Falem mal, mas falem de mim

A crescente evidência do tema “homossexualidade” na agenda de discussões brasileira – seja pela natural evolução e consolidação de visões liberais e dos Direitos Humanos, seja pela organização de movimentos e passeatas relacionados à causa e consequente presença na mídia – vem gerando variados gêneros de resposta nos âmbitos político e social.

A mais famosa das reações foi, possivelmente, a do Deputado Federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) que, além de haver prestado declarações politicamente incorretas, como “sou preconceituoso com muito orgulho” e “ter um filho homossexual é igual à morte”, lançou, em maior deste ano, uma cartilha contra homossexuais. Fato este que desencadeou outras ações, como a instituição de projeto de Lei, em São Paulo, criando o dia do orgulho heterossexual.

Outros posicionamentos radicalmente contrários à afirmação dos homossexuais na sociedade vêm sendo notados em campanhas de pastores evangélicos, que pregam implícita ou explicitamente sua discriminação, na já tradicional perseguição urbana a esses cidadãos – muitas vezes resultante em agressões físicas – e até na rejeição por parte de magistrados (!) à união civil gay, recentemente aprovada pelo Superior Tribunal Federal (STF).

Chamam atenção, no entanto, conversas entreouvidas à rua, entre populares, que parecem oscilar entre o preconceito historicamente instituído e o respeito aos novos princípios e leis que atendem às reivindicações dos homossexuais – o que, diga-se de passagem, não deixa de ser pleito de parte da sociedade que valoriza a promoção de direitos iguais a todos os indivíduos, não obstante suas opções sexuais, religiosas, etc.

Diálogos do tipo “cuidado com o que você fala, porque, hoje em dia, chamar fulano de viado dá cana” ou “agora é moda homens e mulheres andarem de mãos dadas e se beijarem em público” são frequentes. Tais conversas denotam desde um tom de ironia, devido ao desprezo e recusa ao reconhecimento dos homossexuais, à aceitação forçada ou ainda em fase de digestão quanto à gradativa abertura à homossexualidade.

Isso, contudo, não é de todo negativo. Afinal, é natural que, após centenas de anos de opressão aos homossexuais, com participação ativa da Igreja Católica e outras religiões, as pessoas tenham dificuldade em aceitar o novo panorama. Soma-se a isso o fato de, em termos biológicos, a homossexualidade não se enquadrar perfeitamente, pois, em último caso, a evolução da espécie humana depende do cruzamento genético promovido entre fêmeas e machos – donde, ao que parece, provêm os principais (e oportunistas)  argumentos contrários a essa opção sexual “alternativa”.

A referida reação popular, motivada, sem que as pessoas se deem conta, por preconceitos dos mais primários e grosseiros e, principalmente, pela negação da diferença, é um estágio absolutamente necessário e, inclusive, sadio para a aceitação da homossexualidade no meio social. Mal comparando, é o caso de pensar naquele conhecido preceito utilizado pelos aspirantes a celebridade: “falem mal, mas falem de mim”.

Nada melhor que, num ambiente plenamente democrático, como o que se pretende alcançar no Brasil, se discutam e se critiquem questões como essa, retirando-a, cada vez mais, da masmorra e trazendo-a aos olhares de todos.

Este debate espero que redunde em maior tolerância e aceitação do direito humano à diferença.

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