Feliz ano novo para o povo brasileiro

Os votos de feliz ano novo que, nesses dias, costumamos dar uns aos outros, dificilmente se tornarão reais, se o Brasil não conseguir superar a crise social, política, econômica, ecológica e cultural que o ameaça. Talvez uma das piores consequências dessa crise é certa desagregação ou fratura social que coloca em lados opostos pessoas que se querem bem, pais e filhos, irmãos e irmãs, tios e sobrinhos…. Só nos tempos da ditadura militar, eu tinha visto se cumprir tão ao pé da letra, as palavras de Jesus no evangelho: “irmãos se colocarão contra irmãos, pais contra filhos e filhos contra pais….”.

Por que isso ocorre? Em alguns casos, por interesses sociais e econômicos opostos. Na maioria dos casos, por uma espécie de hipnose coletiva de ódio e violência promovida pelos meios de comunicação de massa que concentram em versões parciais e às vezes até mentirosas a situação complexa em que o país se encontra.

Algumas pessoas me pediram que eu colocasse o que penso do governo e da situação do país:

1 – A respeito do país

Desde 2008, o mundo vive uma crise profunda no plano econômico, social e político. Até o ano passado, o Brasil sentia aspectos dessa crise, mas não tinha sido tão tocado. A partir de 2015, por várias razões entramos totalmente na crise. É claro que por trás disso tem uma questão estrutural de um país que não fez as reformas fundamentais que deveria ter feito desde muito tempo: reforma tributária, reforma do sistema político, etc. O Brasil é o terceiro pais no mundo em desigualdade social e embora tenha saído do mapa da fome da ONU em 2014 e nos últimos dez anos 52 milhões de pobres tenham deixado a miséria, o fato é que essa ascensão social se deu na linha do consumo e não de uma promoção humana que inclui educação e inclusão social mais profunda. Esse problema torna a população muito mais exposta à publicidade enganosa e à propaganda de meios de comunicação totalmente nas mãos de uma elite rançosa e odiosa que continua a impor seu modo de ver e seus interesses sociais a todo o povo brasileiro. Para os movimentos sociais, 2015 foi um ano de aglutinação e no qual sindicatos, movimentos sociais e organizações civis se uniram na Frente Brasil Popular, coisa que não acontecia no Brasil desde os tempos do final da ditadura com a campanha Diretas Já.

2 – Sobre o governo:

A mais aberta e promissora política do governo de Lula e Dilma tem sido a política externa que favorece a integração latino-americana e propicia uma maior independência do Império Norte-americano que sempre mandou no Brasil. Isso se deve principalmente a ministros como Celso Amorim.

Fora disso, o governo dá uma impressão de ser um conjunto sem unidade e, às vezes até, sem direção definida. O que mais lamento é uma política de desenvolvimento incompatível com a Ecologia e o cuidado com o planeta. Claro que todos nós percebemos que continua vigorando uma política social e econômica em função de pagar uma dívida externa e interna imorais e que já deveriam ter sido revistas. As políticas sociais que são de emergência são melhores do que as de antes do PT, mas não bastam e não se apoiam em medidas estruturais como Reforma Agrária, uma melhor distribuição de renda, etc. A política indigenista nunca foi tão ruim desde os tempos da ditadura militar…

O pior de tudo isso é que a oposição que aparece no Brasil é em tudo pior do que esse governo que já é péssimo. Ganham em todos os itens: são todos mais retrógrados, mais elitistas e contra o povo.

Nos meios de comunicação só sabem levantar a bandeira da corrupção. Mesmo nesse setor são professores do PT que tem sido mau aluno. Os do PT que são corruptos foram maus ladrões e conseguiram ser pegos, enquanto os mais ladroes de todos continuam tranquilos. Basta ver o que houve no metrô de São Paulo (PSDB), na privatização da Vale do Rio Doce (FHC e PSDB) e nas piratarias do Serra que foram todas abafadas. E agora, há pouco, os meios de comunicação tentam silenciar sobre isso, mas as notícias vazam sobre dinheiro suspeito entregue ao Aécio….

A corrupção é um mal endêmico no Brasil. E quem mais joga com essa bandeira é quem sabe fazê-la muito bem. A Globo, o PSDB e outros podem ser bons professores…

A Petrobrás é a empresa mais lucrativa do Brasil e é apresentada como um covil de ladrões para poder ser privatizada e o Pré-sal ir para as empresas norte-americanas (projeto do senador Serra).

3 – Sobre a presidente Dilma

Fez uma campanha de esquerda e prometeu governar com programas para o povo e bastou ser reeleita, se aliou à direita para ser aceita pela elite e pensando que assim a deixariam governar. Não deixaram. A direita não aceitou a derrota e tenta o golpe desde o primeiro dia depois da eleição na qual ela se saiu vitoriosa.

Esperamos que nesse ano que passou, nossa presidenta tenha aprendido que governo não é instrumento musical que se pega com a mão esquerda e se toca com a direita. Quem vem da esquerda e faz isso corre o risco de ser abandonada pela esquerda que a apoiou. Ao mesmo tempo, mesmo com todos os seus agrados, não consegue conquistar a direita que jamais aceita perder o poder. No caso da elite brasileira, por sua natureza, essencialmente, depredadora, sempre rejeitará qualquer pessoa que vier de uma tradição mais popular.

Ela pode ser acusada de ter mentido ao povo em sua campanha que prometia medidas sociais de esquerda. Mas, a corrupção econômica da qual tentam acusá-la, ela não fez. Se tivesse feito, com o ódio que a elite desse país (com o conluio do poder legislativo comprado e o poder judiciário reacionário) ela já tinha sido expulsa no primeiro dia de governo. Pedalada fiscal é contravenção, mas é do sistema e não do governante. Não é matéria de impeachement.

Mesmo quem não gosta da Dilma, pelo atual sistema brasileiro, tem de ficar com ela até o fim do seu mandato, a não ser que pratiquem um golpe de estado contra a democracia.
A direita quer isso. Não fará porque apesar de ter muito poder, não é dona do país. Mesmo sem ter muitas perspectivas pela frente, os movimentos sociais e as pessoas mais conscientes sabem que solução nenhuma virá do impedimento da presidente, nem da substituição do governo por algum ato induzido de renúncia. Mesmo se a presidente continuar incapaz de dialogar, as alternativas legais não parecem melhores. Só gente muito inconsequente achará que Temer ou Cunha podem ser melhores do que Dilma.

A direita ainda não descobriu que se aceitasse fazer a Reforma Política que a esquerda, há anos, propõe, agora essa Reforma ajudaria a direita a derrubar Dilma. Faria parte da reforma o tal referendo que no meio do mandato pode derrubar um presidente (isso existe na Venezuela, na Bolívia e em outros países onde a democracia é mais participativa). Em um referendo agora a Dilma provavelmente perderia, mas a direita nunca quis fazer a reforma política. Agora é vítima de sua própria truculência.

A esquerda democrática (Movimentos sociais como dos lavradores sem terra, os movimentos indígenas, a OAB, o Conselho de Igrejas Cristãs, as organizações da sociedade civil inseridas no meio do povo, todos esses se pronunciaram contra o impeachement, não porque gostem da presidente, mas porque são fieis à regra democrática e não se deixam contaminar por uma onda histérica de ódio e violência.

Em todos os assuntos, procuro me colocar em sintonia com o que os mais oprimidos do Brasil pensam e querem. Escuto os movimentos sociais e me coloco sempre do lado deles. É minha opção de vida. Por isso, recebi de três Câmaras diferentes – lugares onde morei – mesmo aprovadas pelos políticos de oposição = três medalhas em direitos humanos e recebi ainda uma do Tribunal Superior do Trabalho – 2013).

4 – Perspectivas para esse ano novo

Se quisermos mudanças reais para melhor, teremos de fazer um trabalho imenso nesse ano novo. Uma luta maior do que o combate bíblico do pequeno Davi contra o gigante Golias. No nosso caso, se trata de vencer os grandes meios de comunicação, dominados pela elite. O Congresso Nacional é formado por uma maioria de parlamentares que tiveram suas campanhas financiadas por grandes empresas. Eles só participarão em um projeto de Brasil justo e verdadeiramente democrático se forem pressionados pelos movimentos sociais e pelas manifestações de massa.
É urgente retomarmos a luta por uma verdadeira reforma política. Ela deveria ser feita por uma Constituinte exclusiva e soberana, eleita para isso pelo povo. No entanto, na atual conjuntura, isso é impossível. Quando era possível, os governantes do momento, seja Lula, seja Dilma, não deram o apoio necessário a essa causa. Agora, só um milagre. Esse milagre é possível e depende de nós. Temos de recomeçar o trabalho de formiguinha e ajudar a sociedade a se dar conta de que o clamor do povo organizado será capaz de exigir as transformações das quais o Brasil precisa.
Para esse 1o de janeiro de 2016, o papa Francisco escolheu como tema para o 49o Dia Mundial da Paz o lema: “Vence a indiferença e conquista a paz”. Se aplicarmos isso à realidade brasileira, compreenderemos que temos de vencer a inércia e o acomodamento de quem pensa que não pode mudar a situação e confiar novamente na força do povo organizado que não tem poder de lei, mas pode fazer pressão e criar as condições para a mudança que a tradição bíblica chama de paz, justiça e verdade.
O nosso voto de feliz ano novo não será o do comércio que propõe prosperidade. Preferimos felicidade para todos . Ela nos vem da promessa de um mundo novo e uma terra renovada. Essa palavra nos vem de Deus. Como diz a Bíblia, é como uma espada de dois gumes que penetra até as entranhas (Hb 4). “É como a chuva que cai, molha a terra. E não volta ao céu sem ter cumprido sua missão de fecundar e produzir o grão” (Is 55). Desejar feliz ano novo não garante força para transformar organizações e sistemas do mundo. No entanto, podemos colaborar para que ocorram as condições necessárias para as mudanças. Então, expresse para os seus e para todos o desejo de um feliz ano novo que seja não apenas para os seus familiares e amigos e sim para toda a humanidade. No Brasil, desejar feliz ano novo pede de nós um verdadeiro compromisso social, solidário e renovador. Então se tornarão verdadeiras em sua vida, as palavras de uma antiga bênção celta: “O vento sopre suave em teus ombros. Que o sol brilhe suavemente sobre o teu rosto, as chuvas caiam serenas onde vives. E até que eu te encontre de novo, Deus te guarde na palma de sua mão”.

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