Graves inconvenientes

O tal jornalismo ficaria muito mais interessante se os ditos jornalistas se abrissem para o mundo (em vez de fecharem a pauta todos os dias), o que acabaria por causar um retrocesso imenso (porém produtivo), segundo nos conta Montaigne (1533-1592), no livro 1 dos Ensaios, capítulo 31:

“(…) O homem que tinha a meu serviço, e que voltava do Novo Mundo, era simples e grosseiro de espírito, o que dá maior valor a seu testemunho. As pessoas dotadas de finura observam melhor e com mais cuidado as coisas, mas comentam o que vêem e, a fim de valorizar sua interpretação, persuadir, não podem deixar de alterar um pouco a verdade. Nunca relatam pura e simplesmente o que viram, e para dar crédito à sua maneira de apreciar, deformam e ampliam os fatos.

“A informação objetiva, nós a temos das pessoas muito escrupulosas ou muito simples, que não tenham imaginação para inventar e justificar suas invenções e igualmente que não sejam sectárias.

“Assim era o meu informante, o qual, ademais, me apresentou marinheiros e comerciantes que conhecera na viagem, o que me induz a acreditar em suas informações sem me preocupar demasiado com a opinião dos cosmógrafos. Fora preciso encontrar topógrafos [exploradores] que nos falassem, em particular, dos lugares por onde andaram. Mas, porque levam sobre nós a vantagem de ter visto a Palestina, reivindicam o privilégio de contar o que se passa no resto do mundo.

“Gostaria que cada qual escrevesse o que sabe e sem ultrapassar os limites de seus conhecimentos; e isso não só na matéria em apreço, mas em todas as matérias. Há quem tenha algum conhecimento especial ou experiência do curso de um riacho, sem saber de resto mais do que qualquer um, e no entanto, para valorizar sua pitada de erudição, atira-se à tarefa de escrever um tratado acerca da configuração do mundo. Este defeito muito comum acarreta graves inconvenientes.”

[Arte: Patricia Chinelli, Riacho, óleo s/ tela, 50×60 cm (clique na imagem). Texto: Montaigne, Ensaios -Livro I, Capítulo XXXI]

Comentários

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Bem oportuno esse texto.
Abraço,
Heverton

Parabéns pelo blog

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