Francisco, tecelão da interculturalidade, da justiça socioambiental e do desarmamento

Breves notas acerca da recente visita de Francisco, Bispo de Roma, as terras e as gentes da Tailândia e do Japão

Tem início, hoje, em Madri – devendo estender-se até o dia 13 do corrente – mais uma concertação internacional acerca da emergência climática. Disto, contudo, trataremos noutra ocasião. Por enquanto, baste-nos, por sugestão de Prof. Sinuê, indicar o frutuoso trabalho desenvolvido pelo pesquisador cearense Alexandre Costa, do qual segue o link: https://youtu.be/7UtaV18xN8U

De todo modo, o tema que trazemos à tona tem relação direta e indireta com aquele desafio.

A poucos dias de completar seus 83 anos (próximo dia 17/12), o Bispo de Roma retornou, no dia 26, próximo-passado, da Tailândia e do Japão, alvos de sua 32ª viagem apostólica, em dezenas de países, nos cinco continentes sua mais recente viagem apostólica teve como principais motes ou motivações, o diálogo inter-religioso, o exercício da interculturalidade, o desarmamento nuclear e a justiça socioambiental. Nenhum desses motes constitui propriamente uma novidade, na ainda recente trajetória do Bispo de Roma, a frente de suas funções. Com efeito, palavras-chave compõem seu universo vocabular, sobre o qual já tivemos oportunidade de refletir (cf. http://textosdealdercalado.blogspot.com/2016/07/do-universo-vocabular-do-papa-francisco.html http://consciencia.net/33501-2/). O Papa Francisco tem sido apreciado, mundo afora, de tal modo a revelar-se, dia após dia, como uma liderança de novo tipo tal é a estima cultivada sobre o Bispo de Roma, por seus gestos, palavras e escritos, não surpreenderia se nos dissessem tratar-se de alguém estimado, mas fora do mundo católico e mesmo do Mundo Cristão, do que entre pessoas e povos de outras confissões ou mesmo por pessoas sem confissão religiosa definida. Isto se comprova, também, nesta sua 32ª viagem apostólica, em que visitou terra e gentes da Tailândia e do Japão, tendo aí experimentado frutuosas relações, durante uma semana, mais precisamente, entre os dias 19 e 26 de novembro deste ano.

Nas linhas que seguem, cuidamos de destacar o que consideramos terem sido os pontos fortes de sua 32ª viagem apostólica. Tratamos, em seguida, de destacar os seguintes aspectos: seu compromisso com com a interculturalidade, sua defesa intransigente da Justiça socioambiental, sua posição firme e profética contra as armas nucleares bem como aspectos pedagógicos característicos deste grande educador.

Bispo de Roma, como um tecelão da interculturalidade

Dando sequência a seu compromisso incansável de abrir e manter diálogo com povos e lideranças das mais distintas confissões religiosas e com pessoas e grupos sem confissão religiosa definida, Francisco testemunha, mais uma vez, sua coerência com relação ao que tem dito, feito e escrito, inclusive em relação ao povo católico não se cansa de chamar atenção e ao compromisso, por parte dos católicos, no sentido de aderirem chamamento do Evangelho, quanto à necessidade e urgência de fortalecermos uma “Igreja em saída”. Os dramas do mundo atual, tal como em desafios passados, não permitem ações e testemunho de uma igreja auto referenciada, de uma igreja voltada para seus próprios interesses exclusivos. Também nesta direção, não se cansa de afirmar e reafirmar o chamamento ou a proposta feita por Jesus, no sentido de despertarmos e assumir nossa verdadeira vocação de discípulos e discípulas, de missionários e missionárias. Esta vocação implica, sobretudo, o testemunho a serviço das causas libertárias do nosso mundo. Dentre as causas libertárias mais urgentes, o Papa Francisco, em sua recente viagem, destacou a disposição incessante de fortalecimento de relações interculturais. Interculturalidade baseada no incansável exercício do diálogo com outras culturas e com outras expressões religiosas, características da enorme multiplicidade de modos de sentir de pensar de agir e de querer dos mais distintos povos espalhados pelos diversos continentes. Trata-se, por consequência, do compromisso de romper com toda unipolaridade, quer se trate de eurocentrismo, quer se trate de submissão a uma determinada Cultura, compreendida como a detentora da Verdade e da autoridade de digitar normas suas para o conjunto dos povos. Francisco, por sua vez, como tecelão da interculturalidade, percorre o mundo inteiro, a despertar consciências e compromissos com com o respeito a dignidade de toda expressão cultural, não importando o povo que a vivência.

Como para todo bom educador popular, a exemplo de Paulo Freire e outros e outras, também para Francisco, interculturalidade não se reduz a um conceito acadêmico, abstrato, desligado do contexto histórico concreto, mas significa principalmente uma experiência vivencial, concreta e pensada, a partir de espaços históricos contextualizados. neste sentido, vivenciar interculturalidade comporta práticas e concepções, testemunhos, posturas desconcertantes, no mundo refém da pós verdade, no mundo Rendido a meras palavras e declarações, sem nexo com a realidade concreta. Interculturalidade, deste modo, vem carregada de consequências. Uma delas tem a ver com a necessária ruptura com com a unipolaridade, seja em relação a há um país, seja em relação a uma potência que se pretenda acima de povos e nações, tratados como meros objetos de sua dominação, de seus interesses, de seu ideário. Por exemplo, a interculturalidade rompe com o racismo,  sob todas as suas manifestações. Rompe com pretensos modelos de superioridade de uma nação em relação a outras. Rompe privilégios dê toda sorte: econômicos, políticos, culturais ora, no mundo conformado a ideologia de grandes potências, a mera proposta de interculturalidade desagrada a esses “donos do poder”. Interculturalidade desponta, em tal contexto, como uma proposta revolucionária, à medida que se nega a reconhecer superioridade de um povo ou de uma nação sobre outros povos e outras nações tomando como exemplo o caso da proposta organizativa característica da ONU, podemos perceber que nela a interculturalidade é, com frequência, abortada, sempre que as decisões da enorme maioria de seus membros passam a ser obtidas por um simples veto. Na verdade é um privilégio, de qualquer um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança, a saber Estados unidos, Rússia China, Inglaterra e França. Qualquer resolução democraticamente tomada por dois terços ou a quase totalidade dos países membros da ONU, pode ser obstada pelo privilégio do voto, detido por uma destas cinco potências mundiais. Falar-se aí em democracia soa uma tremenda impropriedade ou mesmo uma falácia grosseira, exemplos outros 1000 poderiam servir de ilustração, no quadro geral de gestão, em nosso mundo.

Sem interculturalidade e sem Justiça socioambiental, a paz se torna um discurso vazio

Outra expressão chave que podemos observar, nesta viagem apostólica de Francisco, Bispo de Roma, tem a ver com com a emergência de Justiça sócio ambiental vimos, no tópico precedente, como os caminhos de construção de uma verdadeira paz passam pelo exercício contínuo da interculturalidade, forma eficaz de combate ao racismo, em todas as suas manifestações trazemos, nas linhas que seguem, Nossa reflexão acerca da Justiça sócio ambiental como um pressuposto necessário da Paz justiça sócio-ambiental, tal como proposta pelo Papa Francisco, em suas práticas, em suas palavras e em seus escritos, há de ser entendida, não apenas em sua relação com nossos ecossistemas, como se desligados estivessem dos humanos e de todos os viventes, compreendemos Justiça socioambiental como um todo composto dos mais diversos ecossistemas e dos seres vivos, inclusive os humanos, que os integram e não se trata de terminologia acadêmica, mas, de fato, a justiça socioambiental, anunciada pelo Papa Francisco, inclui necessariamente nosso compromisso de Justiça tanto em relação ao ambiente quanto em relação aos que dele fazem parte ao anunciar a urgência de priorizarmos a justiça socioambiental, o Papa Francisco nos remete ao enfrentamento da busca de superação de gigantescos impasses, que tem ameaçado a vida, em todas as suas manifestações. Anunciar, por conseguinte, a justiça sócio ambiental significa, por um lado, denunciar as mais diversas expressões de ameaça à vida do planeta e dos humanos significa urgir nossa consciência de humanos, quanto aos nossos compromissos e responsabilidade com toda sorte de malfeitos e desmandos praticados, de modo frequente e crescente, em nossos dias chamar atenção é o que faz o Papa Francisco, não apenas por meio de sua valorosa encíclica social “laudato si”, mas igualmente em tantas outras circunstâncias de suas intervenções, por gestos palavras e escritos. Associando-se à toda comunidade científica que se tem ocupado, sem cessar, em divulgar os resultados espantosos de suas pesquisas, dando conta dos enormes riscos e ameaças às formas de vida, seja em razão do contínuo aquecimento climático, com efeito imediato sobre o derretimento das calotas polares, do aumento do nível do mar, desastrosas consequências de que já estão sendo vítimas travessão e outras logo mais passaram a ser travessão de fenômenos tais como ocorrências de sunami, de enchentes, de tempestades fulminantes, da desertificação, das frequentes secas e períodos volumosos de chuva, além de outros fenômenos colaterais de reconhecida gravidade, tais como a insuportável concentração de carbono na biosfera, na na crescente acidez dos mares e oceanos, dos níveis altíssimos de poluição travessão poluição dos mares, com a inundação de plásticos, de consequência letal para a fauna marinha –  a concentração inédita de poluentes de todo tipo, a inviabilizar a vida em várias cidades do mundo, a exemplo de Nova délhi, na Índia. Consequências letais não param aí. Devemos acrescer tantas outras formas de agressão sócio ambiental: o envenenamento das águas dos rios, do mar; o crescente desmatamento; a expansão vida de terras desmatadas, em razão de políticas necrófilas concebidas e implementadas pelo agronegócio, pelas grandes empresas de mineração, pelo uso e abuso de agrotóxicos a infestarem o subsolo, o solo, a vegetação, a fauna, os humanos…

Todas essas manifestações não se produzem ocasionalmente, mas se mostram fruto de políticas econômicas características da ganância mortal do mercado capitalista, em especial do seu setor mais necrófilo, o setor financista e seus paraísos fiscais.

Como dito precedentemente, justiça sócio ambiental não tem a ver apenas com a dignidade do planeta, mas também com os humanos. Neste sentido, são igualmente numerosas as manifestações da lógica do lucro incondicional, a incidir direta e indiretamente hein em múltiplas situações envolvendo e impactado as condições de vida e de trabalho de multidões a sanha rentista e dos demais setores do capitalismo não tem compromisso com a justiça social, a não ser formalmente, isto é, na letra fria das leis, e, ainda assim, a depender da interpretação conferida por ricos escritórios de advocacia, ao ler e interpretar hein as leis respectivas A esse respeito, tem-se notabilizado, mundo afora, inclusive no Brasil, o que se vem chamando de offer, isto é julgamentos parciais, sentenças mas no arbítrio do que nos autos. aos gravíssimos danos e estragos provocados pela sanha de lucratividade também tomam como alvo as condições de vida e de trabalho de milhões de pessoas. sobre a designação imprópria de “reformas”, gravíssimas retiradas de direitos vem sendo processadas, no Brasil, seja em relação às leis de proteção ao trabalho, seja em relação às leis previdenciárias e outras. As desigualdades sociais seguem sendo atestadas, inclusive em dados oficiais, como, por exemplo, fornecidos pela Fundação IBGE no tocante a vários aspectos, entre os quais o relativo ao crescimento das desigualdades sociais, no Brasil, nos últimos anos.

Desarmamento nuclear como verdadeiro compromisso de paz.

O jogo do poder contra poder finca profundas raízes na história do homo sapiens também hoje, não tem sido diferente. A insônia do poder sobre os demais tem marcado presença, na atualidade, sob vários aspectos preço de produção, na estrutura, organização e exercício do poder, bem como na esfera dos valores, o poder tem sido um atrativo constante, em nossa atualidade. Com efeito, a conquista, a manutenção e a ampliação do poder econômico político político, cultural, religioso segue avassaladora, em nossos dias. Múltiplas estratégias são concebidas e implementadas pelas forças de dominação. Uma delas tem se mostrado eficaz: trata-se de submeter os outros por meio da imposição do medo. O medo constitui, portanto, também hoje, uma arma poderosa de submetimento de grandes potências sobre outras nações.

Eis por que, não de hoje, sob a falácia da máxima latina “Si vis pacem, para bellum” (Se queres a paz, prepara a guerra). As grandes potências não cessam de investir parte substancial de seus respectivos orçamentos na produção de armamentos bélicos, inclusive de armas atômicas ou de grande poder de destruição em massa. Este foi o cerne da denúncia profética apresentada pelo Papa Francisco, em sua Mensagem pronunciada em sua visita a Nagasaki e Hiroshima. E o fez, também, com base na luminosa Encíclica “Pacem e terris”, de autoria do Papa João XXIII. Dela nos permitimos, por relevante, citar um longo trecho, a este respeito:

“É-nos igualmente doloroso constatar como em estados economicamente mais desenvolvidos se fabricaram e ainda se fabricam gigantescos armamentos. Gastam-se nisso somas enormes de recursos materiais e energias espirituais. Impõem-se sacrifícios nada leves aos cidadãos dos respectivos países, enquanto outras nações carecem da ajuda indispensável ao próprio desenvolvimento econômico e social.

Costuma-se justificar essa corrida ao armamento aduzindo o motivo de que, nas circunstâncias atuais, não se assegura a paz senão com o equilíbrio de forças: se uma comunidade política se arma, faz com que também outras comunidades políticas porfiem em aumentar o próprio armamento. E, se uma comunidade política produz armas atômicas dá motivo a que outras nações se empenhem em preparar semelhantes armas, com igual poder destrutivo.

O resultado é que os povos vivem em terror permanente, como sob a ameaça de uma tempestade que pode rebentar a cada momento em avassaladora destruição. Já que as armas existem e, se parece difícil que haja pessoas capazes de assumir a responsabilidade das mortes e incomensuráveis destruições que a guerra provocaria, não é impossível que um fato imprevisível e incontrolável possa inesperadamente atear esse incêndio. Além disso, ainda que o imenso poder dos armamentos militares afaste hoje os homens da guerra, entretanto, a não cessarem as experiências levadas a cabo com uns militares, podem elas pôr em grave perigo boa parte da vida sobre a terra.

Eis por que a justiça, a reta razão e o sentido da dignidade humana terminantemente exigem que se pare com essa corrida ao poderio militar, que o material de guerra, instalado em várias nações, se vá reduzindo duma parte e doutra, simultaneamente, que sejam banidas as armas atômicas.” (nn. 109 a 112).

Cumpre, finalmente, observar a postura didática e convincente dos pronunciamentos feitos pelo Papa, em sua trigésima segunda viagem apostólica, como, aliás, é praxe em sua fecunda trajetória de Bispo de Roma.

João Pessoa, 02/12/2019.