Fortes marcas do legado de Paulo Freire

Há pessoas, como Paulo Freire, cujo legado nos marca continuamente, independentemente de datas referenciais. No caso dele, destaco traços do seu com-viver, do seu legado, de seus escritos, de suas palavras.

Um primeiro aspecto que dele me impacta profundamente, é o de entendê-lo como homem do seu tempo, alguém profundamente comprometido com o destino libertário dos seres humanos e do planeta, tal comprometimento, por outro lado, se dava em cima de critérios por ele profundamente observados. Pensava e tratava seus contemporâneos como seres inacabados, inconclusos, limitados, e, ao mesmo tempo, historicamente chamados a superar seu inacabamento, de forma processual e continuada. Estas duas dimensões que se revelam axiais, em seu legado, desde que sejam tomadas conjuntamente, e não uma sem a outra.

Para Freire, mais do que entender como seres inacabados é fundamental que disto tenhamos consciência e atitudes consequentes. Mais: o firme e incessante empenho de aprimorar tal consciência ante os novos desafios. Não se trata de mero jogo de palavras. Tal critério implica consequências teórico-práticas, dentre as quais o exercício contínuo da autocrítica (pessoal e coletiva). Não se concebe darmos largos passos na direção da crítica aos maus feitos alheios, sem que, primeiro, examinemos nossas próprias práticas. Examinemos, com humildade e compromisso, e as superemos, de forma contínua processual, sem o que nossas críticas aos outros, por mais razoáveis e fundadas perdem força, e resultam estéreis pela ausência do próprio testemunho e da própria conduta.

Neste contexto, ser homem ou mulher do seu tempo, longe de significar atitudes adesistas ou um comportamento gregário – de entrar na onda da moda – significa discernir, pelos sinais dos tempos, quais os grandes desafios a serem enfrentados e pistas em vista de um enfrentamento exitoso, sempre tomando em relação a realidade histórica concreta local, regional, nacional e internacional, em suas interconexões (macro-micro, global-local, relações de gênero, relações étnicas, geracionais com o planeta…).

Isto, todavia, não se dá a golpe de voluntarismo, mas como fruto de incessantes buscas de compreensão adequada da realidade concreta seus meandros e desafios, recorrendo-se a meios compatíveis com este intento. Dentre estes meios figura a resoluta atitude de investigar os mais distintos ângulos  e olhares sobre a realidade, por entendê-la como algo complexo e em constante movimento ao qual somente por aproximação se tem acesso, e para o que é fundamental ao observador por si, também ele, em constante movimento de observação. Isto implica, por exemplo, não se conformar apenas com as fontes habitualmente visitadas, mas ousar ler, interpretar criticamente e levar a sério uma diversidade de fontes de análises da realidade, sempre a partir de um olhar de Classe, isto é, das Classes Populares. (O que vai além do olhar do senso-comum).

Em Freire, isto se apresenta como expressão e resultado do diálogo. Na concepção Freireana de Diálogo os protagonistas aí envolvidos não se limitam ao ouvir o interlocutor ou a expressarem sua palavra, mas em fazê-lo tão apaixonadamente, levando a sério o que ouvem e o que dizem, de modo a correrem o risco de aprenderem uns com os outros, reconhecendo na posição alheia uma apreciação mais verdadeira do que antes sustentavam, e vice-versa. Dialogar, dialogar, dialogar. Dialogar com os parceiros, dialogar com os diferentes, e a despeito da quase impossibilidade de dialogar com forças antagônicas, dispor-se pelo menos a conhecer suas razões.

Outro aprendizado fecundo do legado Freireano, que recolho e busco por em prática, diz respeito ao exercício da memória histórica, das conquistas da humanidade, das lutas sociais no mundo, na América Latina, no Brasil, no Nordeste… Não se trata, aí, de um exercício saudosista, mas de uma busca de reconhecer avanços, lutas, derrotas da humanidade, dos movimentos sociais, das forças de transformação de ontem, em busca de recolher lições para o enfrentamento dos desafios de hoje, sempre de olho em ajudar a construir o “inédito viável”, em que também é exemplar nosso Tecelão da utopia .

As trilhas em busca da construção deste “inédito viável’ passam necessariamente pela decisão consciente das forças protagonistas, razão porque se torna irrenunciável o constante enraizamento nas classes populares sujeito de transformação, no campo e na cidade.

A atravessar todos estes fios existenciais e comunitários, põe-se em constante movimento, como condição essencial, o exercício da mística revolucionária (pessoal e coletiva), pois se trata da grande fonte inspiradora alimentar as práticas e concepções de quem ousa  trilhar as árduas veredas do inédito viável, entendido como o esforço incessante de concretização, desde as ações moleculares de um novo modo de produção, de um novo modo de consumo e de um novo modo de gestão societal, em harmonia com a dignidade do planeta e de toda a comunidade dos viventes.

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Alder Júlio Ferreira Calado, sociólogo e educador popular.

Seções: Cidadania, Educação.