Haiti derrota o Brasil em Honduras

O golpe civil-militar contra o presidente constitucional, eleito pelo povo de Honduras, Manuel Zelaya, finalmente foi bem-sucedido. Novas eleições foram realizadas, com um quorum baixo, sem, no entanto, contestar o poder dos golpistas. Não há dúvidas que a tentativa do Brasil de reconduzir Zelaya ao seu posto foi frustrada por inúmeros fatores, principalmente pela ocupação militar brasileira do Haiti, sob a capa de Força de Paz, que contradiz a demanda brasileira por democracia na América Latina, justificativa do apoio ao presidente hondurenho derrubado.

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A intervenção brasileira em Honduras foi criticada à esquerda e à direita na América Latina. Entre os esquerdistas, não faltaram acusações de “imperialismo” brasileiro.

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De fato, apesar da censura da imprensa brasileira, (à esquerda e à direita), o Brasil vem ocupando o Haiti desde 2004, após o golpe contra o presidente constitucional e eleito pelo povo, Jean-Bertrand Aristide. O golpe contra Aristide foi apoiado pelos EUA e França. O presidente deposto, durante o seu mandato, chegou a exigir da França uma gigantesca indenização, de US$ 21 bilhões, pelas atrocidades que as autoridades colonias francesa cometeram no Haiti, antes, durante e depois da Revolução, no final do século XVIII, que libertou os escravos e trouxe a independência ao país. O governo de Arisitide foi caracterizado por uma sucessão de crises sociais e políticas, causadas pela pobreza extrema, que culminaram na formação de gangs, cujas ligações com potências estrangeiras (leia-se EUA e França) são obscuras. Em 2004, após um levante, muito pouco esclarecido pela imprensa, Aristide foi deposto, colocado num avião do governo dos EUA. O Haiti foi tomado pelo caos e a ONU enviou uma força de paz. A missão de paz é chefiada pelo Brasil, na primeira intervenção militar brasileira liderada por um civil, Lula. Em 1965, o Brasil, sob a ditadura civil-militar do mal. Castelo Branco, interveio em São Domingos, após um golpe patrocinado pelos EUA.

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Um dos primeiro comandantes brasileiros da Missão de Paz no Haiti (Minustah) foi o general Urano Teixeira da Matta Bacellar, que morreu em circunstâncias misteriosas, dado oficialmente como suicídio.

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Há poucos informes da ação da Minustah na imprensa brasileira, nem mesmo nos partidos chamados de “esquerda” oferecem qualquer informe sobre a ação dos brasileiros no Haiti.

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Com uma política externa pouco coerente, o Brasil resolveu, no caso hondurenho, contrariar os EUA, e apoiou o presidente Manuel Zelaya, um conservador que tinha planos de introduzir reformas políticas e econômicas, que para muitos críticos, o aproximavam do presidente venezuelano Hugo Chávez, de retórica anti-americana. Zelaya, ao tentar introduzir as reformas, deixou de ter o apoio de seu próprio partido, que o derrubou num golpe em junho de 2009. O presidente deposto demonstrou ter pouco apoio popular durante toda a crise.

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O golpe em Honduras dividiu o governo dos EUA. Os democratas, que ocupam a Casa Branca, com o presidente Barack Obama, ficaram indiferentes a sorte dos golpistas e do presidente deposto. Por outro lado, os republicanos ofereceram apoio integral aos golpistas, fazendo várias visitas o presidente hondurenho de fato, Micheletti. Entretanto, Obama precisava de votos republicanos para sua reforma no sistema de saúde americano, totalmente privatizado, o que só conseguiria endurecendo seu discurso belicista, favorecendo, desta forma, os falcões republicanos. Os EUA passaram de um apoio tímido ao um apoio mais veemente ao novo status em Honduras, retaliando o Brasil, através, por exemplo, de barreiras ao uso de satélites meteorológicos americanos para previsão de tempo, indispensável para a agricultura.

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A incoerência da política externa brasileira, consubstanciada na intervenção no Haiti, é, entretanto, o principal responsável pelo fracasso do Brasil na intervenção em Honduras. O Haiti é um país de cultura francófona, distante, sem ligações históricas ou culturais com o Brasil. Há fortes suspeitas que a intervenção militar brasileira no Haiti sirva de treinamento para as Forças Armadas em possíveis operações nos morros do Rio de Janeiro, no combate ao tráfico, supostamente. Justifica-se a presença brasileira no Minustah como uma forma do Brasil ter maior projeção internacional, através de uma “Missão de Paz”, qualificando o  país para uma provável cadeira cativa no Conselho de Segurança (CS) na ONU. É um tipo de explicação que só convence os que acreditam em reforma no CS da ONU.

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O fato é que ocupar o Haiti acabou se revelando de pouca serventia para uma possível cabeça-de-ponte na resolução da crise hondurenha.

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Enquanto o Brasil promove a intervenção em países latino-americanos, com quem não nutre quaisquer laços histórico-político-culturais, mantendo a fama sul-americana de país imperialista, nem sempre sem fundamento, nações com fortes ligações histórico-político-culturais com os brasileiros são negligenciadas (para não dizer abandonadas) deliberadamente por nossa política externa, como são os casos de Angola, Moçambique e Timor Leste.

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O caso mais grave é o de Timor Leste, país insular ao norte da Austrália e sul da Indonésia, com esta vizinhança é possível entender o valor estratégico desta ilha. Rico em petróleo, o país foi invadido e ocupado pela Indonésia, logo após sua independência de Portugal, em 1976. Os indonésios exterminaram a metade da população do pequeno país, cerca de 300 mil pessoas, fazendo o indonésio a língua oficial da ilha. A invasão, a ocupação e o genocídio de Timor Leste tiveram o apoio dos EUA e receberam a indiferença do Brasil, sob a ditadura e sob a democracia. A resistência timorense tomou a língua portuguesa como língua de resistência. Após o fim da ocupação, em 1999, o Brasil manteve-se inerte frente à sorte dos timorenses, enquanto a Austrália, sob o domínio de uma política externa agressiva e ultra-conservadora, passou a praticamente a exercer uma nova ocupação de fato do país, sob o disfarce de uma Força de Paz, de forma análoga à intervenção do Brasil no Haiti.

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Ao invés de construirmos uma política progressista em países lusófonos, tradicionalmente simpáticos ao Brasil e aos brasileiros, o Itamaraty e o Palácio do Planalto arriscam-se em aventuras em países hostis e refratários à influência do Brasil na América Latina, aonde não faltam desafetos históricos da política externa brasileira, que quase sempre foi intervencionista e brutal com seus vizinhos. Não se pode surpreender porque muitos destes preferem uma aliança com os EUA.

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O resultado desta política externa esquizofrênica e desastrosa, como se revela agora, dos governos civis do PSDB e do PT foi a ocupação militar da Colômbia pelos EUA e a reativação da IV Frota americana no Atlântico Sul.

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O regime militar brasileiro entendeu que o espaço de projeção brasileira é o Atlântico Sul, os civis, surpreendentemente tentaram reverter isto, favorecendo as relações com as Américas, com os resultados que conhecemos agora. É preciso, portanto, que o espaço de influência sul-atlântico seja ampliado, sendo necessário e imperioso a incorporação de todo o Oceano Índico e, assim, do Pacífico Sul, criando uma zona de cooperação com o mundo árabe e islâmico, a Índia, Oceania (especialmente a Nova Zelândia) e África, livre das influências dos EUA e da Europa.

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Não é apoiando golpes no Haiti e contra-golpes em Honduras, que o Brasil terá sua tão almejada projeção internacional. Os EUA entendem isto e já afrontam o Brasil, com sucesso, na América Latina, inclusive na América do Sul. Resta o Itamaraty levar a sério a nossa política externa, o que não vem ocorrendo desde 1985.

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Envio abaixo a entrevista com o de fato ex-presidente de Honduras, Manuel Zelaya.

 

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http://www.rebelion.org/noticia.php?id=96822

 

11-12-2009

 

Entrevista a Manuel Zelaya, legítimo presidente de Honduras

 

“Se está gestionando, por parte del gobierno de facto, mi salida del país”

 

Ricardo Benassi

 

BBC Mundo

 

El depuesto presidente de Honduras, Manuel Zelaya, negó haber solicitado asilo político en otra nación latinoamericana y aseguró que su eventual salida hacia otro país forma parte de un “proceso de diálogo interno”.

 

La madrugada de este miércoles se informó que el gobierno interino de Honduras había negado al presidente depuesto un salvoconducto para que saliera del país rumbo a México. Según se informó, mientras que Zelaya pedía ir a México como “huésped ilustre”, mientras que el gobierno provisional hondureño le ofrecía un salvoconducto como “asilado político”.

 

Lea: Niegan salvoconducto a Zelaya

 

Sin embargo, Zelaya dijo a BBC Mundo, no fue él quien solicitó un salvoconducto para dejar la embajada de Brasil en Tegucigalpa, donde permanece desde el pasado 21 de septiembre.

 

“Se está gestionando por parte del gobierno de facto (…) una salida mía para ir a hablar del proceso de diálogo en Honduras a otro país”, aclaró Zelaya.

 

¿Usted pidió un salvoconducto o una autorización al gobierno interino de Honduras para dejar la embajada de Brasil y salir del país?

 

Se ha estado promoviendo aquí un proceso de diálogo interno, específicamente con el fin de encontrar soluciones. Habló Leonel Fernández (presidente) de República Dominicana y nosotros nos comunicamos con el presidente de México.

 

Hemos hablado también con otros presidentes de Centroamérica, con los presidentes de América del Sur y, en este sentido, se está gestionando por parte del gobierno de facto –fue prácticamente una iniciativa buscada por ellos– una salida mía para ir a hablar del proceso de diálogo en Honduras a otro país que pudiera dar esas condiciones.

 

Estaba planteado (República) Dominicana o estaba planteado México para eso.

 

Considero yo que esto ha sido interpretado como un problema de asilo o un problema de buscar otro estatus político y eso es falso. Totalmente lo niego: yo no he pedido asilo, no quiero asilo, no acepto asilo.

 

Siempre y cuando las condiciones sean de respetar la dignidad y la investidura del presidente, yo estaré dispuesto a sostener un diálogo con las personas que están interesadas en este proceso de la búsqueda de soluciones para la democracia hondureña.

 

Según sus palabras, la idea de salir de la embajada de Brasil a otro país no habría partido de usted sino del presidente de República Dominicana e incluso del gobierno interino.

 

Sí más o menos en esas condiciones. El propio Leonel Fernández me habló en el día de ayer con esa iniciativa.

 

¿Y de parte del gobierno interino tuvo algún contacto en relación a esa iniciativa?

 

En forma directa no, sino simplemente a través de terceras personas o de la embajada de México que tiene aquí un encargado de negocios.

 

¿En qué condiciones podría salir del país?

 

Eso se había acordado con México. Hay una carta inclusive de México aclarando esa situación para el gobierno de facto de Honduras que era una condición de huésped.

 

“Huésped distinguido”, así México está recibiendo a su servidor.

 

¿Qué garantías necesitaría del gobierno interino para salir de la embajada de Brasil?

 

Yo no he recibido ningún documento, ninguna certificación, ningún escrito, absolutamente nada; por eso yo no me he pronunciado al respecto, porque no hay nada más que las insinuaciones de trámites que se estaban haciendo que entiendo yo que los hizo directamente el encargado de negocios de la embajada de México en la cancillería del gobierno de facto de Honduras.

 

En caso de producirse su salida de Honduras, ¿sería temporal o definitiva?

 

Sobre eso no puedo pronunciarme porque no existe ninguna evidencia de que se esté formalizando ese tipo de trámites, entonces al futuro no sabemos qué va a suceder.

 

¿Va a seguir dentro de la embajada de Brasil?

 

Yo tengo la hospitalidad de Brasil al cual agradezco sinceramente, tanto al presidente Lula, al canciller (Celso) Amorim, igual a Marco Aurelio (García, asesor en política exterior) y a los representantes aquí en la propia sede diplomática de Brasil en Tegucigalpa.

 

Ellos han estado luchando igual que toda América Latina por el retorno del orden democrático en Honduras y esto es un sentido positivo de lo que significa la democracia para nosotros y en este sentido nos mantenemos totalmente relajados, tranquilos, buscando realmente una solución para Honduras y no una solución personal para su servidor.

 

¿Brasil le puso alguna fecha a su permanencia en la embajada?

 

Brasil ha abierto las puertas para la defensa de este proceso de paz y la reconciliación de Honduras y eso hay que verlo con ojos positivos, como muy loable para el pueblo brasileño.

 

¿Tuvo algún contacto con Porfirio Lobo, el ganador de las elecciones presidenciales del 29 de noviembre?

 

Hemos tenido contactos en este sentido por la llamada de Leonel Fernández que se iba a desarrollar un proceso dentro de (República) Dominicana también, con ese sentido hemos tenido algunos contactos.

 

Usted mencionó varias veces al presidente de República Dominicana, ¿estaría asumiendo un nuevo rol de mediador en el conflicto hondureño?

 

Bueno, en este momento no puedo confirmarle absolutamente nada. Este tipo de contactos que se tienen con los presidentes son precisamente para buscar una solución.

 

Así también hemos hablado con el presidente (Oscar) Arias (Costa Rica), hemos hablado con el presidente Lula (Brasil), con el presidente (Rafael) Correa (Ecuador), con el presidente Daniel Ortega (Nicaragua).

 

Yo hablo frecuentemente con todos los presidentes en la búsqueda de estas soluciones y pronunciarse hacia el futuro, qué es lo que pasará o qué es lo que va a pasar, creo que no me corresponde a mí.

 

 

Fuente: http://www.bbc.co.uk/mundo/america_latina/2009/12/091209_0457_zelaya_entrevista_rb.shtml

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