EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DE SEUS LINDOS LÁBIOS OU A VIDA NÃO É TÃO SIMPLES QUANTO PARECE. NOTAS

A literatura contemporânea brasileira que vem sendo produzida na última década está ainda por ser estudada e mapeada de maneira mais detida. Mas já podemos fazer algumas observações diante do que temos/lemos. Marçal Aquino é um ilustre representante dessa “geração”, que tem nomes como Daniel Galera e Patrícia Melo. Os trabalhos de Marçal Aquino tem se destacado pelo olhar jornalístico, crítico, trágico e contundente sobre o panorama brasileiro atual. Aquino e a geração de “novos escritores e escritoras” têm problematizado na ficção a situação da juventude.

Um tema importante e explorado nos dias atuais a partir de várias perspectivas. O romance tem sido uma forma interessante de tratar o tema. A característica marcante de Marçal é não tratar a juventude e seus relacionamentos amorosos de maneira romântica ou complacente e sim de uma maneira crua e impactante. No romance Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios (2005) o autor nos coloca diante de uma história que mescla vários gêneros romanescos: narrativa jornalística, trama policial, história amorosa, reportagem sobre determinada região, etc.

O livro tem claramente três partes delimitadas: a primeira, intitulada: Amor é sexualmente transmissível, onde temos a descrição poética da paixão entre Cauby e Lavínia. Há nos diálogos, nas brincadeiras, nas fotografias, certo lirismo numa região marcada pela violência extrema. Poderíamos dizer que é o momento ativo da obra e de mais encanto em termos de narrativa. No segundo, Carne-viva, temos uma digressão para sabermos a vida de Lavínia e entendermos seu ar misterioso e soturno da primeira parte. Sabemos que ela foi prostituta, violentada e marcada pela pobreza e pelo abandono e que nas ruas encontra um pastor de nome Ernani que lhe tira das ruas num processo violento de conversão e se juntam, para depois seguirem para o interior do Pará, onde ele faz um trabalho missionário com populações ribeirinhas e indígenas.

No terceiro, Postais de Sodoma à luz do primeiro fogo, temos o desfecho final e trágico do Romance. A loucura, a perda da memória e a situação de ser outro nome que não Lavínia e a violência sofrida por Cauby ao ser acusado injustamente de assassinato numa terra sem lei ou perdão. Uma obra original e implacável com o leitor. Li numa tirada só (por razões pessoais que não vem ao caso explicitar). Como se sabe, Marçal Aquino é roteirista de primeira e a partir dessa informação, imaginei como ficaria uma obra dessa natureza no cinema. Seis anos depois, a obra foi adaptada por Beto Brant e Renato Ciasca. Como toda adaptação, temos cortes e ajustes para outra linguagem. De cara, já podemos sair do falso problema: quem é melhor o livro ou o filme? Ambos. O livro é um dos melhores trabalhos ficcionais dos últimos anos e o filme é muito bom como linguagem cinematográfica adaptada. Para melhor esclarecer a quem assiste, os diretores colocaram na primeira parte do filme as situações em dois planos paralelos: um, onde temos os encontros de Cauby e Lavínia, erótico e apaixonante e sem explicação da história dos dois.

No segundo plano temos a história de Lavínia e Ernani. Sabemos que Ernani virará pastor cristão depois de uma profunda depressão ao perder a esposa. Sabemos ainda que Lavínia era prostituta e que foi tirada das ruas pelo pastor. Rouba a cena as interpretações de Camila Pitanga. Uma senhora interpretação de cenas cruas, violentas e eróticas. A cena da tentativa de tirar do corpo dela algum “ espírito” que determinava aquela vida errante é de uma beleza e de um constrangimento impar no cinema nacional. Diga-se de passagem, o cinema nacional hegemônico é muito arrumadinho e muito parecido com as novelas da Rede Globo para nos arrancar sentimentos como os que o faz o filme de Brant e Ciasca. O nosso cinema nacional hegemônico é muito pobre esteticamente muito imitador da teledramaturgia contemporânea e jamais chegará a um grau de tragicidade que um cinema como o de Beto Brant ou de Cláudio Assis (A febre do rato) consegue fazê-lo de maneira extraordinária. Mas o filme de Brant e o Romance de Aquino não são apenas cenas de sexo e paixão violenta. São ainda uma denúncia direta da situação sem lei da região amazônica, denuncia da grilagem das terras indígenas por grande madeireiras ou pelo agronegócio que devasta a região. Sentimos uma região literalmente abandonada (no filme, em nenhum momento v e mos alguma presença do Estado propriamente dito.

Salvo na aparição de um delegado que mais parece bandido). A região parece um lugar desolado, pobre e sempre a margem daquilo que acadêmicos e governo gostam de chamar de modernidade. Um outro mundo, é o que parece. Aquelas cenas paradisíacas da televisão e suas propagandas não existem no filme (como pouco deve existir na realidade). O filme ganha novos ares quando a paixão de Lavínia e Cauby vem a lume público e o filme se transforma numa trama policial. O marido de Lavínia aparece morto, Cauby é acusado e depois inocentado por o crime ter sido de encomenda. Mas nada volta ao normal. Lavínia vai para uma espécie de manicômio e perde a memória diante do trauma , Cauby perde um olho numa pedrada durante o enterro do pastor depois de sair da cadeia todo estropiado.

O filme de Brant nos leva a refletir sobre como as relações amorosas estão em sintonia com o mundo, por mais que os amantes queiram fugir do mundo. Em tudo a história sempre nos alcança, mais cedo ou mais tarde. Porém o que mais nos chama a atenção é a fragilidade com que as relações amorosas são marcadas. Às vezes parecem tão simples, mas na vida nada é simples, a começar pela própria vida. “Real e de Viés”, a vida e nossas relações amorosas dentro dela nos pregam peças, nos violentam, nos empurram para situações trágicas, alemã das tragédias que já estão a nossa disposição em “carne-via”. É notório que filme não defende nenhuma tese ao estilo dos documentários dos anos 70 ligados ao cinema novo, mas vais fundo na situação política do País, p rincipalmente na sua forma de abandono de populações pobres inteiras por parte de governos.

Isto é um trabalho ainda por se estudar. Os filmes de Beto Brant têm feito este papel de problematizar os dramas contemporâneos na sua forma trágica. Basta lembrar O invasor, Cão sem dono ou Crime delicado, para termos uma idéia de como se faz um cinema vigoroso e critico ao mesmo tempo. Sem perder a mão estética e sem cair em formalismo ou no estilo melodramático tão ao gosto da maioria dos diretores de plantão.

O autor é docente na UFS