A falta que faz uma letra

Boa parte da esquerda brasileira – incluindo seus meios ideologizados amplamente presentes na Internet brasileira – está difundindo uma notícia de que Aécio Neves seria, segundo a própria revista-empresa do PSDB (a VEJA), o “pior” senador do Brasil. Trata-se do chamado “Ranking do Progresso”, que a publicação da Editora Abril realizou seguindo critérios próprios.

A atitude é lamentável e mostra o quanto falta agenda ao PT atualmente. Não, claro, que o PT seja de esquerda. Seria cômico achar isso. Mas há três motivos básicos que demonstram, por este exemplo, o quanto até mesmo os defensores do projeto federal de poder perderam, em parte, a perspectiva histórica, pelo menos no que diz respeito a uma suposta “ruptura” prometida pelos ideólogos do maior partido de esquerda dos anos 80 e 90.

Em primeiro lugar: o ministério anunciado por Dilma Rousseff é um dos mais conservadores das últimas décadas. Pouco (ou quase nada) resta, inclusive, do projeto inicial do PT, que mesmo em 2003, quando chegou ao poder, possuía quadros de qualidade para a política nacional.

Segundo porque as matérias de portais e blogs ditos “progressistas” sobre o tal ranking da revista VEJA procuraram omitir o fato de que a metodologia para se produzir um “ranking” de parlamentares é evidentemente político. Elege-se o que seria “bom” e o que seria “ruim” e, a partir disso, calcula-se com base em supostos números “frios” quem fez um bom mandato no Congresso.

Os critérios são risíveis: o parlamentar deve contribuir para um país mais “moderno” e “competitivo”, duas palavras tão ocas que nem mesmo os mais ortodoxos entre os economistas e sociólogos neoliberais levariam a informação a sério. Mais justo seria declarar: somos privatistas, vivemos pelo lucro e eis uma tabela dos parlamentares mais legais. Quando os meios de esquerda (ou seria melhor dizer governistas?) referenciam este tipo de pesquisa, mesmo que seja para denegrir a imagem de um adversário político, implicitamente declaram concordar que os primeiros colocados do tal ranking são, de fato, bons parlamentares.

Em terceiro lugar, e talvez não menos importante: a revista VEJA coloca em último lugar do “ranking” nada mais nada menos do que um presidenciável deste ano, do seu partido-acionista, e parte dos meios de “esquerda” ainda considera isso como uma “admissão” pública e não o que realmente é: um abandono político de uma figura que deixou a desejar e será descartada para 2018.

O governismo que tomou conta do PT – que sem dúvida tem lugar cativo no rol dos movimentos sociais que mudaram o país para melhor, nos anos 1980 e 1990 – está acabando pouco a pouco com a esperança, já finda para muitos, de que o “T” ainda possa significar qualquer coisa próxima da sua origem. O “T”, para os que chegaram agora, costumava se referir a “Trabalhadores”. Isso antigamente, claro.

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