“Fake news,” a face informativa da barbárie: a Educação Popular como antídoto

A reflexão ora proposta dá-se em cima de questões tais como: o que representam mesmo as “Fake News”, para além de sua literalidade? O que está por trás desta estratégia deletéria intimamente associada ao paradigma da “Pós-verdade”? Por que preferem as redes sociais como seu alvo-mor? Ao lado de seus efeitos mais nocivos de fácil percepção, o que elas podem  estar também escondendo aos olhos menos avisados? De que modo entidades e forças vivas da sociedade civil vêm lidando com este fenômeno? Qual a eficácia desta estratégia de resistência de caráter fundamentalmente discursivo se e quando usada de maneira desconectada de outras dimensões do processo formativo? De que modo a Educação Popular de feição freireana, pode contribuir para uma melhor potencialização do combate às “Fake News” e ao paradigma da Pós-verdade? 

No já alongado período de mudança de época, em que vivemos sobram dilemas de monta. Um deles se apresenta sob a regência do paradigma da “Pós-verdade”. Neste horizonte os fatos já não servem como referência probatória do real. Cedem lugar ao poder ditatorial aos critérios da ética de conveniência. Verdade é apenas o que corresponde aos interesses e conveniências circunstanciais dos grupos dominantes e seus representantes. Como nunca antes, os setores hegemônicos do mundo atual se acham no direito de submeter, a seu serviço, os interesses da enorme maioria da população mundial em todas as esferas da realidade.

Nas linhas que seguem, tratamos de ressaltar o modo tirânico com que se empenham de ditar verdades, aos quatro cantos do mundo. Mais precisamente cingimo-nos às “Fake News”, de que se tem valido, cada vez mais os setores dominantes de nossa sociedade como expressão maior de sua estratégia de dominação, valendo-se especialmente das redes sociais como arma preferencial de sua guerra híbrida. Em seguida, vamos examinar de passagem, de que modo setores expressivos da sociedade civil vêm lidando com o combate às “Fake News”. Por último, trazemos algumas considerações acerca da contribuição que a Educação Popular pode oferecer a um combate mais eficaz à “Fake News”, bem como ao uso adequado das redes sociais sem abandonar nem secundarizar a prioridade do processo formativo nos espaços vitais abandonados ou subestimados pelas nossas organizações de base.

“Fake News” como a expressão mais deletéria do paradigma da pós-verdade em tempos de guerra híbrida. 

É sabido que toda época, Inclusive a nossa, é sempre, de algum modo, época de mudança. Mudança de época, todavia, quer dizer outra coisa. Acontece raramente, na história. Comporta Profundas alterações, especialmente de paradigmas consolidados. Em períodos que tais, paradigmas consolidados não apenas entram em colapso, como também resultam superados ou substituídos por outros. Estes novos paradigmas nem sempre resultam melhores do que os precedentes, mas são assumidos como hegemônicos .Vivemos uma época assim.Em nosso caso, um paradigma que vem mostrando-se hegemônico, é conhecido como o paradigma da pós-verdade neste caso, fatos cientificamente comprovado, deixam de ser entendidos como referência científica. verdade acaba tendo pouco a ver com fatos históricos, a medida que critérios subjetivos passam a ter prevalência. Verdade, neste caso, passa a ser definida como aquilo que tenha a ver com critérios subjetivos ou até obscurantistas, subordinados a interesses grupais ou de classe. verdade passa a ser aquilo que determinado grupo econômica e politicamente dominante definir, de acordo com seus interesses exclusivos. No atual cenário Mundial, prevalece amplamente o poder desses grupos, servindo a interesses econômicos e políticos nocivos à enorme maioria da sociedade.  Com efeito, fatos, acontecimentos, situações tidos como amplamente reconhecidos, passam a ser sistematicamente negados, à revelia de critérios científicos. A ciência mesma entra em colapso, conforme os critérios de verdade definidos por esses grupos hegemônicos. para tanto, estas forças hegemônicas não hesitam em recorrer a estratégias alimentadas por sua ética de conveniência, segundo a qual vale tudo, inclusive o recurso a sistemáticas mentiras. É, por exemplo, o que tem acontecido, principalmente em alguns países, tais como Estados Unidos, Inglaterra, Brasil e outros, em que figuras especiais ligadas ao atual governo dos Estados Unidos, vem sendo uma referência de peso na formulação e na implementação de políticas de desmonte aplicadas nesses países, inclusive acabando por determinar resultados eleitorais como sucedeu, por exemplo, nos Estados Unidos e no Brasil, por ocasião das respectivas eleições presidenciais. Notícias falsas formuladas por tais figuras e lançadas, por meio de algoritmos e outros mecanismos do gênero, massivamente enviadas a cidadãos e cidadãs, cujo perfil foi tomado como referência para o envio de Tais mensagens disparadas por meio eletrônico.

No caso do Brasil, essas fake News tiveram um papel, senão determinante, no mínimo, altamente condicionante, no resultado das eleições. também, mesmo após o período eleitoral, a mesma estratégia vem sendo frequentemente utilizada, tendo como destinatário preferencial o público eleitor do atual presidente.

Por outro lado, o alvo destas fake News não se restringe ao eleitorado potencial, mas ao conjunto da população, especialmente a população jovem, cada vez mais usuária das redes sociais, e, com frequência, desprovida de espaços formativos adequados que a ajudem a melhor formar sua consciência crítica de cidadãos e cidadãs.

Paradigma da pós-verdade, fake News, redes sociais acriticamente exercitados – eis apenas três das componentes deste sistema de morte, marca principal do capitalismo em sua fase mais perversa, hegemonizada pelo seu subsistema financista, em articulação com seus demais setores da economia. Diante deste quadro de obscurantismo e de constantes ataques ao planeta e a toda a comunidade dos viventes, resta às forças vivas de nossa sociedade examinarem criticamente De que modo vem reagindo a Tais ataques. é o de que trataremos, no tópico seguinte.

Como se vem dando a atuação das forças sociais no combate às “Fake News”? 

Grupos, entidades e agentes qualificados de nossa sociedade tem manifestado crescente preocupação com a gigantesca onda de fake News, disparadas massivamente, a influir negativamente sobre parcelas consideráveis de nossa população, principalmente aqueles segmentos mais vulneráveis. Encontros congressos e outras iniciativas vêm buscando formas de resistirem a essa onda há, com efeito, significativa consciência dos estragos que essa estratégia de fake News, reflexo do paradigma da pós verdade merece atenção. reconhecendo a relevância persuasiva dessas fake News, Tais entidades e grupos buscam responder a este desafio, por meio de iniciativas e experiências pela Via das redes sociais. partindo da constatação de quê os segmentos mais fragilizados de nossa sociedade são por demais suscetíveis aos efeitos das fake News a ideia predominante tem sido alcançar estes mesmos segmentos vulneráveis também por meio das redes sociais, mediante mensagens e até vídeos produzidos com o propósito de se contrapor a invasão de fake News nessas camadas populares.

Trata-se de uma iniciativa respeitável e necessária, a medida que vai sendo complementada com outras iniciativas capazes de tomar em conta outras dimensões do processo formativo, para além da Estratégia apenas discursiva. teme-se que há uma tendência a cingir-se a forma de resistência a mensagens e vídeos destinados ao público alvo das fake News. por outro lado, Vale perguntarmos: Será que a utilização exclusivamente de caráter discursivo está à altura de responder adequadamente ao desafio das fake News? até que ponto , ao lado de iniciativas de caráter estritamente discursivo, resultam suficientes para um convencimento mais sólido por parte do público-alvo? em que medida iniciativas desta ordem, uma vez não acompanhadas de outras que digam respeito também a dimensões tais como afetividade, volição, a práxis e dimensões outras componentes do processo formativo, são capazes de atender aos objetivos dessas entidades e grupos de resistência a estratégia das fake News?

Perguntas deste tipo merecem especial reflexão, principalmente do ponto de vista da educação popular, aqui considerada como uma estratégia eficaz contra os efeitos deletérios das fake News. Eis por quê no tópico seguinte, Voltaremos nossa atenção, em busca de examinar como a educação popular pode oferecer significativa contribuição a resistência mais eficaz contra as estratégias do paradigma da pós verdade, expressas pelas fake News.

A contribuição da Educação Popular à eficácia do combate às “Fake News”, para além das redes sociais. 

À parte seu designativo literal às “Fake News” constitui mesmo um fenômeno novo? Em outras palavras, até que ponto as “Fake News” não constituem uma marca registrada do Capitalismo, em sua atual fase, estratégia utilizada com propósito deletério por um lado, mas também, por outro lado, com objetivo de lançar luz sobre a ponta do “iceberg”, para ocultar a parte essencial do que não se quer mostrar?

Em busca de trazer a lume o potencial da Educação Popular, de referencial freireano, a um combate eficaz às “Fake News” e suas conexões com o paradigma da “Pós-verdade”, fazemos questão de partir de seus princípios mais relevantes, ou seja, de constatações e fecundas intuições recolhidas do processo histórico, em diferentes tempos e lugares, tais como:

– o do inacabamento ou incompleteza do ser humano: diferentemente dos demais animais, os humanos não nascem “acabados”, nas vão se completando processualmente, em seus contextos histórico-culturais, isto é, não nascem homens ou mulheres, mas vão se tornando assim no processo de humanização.

Outro fundamento teórico-prático trabalhado pela Educação Popular, diz respeito ao nó de relações (relacionalidade) característico dos seres humanos como expressão e como agentes de seu devir histórico, isto é, para se completarem como seres humanos protagonistas do processo humanização, mulheres e homens têm necessidade de viverem em grupo, em comunidade ambiente no qual aprendem e compartilham experiências e saberes. Os humanos, somos seres sociais, seres políticos, forjados em condições não de isolamento ou individualismo.

Neste processo relacional, é que vamos aprimorando nossas potencialidades, ao mesmo tempo em que aprendemos a lidar positivamente com nossos limites, em busca incessante de superação dos mesmos. É no seio da comunidade que também vamos aprendendo a ler melhor a realidade social em sua complexidade e extensão. Aqui se passa algo como em um filme: alguém que o vê sozinho, sem partilhar comentários de cenas, acabam dando-se conta de aspectos parciais do filme, enquanto em comunidade as percepções são compartilhadas de modo que cenas não percebidas por uns acabam sendo rememoradas pelas percepção de outros.

Um exemplo ilustrativo, pode dar-se no exercício de análise de conjuntura, quando feita coletivamente, resultando bem mais fecunda e menos incompleta do que quando feita por um ou um pequeno grupo restrito. Tem-se consciência da complexidade da realidade social, que não pode e não deve ser avaliada de improviso, sem se recorrer a instrumentos capazes de melhor percebê-la, em seu movimento, como um primeiro passo necessário e fundamental a quem pretenda transformá-la, em suas raízes.

Outro fundamento trabalhado pela educação popular, corresponde ao exercício contínuo de priorização da prática sobre a teoria, da interconexão dos fatos e dos acontecimentos, de sua historicidade, de sua interculturalidade, a relevância do exercício da memória histórica, a importância do horizonte perseguido e da mística cotidiana, a horizontalidade dos protagonistas da transformação social, a aposta na força transformadora das pequenas comunidades, dos núcleos, dos círculos de cultura, a alternância de cargos e funções, entre outros aspectos constantes deste mesmo processo formativo.

É com base nestes fundamentos oferecidos pela Educação Popular, que se dotam melhor os protagonistas da transformação social, inclusive no caso do desafio relativo às “Fake News”. Daí resultam pistas alternativas que devem ser tomadas em conta e incorporadas a outras práticas e iniciativas, já em desenvolvimento, tais como:

 

  • Entender mais criticamente o que são as tais “Fake News”;

  • Se se trata de fenômeno verdadeiramente novo, ou, antes, de nova faceta da mesma estratégia, posto que, falseamento da realidade é uma velha estratégia de todo modo de produção estruturado em classes sociais, especialmente do capitalismo;

  • Pode acontecer que, por meio desta velha estratégia revestida de novo nome (“Fake News”) os setores dominantes estejam a espalhar cortina de fumaça, buscando desviar a atenção das forças transformadoras, quanto as manifestações mais profundas de exploração e dominação. Não se deve ignorar, por exemplo, que, num contexto dominado pelo discurso anti-corrupção, as redes sociais e a mídia comercial se limitam a focar mais os efeitos, as aparências e até alguns casos relevantes, com o propósito maior de desviarem a atenção da raiz mesma da corrupção, fincada no próprio modo de produção capitalista, especialmente em sua fase atual, dominada pelo rentismo, pelos grandes bancos e seus paraísos fiscais. Outro exemplo se tem nas discussões atuais sobre as famigeradas “reformas” em curso (o desmonte das leis trabalhistas, a terceirização, o desmonte da previdência social…), enquanto pouco ou nada se diz – menos ainda se luta – sobre o maior dos escândalos: a composição da dívida pública, poeticamente denunciada no mote: “paguei mais do que devia/ devo mais do que paguei”…

Com relação, portanto, ao que a educação popular pode contribuir especificamente para uma estratégia de resistência às fakes news, convém assinalar, de um lado, o reconhecimento do esforço das entidades e grupos que cuidam de recorrer às redes sociais, como espaço de contraponto e de esclarecimento, junto às parcelas mais vulneráveis da população que correm o risco de se tornarem reféns das mentiras propaladas. Por outro lado, há de se convir que tal esforço se dá exclusivamente no campo das redes sociais e por meio de um contraponto discursivo. A educação popular, por sua vez, demanda um esforço maior, a medida que, sem deixar de usar as redes sociais, empenha-se principalmente na criação e manutenção de espaços vitais, nas comunidades, nos movimentos populares, nas pastorais sociais, onde tenha prioridade a discussão presencial, como parte de seu processo organizativo e formativo, até porque não é suficiente empreender um contradiscurso pelas redes sociais, sem o exercício de um protagonismo efetivo nas relações sociais do dia-a-dia.

  • A leitura de alguns textos, a escuta de algumas observações e frases, têm a virtude de mobilizar vários sentimentos e percepções.

    A sensação de consolo e alívio diante de um panorama que tende a ser mostrado como sem saída, numa perspectiva catastrofista, desde as esferas do poder e desde a mídia venal.

    A certeza de que há leituras da realidade em profundidade, com fundamentação histórica e científica e (o que me parece crucial nos dias de hoje é sempre) com impecabilidade ética.

    Refiro-me aqui e agora ao texto de Alder Calado aqui publicado. Mas a minha observação recolhe também algumas outras leituras da realidade que tenho tido a oportunidade de conhecer (Ramón P. Muñoz Soler, Graciela Maturo, Fritjof Capra, Karel Kosik)

    Em circunstâncias de crise (e em algum sentido toda circunstância é crítica) a pressão para encontrar uma saída pode levar a esquecer caminhos imprescindíveis. O recurso à história. A visão integradora. A necessária interseção de pontos de vista e perspectivas superadoras de megalomanias salvacionistas. A projeção de horizontes positivos que dependem, no entanto, de árdua e laboriosa ação pessoal e coletiva.

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