fevereiro de 2019.

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