Eu aprendi que…

puzzelLembro-me da primeira aula na UEM. Era uma manhã de segunda-feira, no curso de Economia. Estava animado e, ao mesmo tempo, ansioso e tenso. A tensão normal de toda estréia. Tinha a experiência de trabalhar Ensino Médio, mas era a primeira vez no Ensino Superior. Nutria uma imagem otimista sobre a Universidade. As minhas expectativas eram ótimas. Estava feliz!

Não obstante, o meu entusiasmo arrefeceu-se. Com o passar do tempo aprendi que a Universidade reproduz a mísera natureza humana e até potencializa algumas das suas “qualidades” mais desprezíveis; aprendi que o discurso universalista e humanitário, em favor da cidadania, dos pobres e oprimidos, mascara interesses mesquinhos e individualistas; aprendi que a cultura acadêmica, títulos, status, etc., nada dizem sobre o caráter dos indivíduos; que sob a aparência dos doutos encontram-se seres humanos frágeis e outros capazes de ações inconcebíveis; aprendi que sabedoria é diferente de conhecimento, e que o cabedal de saber acumulado não o torna necessariamente um ser humano melhor; aprendi que sob o discurso democrático, escondem-se práticas autoritárias; aprendi que a retórica política engajada é também uma maneira de ocupar espaços, ter mais capital simbólico e acesso aos recursos econômicos e políticos disponíveis. Aprendi que a “coisa pública” também existe para deleite e uso particular de alguns.

Aprendi que a docência pode limitar-se simplesmente a ser um emprego; que o poder professoral pode ser impiedoso e injusto com aqueles que deveria ensinar a justiça; aprendi que nem todos que dão aula gostam do que fazem. Aprendi que o discurso da crítica pode ser impermeável à crítica; aprendi que em nome das aparências reina a hipocrisia, que a vaidade caminha junto com a arrogância intelectual e idiossincrasias tituladas. Aprendi que projetos levados a cabo na academia podem ser simplesmente mais um meio para aumentar o saldo bancário; aprendi que os pesquisadores podem se ocupar por anos com teorias e discussões conceituais, mas serem totalmente alienados diante do mundo em que vivem e da realidade social que os rodeiam; aprendi que o compromisso e responsabilidade social nada tem a ver com titulações e temas de pesquisa; que o pesquisador pode se dedicar com afinco a estudar a vida dos operários, sem jamais pisar no chão da fábrica.

Aprendi que pode-se pesquisar sobre a exploração das mulheres, mas com a salvaguarda de ter uma empregada cujo trabalho libera o tempo necessário à reflexão intelectual; aprendi que pode-se escrever livros sobre os pobres e a pobreza, sem que isto tenha qualquer influência sobre a vida deles; aprendi que pode-se pesquisar os movimentos sociais a partir de uma perspectiva científica e objetivista, sem qualquer compromisso com as suas lutas; aprendi que as teorias pesquisadas podem servir apenas para formar grupos de interesses que retroalimentam-se através de mútuos convites para participação em bancas, seminários, colóquios, etc., eventos com títulos pomposos e debates infindáveis sobre o mesmo de sempre, compreensíveis apenas aos convertidos e iniciados, mas que cumpre plenamente os objetivos não-declarados. E tudo em nome da ciência!
Na Universidade respira-se o mesmo ar fétido que exala para além dos seus muros. Os que a frequentam são também de carne e osso, capazes de atitudes louváveis, mas também de atos abomináveis. Como o meu amigo Walterego costuma afirmar, em tom de ironia, os doutos encastelados no campus também peidam, defecam e sentem medo. Não são diferentes do mais simples dos mortais. Embora quando os vemos em sua arrogância olímpica pareça que são de outra estirpe, são simplesmente humanos!
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Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).

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