Grande Mídia dá uma Trégua no Caso Battisti

giustizia&morte


Carlos Alberto Lungarzo

Anistia Internacional (USA) – 2152711

Na seção Tendências/Debates do jornal Folha de S. Paulo do dia 18/06/2010, o professor e jurista Luís Barroso, um dos defensores do escritor italiano Cesare Battisti junto ao Supremo Tribunal Federal, publicou uma apreciação rigorosa e contundente sobre o caso de seu defendido. Os que não são assinantes da Folha podem ver uma reprodução textual da manifestação do jurista no blog de Celso Lungaretti, aqui. (Na mesma página do blog, como anexo, Celso inseriu um vídeo do trabalho em que eu provo a falsificação das procurações que os advogados de Cesare utilizaram em Milão.)

Nos últimos dois anos, Barroso tem publicado vários artigos sobre Cesare, alguns muito detalhados, precisos e com abundante e clara informação, como este aqui. No entanto, o publicado agora, em minha opinião, é o mais categórico e assertivo de todos. Já o nome da matéria, Terrorismo Verbal, é sumamente duro. Tem eloquência suficiente para referir-se sem eufemismos à tarefa cumprida pela grande mídia contra Battisti: aterrorizar a opinião pública apresentando uma imagem falsa do romancista italiano, ex ativista de esquerda, que está totalmente resocializado há “apenas” 28 anos, e fez amigos em todo o mundo civilizado por sua sensibilidade literária, artística e social.

Ao apresentar a versão real sobre os fatos, Barroso não se furta de dizer: “A história documentada, que raramente se consegue contar ao público, é a seguinte: …” [grifo meu]. Deixa assim claro que as histórias que descrevem Cesare como terrorista, homicida e pessoa perigosa são as histórias falsas, mas, além disso, são as histórias “obrigatórias”, que os establhishments italiano e brasileiro (ambos, não apenas o italiano) impõem como as únicas possíveis, proibindo a verdadeira.

Barroso também denuncia o ânimo persecutório, e as maiores irregularidades do processo. Cesare foi acusado oficialmente de subversão, e não de homicídio, e aqueles crimes foram “carregados” em sua conta sem acusação formal, apenas como “fofoca” dos delatores premiados, que ganharam depois a liberdade, enquanto Battisti recebia uma sentença que incorporava esses delitos sem qualquer prova nem testemunha.

Bom, o leitor poderá apreciar a importância deste texto numa leitura e não se justifica repetir aqui todos seus acertos. Entretanto, meu objetivo ao comentar a matéria de Barroso é chamar para atenção para um fato surpreendente: um dos maiores órgãos da mídia brasileira, a Folha de S. Paulo, tem dado espaço para alguém que diz a verdade sobre o caso Battisti!

É algo muito positivo, que deve ser celebrado, mas também algo surpreendente, que ninguém poderia imaginar, e que produz uma estonteante surpresa. Qual é o motivo pelo qual a grande mídia resolveu dar uma trégua em sua campanha de perseguição contra Battisti? As verdadeiras causas devem ser conhecidas por poucas pessoas, mas podemos analisar as hipóteses mais prováveis.

Não é o caso de voltar a revisar as inúmeras campanhas de difamação da grande mídia contra Cesare Battisti, até porque ninguém dispõe de tanta memória de computador para o tamanho da lista. Alguns órgãos ou programas instilaram mensagem de ódio de altíssima voltagem: a revista Veja, o Jornal da Globo, e a revista Carta Capital, esta última considerada de centro-esquerda por muitas pessoas (o que coloca o grave problema de entender o que é esquerda no Brasil). Já, órgãos mais sérios, como os grandes jornais, mantiveram uma parcialidade mais dissimulada.

A Folha, por exemplo, referiu-se sempre a Cesare como “terrorista”, pelo qual é esquisito que publique um artigo onde se critica esta palavra infame e sensacionalista. Em alguns momentos, os editores talvez entenderam a dificuldade de fazer terrorismo dentro de uma prisão, e mudaram, por pouco tempo, para “ex terrorista”.

O jornal publicou algumas matérias favoráveis a Battisti. Uma apareceu em 28/01/2009 (vide) como notícia: era a opinião de Antígone, a mais importante ONG Europeia sobre Direitos Humanos de prisioneiros, que elogiava o refúgio político concedido ao escritor italiano. No 19/01/2009, apareceu, agora na seção Tendências/Debates, a carta onde o filósofo francês Bernard-Henri Lévy justificava seu apoio a Battisti e pedia ao presidente sua liberação.

É claro que um órgão jornalístico que se autoprojetou sempre como imprensa séria, não podia omitir as opiniões de celebridades como Suplicy, Dallari e outras, que se manifestavam em favor de Battisti, sendo que as opiniões e pareceres contra o refugiado ocupavam milhares de linhas por unidade de tempo. Mas, ainda assim, esta forçada objetividade foi relativa. Em novembro de 2009, o político italiano Fassino, na época da máxima escala italiana em favor do linchamento, emitiu opiniões pseudojurídicas sobre a necessidade de punir o escritor. Eduardo Suplicy, um já lendário defensor dos DH sem reparar nos esforços que isso custe, escreveu uma carta de leitores à Folha, um modesto texto de umas poucas linhas, que assinamos ambos, em como membro de Anistia Internacional. A Folha, que publica cartas sobre vizinhos que reclamam de buracos no asfalto, de pessoas que se queixam de barulhos de roqueiros, e outras bobagens, nem se deu o trabalho de publicar um resumo de cinco linhas.

Por outro lado, notícias derrogatórias sobre Cesar podiam ocupar uma média de três a cinco colunas por semana. Algumas dessas notícias eram apresentadas com neutralidade, mas outras eram destacadas sem nenhum motivo. Por exemplo, as contínuas provocações do então presidente do STF contra os que apoiavam Battisti foram reproduzidas sem poupar uma linha. Ainda mais aberrante foi o destaque dado a Alberto Torregiani, filho de Pier Luigi, o ourives vítima do PAC, cuja morte seus autores atribuíram a Battisti. Embora seja mais do que compreensível a dor de uma pessoa condenada a movimentar-se em cadeira de rodas, não é fácil entender a causa de seu resentimento contra o Cesare, sendo que ele mesmo reconhecia que o escritor não estava entre os que mataram seu pai, nem entre os que dispararam tiros por causa dos quais ficou paraplégico.

Nos últimos tempos, a Folha publicou uma notícia difundida por ANSA, que evitou, no entanto, colocá-la em seu site, percebendo o ridículo nela embutido. Nela, Alberto pedia ao STF que lhe permitisse manifestar-se na Corte. É óbvio que isso não podia ser concedido, porque a Corte não interroga testemunhas. Então, dar uma notícia sobre um fato impossível era apenas uma manobra para enlamear o máximo o processo.

O Jornal ignorou declarações de celebridades que apoiavam Battisti, que um jornal sério, mesmo que fosse o mais conservador ao Oeste dos Montes Urais, teria publicado: a de Anita Leocádia Prestes, a segunda declaração de Antígone, esta dirigida ao presidente, a carta encaminhada a Lula pela Liga dos Direitos do Homem, a ONG francesa que foi a primeira organização de DH no mundo.

Ainda, no dia de retomada do julgamento de Cesare Battisti, em novembro de 2009, o diretor do jornal ou coisa que o valha (não sei qual é o título que recebe o capo numa empresa) publicou um estrondoso editorial exigindo a extradição de Battisti. Claro! Ele o publicou como matéria da casa, então ninguém pode acusá-lo de parcialidade. Qualquer cidadão sabe que uma matéria editorial manifesta a opinião pessoal da empresa que, afinal, tem esse direito. Ou não é ela a que investe dinheiro no lucrativo negócio?

Fazendo breve, de toda a mídia, a única que mostrou imparcialidade compatível com o que deve ser a informação num país civilizado (ou tido como tal) foi Isto É. Mesmo assim, não posso menos que lamentar sua falta de comedimento ao não responder minha proposta de publicar as provas da falsificação das procurações, e o pedido de Lungaretti no mesmo sentido. Uma vez, o Estadão concedeu uma entrevista ao juiz Marco Aurélio, o que foi um grande parêntese em sua campanha contra Cesare, e mostro imparcialidade, pelo menos, naquele momento.

Devo reconhecer que um blog de um jornalista da Veja chamado Nunes, publicou uma carta de leitor minha, onde eu desfazia as opiniões erradas de que os filhos de Sabbadin e Torregiani tinham sido testemunhas de que seus pais foram mortos por Battisti. Mas, este foi um caso especial. Essa afirmação sobre a culpa de Battisti foi publicada no meio de um comentário grosseiro e injurioso contra o Senador Suplicy, quem, muito corretamente, negava que alguém tivesse visto alguma vez Battisti cometendo homicídio. Acredito que o editor acedeu publicar minha carta (um longo texto, rigorosamente justificado), porque teve consciência que tinha exagerado suas injúrias e sarcasmos.

Mas, agora, a situação é diferente. A Folha, numa de suas páginas mais lidas, que chega a centenas de milhares de pessoas, publica a opinião do mais autorizado e erudito conhecedor do caso Battisti. Por que?

Não vou incorrer na ingenuidade de dizer que é por respeito à verdade, nem pela famosa liberdade de imprensa, que existe e é muito bem aproveitada, pelos donos, mas não pelos usuários. Penso que toda a campanha de difamação e ódio contra Battisti está muito esgotada. Goebbels estava certo ao proclamar o poder de mentira, mas ele não revelou que o sucesso de suas calúnias se devia não apenas à insistência, mas também à força bruta que o Reich possuía.

Com efeito, este é um assunto longo, mas vou dar uma ideia. A lógica do ódio é confusa, e acaba envenenando os próprios feitores. Se o nazismo conseguiu manter mentiras e preconceitos durante muito tempo, foi porque ele tinha força e podia oferecer alguma coisa aos que secundavam suas mentiras.

Mas a sociedade brasileira, formalmente democrática, com alguns tênues limites humanitários, não pode oferecer nada em troca aos linchadores de Battisti. Sabemos que a classe média que escreve comentários na própria Folha e outros jornais, encontra uma catarse  para sua paranóia quanto externa seus preconceitos, ódios, sentimentos xenofóbicos e neofascistas. Mas isso dura pouco: se Battisti for deportado, poucos conseguirão vê-lo morrer, talvez os guardiãs da prisão, parentes dos que se dizem “vítimas” da esquerda, e alguns dignitários de estado.

Mas o homem comum de classe média, a maioria silenciosa, o frustrado advogado de cadeia que não consegue nem prestígio nem grande fortuna, o fundamentalista teológico, etc., ninguém deles poderá ver morrer o refugiado, como podem ver morrer um assaltante linchado na rua, ou um trombadinha arrebentado por um bando de hooligans. Ou seja, manter o ódio sempre é um esforço, mesmo para quem odeia. E ninguém pode prometer uma recompensar por formar parte da claque de linchadores de Cesare.

Foi esse fenômeno o que desmoralizou até os mais assanhados, sádicos e doentios perseguidores. Os membros mais corruptos do Senado, os soldados da máfia evangélica, os ruralistas, etc., já não tem mais imaginação nem esforço para gritar “Matem Battisti!” e estão encontrando inimigos novos.

Só para dar uma ideia:

O site de petições contra Cesare, organizado pelo grupo do Orkut chamado Fora Lula!, abriu uma lista de assinaturas em janeiro de 2009, encabeçada por um manifesto pieguíssimo e subserviente onde bajulavam escandalosamente Napolitano e Berlusconi. Apesar da cumplicidade de mídia e do apoio dos políticos, eles obtiveram até o dia de hoje (20/06/2010), 307 assinaturas.

No site que Celso Lungaretti e eu abrimos no mesmo portal em dezembro de 2009, já temos 3809 assinaturas. Em termos absolutos, nós temos 12,4 vezes mais do que eles. Se vocês consideram que o site deles está funcionando durante 17 meses, e o nosso durante 6 meses, então eles tiveram 19 assinaturas por mês, e nós 685, ou seja, 37 vezes mais. Ainda, esta superioridade nossa é pequena, e pessoalmente me penitencio de não ter investido mais esforço em nosso petitório porque poderíamos ter obtido mais assinaturas.

A história mostra, pelos menos nos séculos 19 e 20, que a direita só atua quando possui uma esmagadora superioridade de poder militar, policial e econômico. Mas este exemplo da falta de empenho dos inimigos de Battisti prova que ela não consegue ser eficiente, mesmo nesses casos, quando é necessário convencer e raciocinar.

Estamos no QED de nosso teorema. A Folha é um jornal conhecido, possui numerosos serviços, é lido pelos muitos brasileiros que moram fora do país. Ela comprou uma batalha muito confortável contra Battisti, e o atacou com toda a violência que fosse compatível com certa elegância. Sabe que continuar com a mentira será puro desgaste. Aliás, segundo um boato (que, obviamente, não tenho condições de confirmar) que veio da Suíça, parece que os italianos não estão dispostos a gastar mais dinheiro no linchamento de Battisti. Até porque seus problemas domésticos estão ocupando todo seu poder de “sedução”.