Hiper-exigência ou vida?

tciAs vezes a gente pode dizer adeus sem dizer adeus. Se despedir sem se despedir. Deixar atitudes de auto-exigência que nos martirizaram durante muito tempo, e fluir para uma convergência com a vida, mais pacífica e harmoniosa, mais integrada e integradora.

A auto-exigência pode ter muitas origens. Uma necessidade de ser aceito, de agradar a todo custo. Uma culpa. Um perfeccionismo. No fundo, tudo isto nasce do mesmo lugar: não me aceito como sou. Não aceito ser a pessoa que sou.

No entanto, apenas posso ser eu mesmo, e mais ninguém. Posso ter encoberto a minha auto-exigência excessiva, uma hiper-exigência, com diversas roupagens: uma militância política, uma devoção religiosa, o cultivo de uma arte como a pintura ou a escrita.

Mas chega um tempo em que as coisas tendem a se igualar. Um tempo de equilíbrio, um tempo de medida. Trato de estabelecer uma relação de equidade. Tenho crescido muito neste espaço. Pessoas e movimentos sociais dos quais participo e a quem admiro, tem visto a luz por esta janela. Mas talvez, sem perceber, tenha ferido a suscetibilidade de alguém com mais poder do que eu, de quem depende esta publicação.

Sentiria muito não poder publicar mais nestas páginas. Mas sentiria muito mais ter perdido algo de mim nesta tentativa de servir a uma causa ao mesmo tempo muito grande e valiosa, e muito simples e imperceptivel: a recuperação da pessoa humana. A libertação da linguagem, como propunha Julio Cortázar. A libertação pela palavra, a liberação na palavra. Tornar-se palavra liberta, palavra livre, livrepalavra.

Todas as ações tem um custo. Sabemos isto pelo menos desde Max Weber: algo se ganha e algo se perde, em termos de valores, cada vez que se age, e também quando nos omitimos. Tudo tem um preço, isto sabemos. E não estou em um momento da minha vida em que sinta, como cheguei a sentir no passado, que devia me imolar por alguma causa. Não tenho vocação para kamikaze. Foi a culpa, a auto-exigência que mencionava no começo destas reflexões, que me impulsava a fazer tudo em nome de algo de bom. Qualquer sacrifício era válido por aquilo que considerava valioso.

Continuo achando que as coisas que nos são caras, merecem nosso cuidado, e que este cuidado muitas vezes exige luta e confronto. Mas agora, neste preciso momento em que escrevo estas linhas, vem a mim a lembrança de tempos passados da minha vida, em que me empenhei, com as minhas companheiras e companheiros, por um país sem fome, sem dominação, sem violência. Foi uma luta justa, uma luta construtiva. Pagamos o preço por nossas atitudes. Toda atitude traz consequências.

Hoje sinto que a continuação desse impulso positivo, se dá sobre tudo na Terapia Comunitária Integrativa, uma ferramenta que possibilita a recuperação da pessoa humana a través de um trabalho de resgate da própria identidade. O re-encontro com o ser profundo em redes solidárias nas quais confluem os saberes científicos e populares. A revalorização da pessoa e da família, do trabalho cotidiano que liberta, que abre horizontes de significado para todas as pessoas, independentemente de classe social ou nível de instrução.

Este é um sonho no qual vejo florescer os nossos empenhos de ontem, dos anos 1960 e 1970. Um sonho concreto, no qual nos descobrimos co-reponsáveis, saímos da postura de vítimas ou salvador da pátria, para a de pessoas responsáveis que se defrontam com a liberdade de serem o ser que são.