“Evangelii Gaudium”: papa Francisco expõe programa que descontinua o magistério precedente

francesco

Vittorio Bellavite (integrante de Noi Siamo Chiesa – Itália)

A “Evangelii Gaudium” do papa Francisco é uma exortação apostólica que deveria recolher as indicações do sínodo dos bispos de outubro de 2012 sobre a nova evangelização. Na prática, foi a ocasião para o bispo de Roma apresentar-se de modo bastante orgânico, mas demasiado prolixo (288 parágrafo!) as indicações programáticas principais do seu pontificado. Daí sua grande importância, maior do que a primeira encíclica que fora escrita pelo papa Ratzinger. Vai ser preciso lê-la com o tempo necessário. De todos os modos, textos desse gênero deveriam ser mais acessíveis ao comum dos crentes; este o é menos, ainda que escrito em estilo simples. Trata-se, em grande parte, de análises, exortações e propostas que já tinham sido feitas, durante esses meses, em ocasiões diversas. O texto inicia de forma inusitada, convidando à alegria do Evangelho que deve ser sempre a de todo crente, de modo a permitir uma grande criatividade na obra de evanglização. Nesse sentido, são palavras muito belas.

Depois, fala-se da reforma da Igreja. O ponto mais interessante se acha lá onde Francisco, colocando-se em discussão naquilo que lhe diz respeito (como, de fato, deveriam fazê-lo todos os crentes) reconhece a necessidade daquela reforma do papado, da qual havia falado o papa Wojtila (sem fazê-la) e que com o papa Ratzinger apareceu como uma necessidade absoluta. Trata-se substancialmente de redimensionar o papel do centro da Igreja em favor particularmente das conferências episcopais, inclusive das regionais, não só das nacionais. A tais conferências dever-se-iam atribuir competências concretas e também uma certa autoridade doutrinal, mais que um papael pastoral consoante a necessidade de um maior empenho na inculturação, reconhecendo assim implicitamente os limites de uma doutrina monolítica. Esta passagem da Exortação indica uma reviravolta que se torna bastante credível, pelo menos nas intenções, para decisões concretas que o papa Francisco está começando a tomar.

Em seguida, o texto propõe de modo explícito um elenco extenso de situações intraeclesiais a serem superadas, repetindo as idéias de fundo de Francisco sobre um novo modo de comunicar o Evangelo por parte das estruturas eclesiásticas: a misericórdia deve prevalecer sobre os anátemas; é Deus que evangeliza e o cristão é apenas um instrumento; a Eucaristia e o Batismo devem ser facilitadores da Graça, não controladores; a Igreja deve estar aberta, mesmo que “incidentada”; a mensagem principal deve prevalecer sobre aspectos secundários, os do âmbito dos preceitos; é preciso buscar conhecer os sinais dos tempos; inclusive “as comunidades de base e as pequenas comunidades” são uma riqueza e por essa via. Ao contráio, há muita preguiça, muitas vezes se diz “nós temos feito sempre assim”, o confessionário não deve ser uma tortura; há costumes demais não ligados ao Evangelho; muitas paróquias não se renovaram suficientemente e se autopreservam; há muitos profetas da desgraça; há fenômenos de desertificação espiritual, não à inveja e às guerras intestinas nos ambientes eclesiais.

No segundo capítulo, são tratados pontos não muito explícitos, ainda que não sejam novos. Indicam uma direção de caminhada muito clara: não a uma economia de exclusão, não à autonomia absoluta dos mercados e à especulação financeira, não à nova idolatria do dinheiro e à injustiça que gera violência; há violência contra os povos do Sul do mundo, as armas e a repressão violenta, em vez de levar soluções, criam novos e piores conflitos, há uma prepotência dos meios de comunicação. Enfim, Francisco retém estreitamente vinculantes o engajamento contra a injustiça para o crente e “as opções para os pobres é uma categoria teológica”.

A coisa mais interessante do terceiro capítulo sobre o “Anúncio do Evangelho” é uma espécie de pequeno tratado sobre a pregação. Uma temática bem inusitada, ainda que se dê grande importância para a área “conciliar” da Igreja que sempre se viu quase sozinha a suscitá-la. Francisco parte de uma situação que reclamar amplamente por mudança. A homilia deve ser breve e não enjoada! Não deve ser moralista ou endoutrinante, deve expressar o diálogo de Deus com o seu povo e não é meditação nem catequese. A homilia deve ser preparada com muito cuidado em cima dos textos procurando compreendê-los e deles retirar sua mensagem principal, o pregador deve conhecer a condição do povo para quem fala e por esta via. Esta é a parte mais nova da Exortação e é de particular eficácia. Interessantes são as citações: entre as muitas do Evangelho, de papas e de pais da Igreja, segundo o estilo costumeiro desses documentos, ainda há as extraídas de textos dos bispos do Congo, da Índia, das Filipinas, do Brasil.

Elenquei aqueles que me parecem os pontos principais do documento. Ainda há uma repetição bastante evidente da posição sobre o aborto e sobre a proibição dos ministérios ordenados para as mulheres. Trata-se, globalmente, de um texto em evidente descontinuidade em comparação com com magistério precedente. É destinado a consolidar o grande consenso que Francisco ora tem na base dos fiéis e, mais em geral, junto à opinião pública atenta às temáticas da espiritualidade. Nâo serão poucas as hostilidades que a direita curial e fundamentalista provavelmente vai organizar. Da parte da área “conciliar” da Igreja não faltará o consenso, ainda que sempre vigilante e independente.

Tradução: Alder Júlio Ferreira Calado

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