Homens e monstros

MischRochus Misch foi guarda-costas e telefonista de Adolf Hitler, um dos últimos a abandonar o bunker, o único sobrevivente e testemunha dos derradeiros momentos da queda de Hitler e o maior nazista. Relembrando o primeiro contato que teve com o Führer, afirmou: “Ele não era um monstro, não era um ‘Übermensch’. Estava ali na minha frente como um cavalheiro perfeitamente normal e disse palavras gentis”.[1]

Ora, nenhuma surpresa. Na vida privada os piores sanguinários podem ser exemplos de pais de família, religiosos fervorosos e indivíduos até gentis e bondosos. O torturador abandona a sua vítima e se dirige ao aconchego do lar, onde cumpre o papel de bom pai, bom esposo e temente aos mandamentos divinos. Da mesma forma, indivíduos bem situados na hierarquia das organizações humanas, não vacilaram em criar os filhos de mães e pais acusados de comunistas e, por causa deste “grave pecado”, assassinados e jogados ao mar. Tais indivíduos passaram até por verdadeiros pais. Alguns homens e mulheres têm a capacidade de representar diferentes papéis nos espaços público e privado.

Da mesma forma que o assassino age como “anjo” no espaço privado, há os que representam semelhante papel em âmbito público e, no espaço do lar, atuam como verdadeiros crápulas em relação à família. Que dizer de pais bem vistos no espaço público, mas que, sob a proteção das paredes e a quase certeza da impunidade garantida pelo terror que impõe, espancam esposas e violentam as filhas? Isto me faz lembrar dos filmes: 1) Dogville, no qual a personagem é estuprada e o seu algoz ainda encontra argumentos para se justificar; o filme não tem cenários fechados, as casas são representadas por traços, o que torna ainda mais chocante a cena, pois quem assiste pode observar o plano interno e externo, o que ocorre na rua e no espaço privado após a porta; mas a personagem postada à entrada da casa não sabe o que ocorre em seu interior, o que exemplifica bem a frágil, porém, eficaz, separação entre o privado e o público; 2) em Violação de privacidade o pai violenta sexualmente a filha, com a anuência da esposa, que, após a morte dele, ainda se esforça para manter a boa imagem pública do mesmo.[2]

Os monstros que agem motivados por causas religiosas e políticas encontram nestas a autojustificação. De certa forma, a certeza de que fazem a coisa certa, de que o fim justifica os meios, atenua a consciência do mal. Neste raciocínio, o que vale é o resultado. Se os objetivos forem alcançados, ninguém se lembrará das atrocidades. Dostoievski nos oferece duas obras que permitem a reflexão sobre este tema: “Os Demônios” e “Crime e Castigo”.

Monstros humanos são gerados no ventre da sociedade. Se esta os abomina e choca-se com a barbárie, também esconde as monstruosidades que cria. A sociedade que nega também legitima. Do contrário, como explicar o surgimento dos ditadores? Apenas pelas características individuais e a ambição pelo poder? Não, os ditadores resultam do contexto social, político, econômico, cultural etc. de suas épocas. Como observei em outro momento[3], é preciso que analisemos porque a sociedade termina por legitimar as ditaduras. Do contrário, corre-se o risco de resumir a complexidade política à biografia dos ditadores. Se o terreno é fértil, os monstros latentes em seres humanos considerados civilizados, “cavalheiros” e “normais” virão á tona e estenderão as suas garras, inclusive com o apoio de “monstrinhos” e “pequenos ditadores”.


[1] * “Os segredos do último ajudante vivo de Hitler”. Der Spiegel, 31.07.07, disponível em http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2007/07/31/ult2682u524.jhtm. Acesso em 31.07.07.

[2] “Morte e esquecimento”, publicado em http://antonio-ozai.blogspot.com/2007/07/morte-e-esquecimento.html, 20.07.2007.

[3] “A morte de um ditador”, em http://antoniozai.blog.uol.com.br/arch2006-12-10_2006-12-16.html, de 11.12.2006.

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Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).

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