Francisco em diálogo intercultural, em defesa da Amazônia, da vida e dos povos originários, por ocasião da sua visita ao Peru

Uma feliz coincidência, para a Igreja na Base: no mesmo mês em que as CEBs celebram, em Londrina – PR, de 23 a 27 deste mês, seu XIV INTERECLESIAL, com o lema: ”Eu vi a opressão do meu povo, no Egito, e desci para libertá-lo” (cf. Ex 3, 7-8), extraído do Livro do Êxodo, eis que neste mesmo mês, o Bispo de Roma retorna à América Latina, para mais uma de suas fecundas viagens missionárias, no caso, ao Chile e ao Peru, onde encerrou no Chile, sua visita apostólica, no dia 18 próximo passado. Veio como peregrino da esperança e da paz, como pastor e profeta, disposto a encorajar esses povos a enfrentarem  realidades traumáticas, gigantescos desafios.

Em meio a velhos e novos desafios históricos, chega Francisco, Bispo de Roma, ao Peru, para dar prosseguimento à sua visita apostólica ao Peru, vindo do Chile, onde, a par de momentos felizes, também teve que experimentar vozes de protesto contra a posição de parte da hierarquia chilena, envolvida em deploráveis escândalos de pedofilia. Situação, diante da qual a posição do Papa foi interpretada como de inquietante dubiedade, quando dele esperava uma posição profética explícita, em solidariedade às vítimas e em crítica aberta aos malfeitos da alta hierarquia… (ver texto de Eduardo Hoornaet http://eduardohoornaert.blogspot.com.br/2018/01/viva-o-chile-iconoclasta.html) Ninguém escapa, completamente imune, a condicionamentos humanos. Numa avaliação global, porém, não se há de negar um saldo altamente positivo, quanto à sua posição pastoral e profética.

Depara-se, como no Chile, com sérios desafios enfrentados, não apenas pelos povos originários, mas também por todos os povos tradicionais de toda a Amazônia, alvo crescente da gula das transnacionais ( com o beneplácito ou a cumplicidade dos Estados da região ), a ameaçarem, sem cessar, a biodiversidade, os territórios e a vida dos povos da região, inclusive suas respectivas culturas. As transnacionais, que operam nos mais diversos ramos da economia, aí comparecem em sua sanha devastadora, concentradas, sobretudo, na exploração das riquezas do subsolo, sempre à custa de territórios devastados, de envenenamento das fontes de água, do subsolo e do solo, devastando as plantações locais, provocando gravíssimos transtornos na vida econômica, política e cultural dos mais diferentes povos da região.

Do ponto de vista econômico, atuam qual Midas dos tempos modernos, em tudo só enxergando ouro e riqueza, a serem explorados à exaustão.

A este respeito vale a pena ouvir/ escutar atentamente os vários depoimentos pronunciados, diante do Papa Francisco, por diversos representantes dos povos originários daquela região, cf.o” link” abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=UF2QWypC8n4

Como podemos perceber pelos relatos, são profundos e graves os estragos acarretados por grandes empresas de mineração e pela sanha do hidro-agronegócio, bem como as terríveis consequências econômicas, políticas e culturais provocadas pela imposição capitalista/neocolonialista de políticas econômicas necrófilas, ameaçadoras da vida do Planeta, das Gentes da região e de toda a comunidade dos viventes.

Do ponto de vista político, os povos originários se sentem destituídos de protagonismo organizativo, por lhes serem tolhidos os direitos de decidir sobre o que produzir, para que(m) e como produzir, já que os invasores agem estritamente de acordo com a lógica do Mercado capitalista, com a cumplicidade do Estado. As mesmas gentes originárias se vêem roubadas em seus projetos, do que decorrem vários males sociais, inclusive a migração forçada de grande parte de suas populações, fato a implicar grave ameaça à sua identidade.

Isto se dá, mais diretamente, no plano dos valores, em que suas culturas são ignoradas, desprezadas, descartadas, tornando-as gentes proibidas de ser…

Consola-nos, em meio a relatos tão dramáticos, a resposta oferecida pelo Papa Francisco: de denúncia profética, de defesa dos direitos dos ofendidos da Terra. Em sua fala, de cerca de 25 minutos, Francisco sabe bem ressoar os clamores daquelas gentes e daquela terra. Mais do que com meras palavras, empenha-se diretamente na solidariedade efetiva com a causa daquelas gentes. Refere-se a toda a Amazônia, tomando a atípica decisão de ali realizar a primeira reunião preparatória do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, a realizar-se em 2019. Importa salientar, com todas as letras, a atipicidade da medida, tomada por um papa. Que papa tomaria a iniciativa de convocar um Sínodo sobre a Amazônia? Definitivamente, não é à-toa quando se diz que o Papa Francisco é um sinal de contradição, em nosso tempo.

No segundo dia de sua visita apostólica ao Peru, o Papa Francisco fez questão de visitar Trujillo, uma área profundamente afetada pelo fenômeno climático conhecido como “El Niño”, com vastas parcelas de sua população atingidas pelo fenômeno, população de pescadores, fato de que se valeu, ao comentar o chamado de Jesus a alguns de seus apóstolos, que também eram pescadores. Trata de expressar-lhes sua profunda solidariedade, chamando a atenção para a importância do compromisso comunitário como fator decisivo no enfrentamento também de situações dramáticas.

A passagem do Evangelho comentada referia-se ao episódio das 10 moças convidadas a uma festa de núpcias. Cinco delas tiveram a preocupação de preparar-se bem para festa, enquanto as outras 5 negligenciaram seu dever, na hora de se porem a caminho da festa as moças descuidadas perceberam não haverem óleo suficiente para suas lâmpadas, e foram socorrer-se das que se haviam preparado. Estas lhes respondem que não poderiam dividir seu óleo, sobre pena de ser insuficiente para caminharem, na longa noite. Servindo-se desta passagem, o Papa Francisco se refere à necessidade da vigilância e do cuidado, como condição necessária para o enfrentamento dos desafios da vida, inclusive daquelas populações.

Francisco encerra sua visita apostólica às gentes peruanas, com a celebração de uma Missa, em Lima, cuja homilia, inspirada no tema das leituras do dia (a da profecia de Jonas e a do Evangelho de Marcos), convida a uma ação cidadã de solidariedade, de protagonismo, de enfrentamento corajoso dos desafios. Diferentemente da primeira atitude de Jonas, frente ao chamado de Deus (de fuga, de omissão), somos chamados a responder, com solicitude, à nossa vocação, inclusive ante desafios assombrosos, como os lançados ao profeta Jonas pela cidade de Nínive. Somos chamado a inspirar-nos na atitude de Jesus que, ao caminhar pelas estradas da galileia, acompanhado por seus discípulos e discípulas, a todos chama a fazer parte do Seu Reino, que ele anuncia e inaugura, sempre incentivando a enfrentar com coragem e esperança, os desafios de ontem e de hoje.

Importa conferir a homilia completa, acessando-se o seguinte link:

https://www.youtube.com/watch?v=IxTnIQ-gVK0

João Pessoa, 23 de Janeiro de 2018.

 

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