Estamos na defensiva

Estou com “o cara”. E quero que todos saibam.

PS: a pedidos, suavizarei meu recadinho: este é um post de homenagem e…

Publiée par Renato Aroeira sur vendredi 6 avril 2018

 
A questão do Lula, um palpite, na ordem:

1. Lula não é um santo. Fez acordo eleitoral com o que havia de pior na política, basta lembrar Cunha, Temer, outros ministros. Muitos dos petistas se achavam intocáveis, fizeram pacto com o diabo. Só que o diabo tem mais experiência, está há mais tempo no cargo.

2. Lula não é culpado, nesse caso. Qualquer adulto ou mesmo criança bem informada sabe que não pode ser responsabilizado por imóvel que não é dele. Era essa a acusação. Tinha dinheiro para comprar isso e muito mais, não tem renda a mais do que o declarado legalmente e nunca questionado na Receita Federal. Mas pouco importa, não é técnica a decisão, todos sabem, consciente ou inconscientemente.

3. Torna, portanto, a medida extrema uma óbvia ilegalidade, prisão política. Correram para prender pois estava claro que poderia ser eleito, inaceitável para uma parte da elite política, elite econômica. Não precisa de conspiração: são forças ideológicas que trabalham unidas sem precisar passar a mão no telefone. Parte do povo anti-Lula, anos de adestração pela mídia.

4. A mídia nunca esteve tão à vontade. Mesmo depois da fase petista, generosa em termos de recursos, benesses para a imprensa, parece agora navegar no cenário ideal, onde sua propaganda anti-PT finalmente deu resultado prático. Aparece como a ética personalizada, pode eleger qualquer pessoa, mas não mexe nos 30% do Lula.

5. A bola volta em parte para as mãos do PT, mas só em parte, este pode organizar uma denúncia da perseguição e retomar um pouco da coerência democrática que o notabilizou por duas décadas. O bom radicalismo, radical na origem da palavra, indo à raiz. Mas precisará rever práticas, alianças, voltar para a oposição de verdade, por um tempo. Sabem que Lula não transfere automaticamente todos os votos, mas ganhou apoio de muita gente antes afastada.

6. A classe média vai ser descartada, como tem sido desde 2013, dentro desse processo. Serve de manobra para tirar presidentes (uma eleita, outro quase), mas tem direitos retirados no minuto seguinte, ficam à mercê. O objetivo era a retirada de direitos, mas muitos não desconfiam, não existiu um processo educacional que informasse as regras do jogo. Tarde demais para ter, no curto prazo.

7. A esquerda que se manteve à esquerda está desestruturada, sem um nome forte, e mesmo a estruturada está sem canais de comunicação com o povo. Mantém apenas sua ética, insuficiente para o momento (já foi útil em 2003, não vingou como projeto). O combate à corrupção não é bandeira no Brasil, é pretexto. Aécio está livre, Jucá está livre, Temer está livre, mas não é pauta, claríssimas as intenções, mesmo sem a consciência popular sobre o tema.

8. Fenômeno inédito em 12, 13 anos, ou pelo menos raro: esquerda unida denunciando as ilegalidades. Positivo, sem dúvida.

9. O projeto do PT era governar para todos. Impossível, governo vive de prioridades. Taxa ou não taxa grandes fortunas? É uma decisão, não dá para ficar no meio do caminho, não escolher significou escolher o lado mais forte, como os bancos, que nunca estiveram tão bem.

10. Ainda o PT: fez acordo com as elites, distribuiu migalhas aos pobres, mesmo essas tiraram 40 milhões da pobreza, da fome, em pouco tempo foram devolvidos 20 milhões. A razão, óbvia: não mexeu na estrutura o mínimo, não tinha autorização dos aliados. O máximo que obteve foi a tão conhecida cidadania pelo consumo, ilusória, já encerrada.

11. O próximo passo da esquerda brasileira parece incerto. Parecia ser uma esperança na região, um novo modelo, e falhou. Faz-se esse debate, sendo governo, desde 2003, antes nos governos locais. Mas debate sem debatedores, expulsos pelo estalinismo que vigorava à época no partido, ou que ainda vigora, não sei. Uma estratégia sem longo prazo, qualquer um pode ver hoje.

12. O Judiciário, novos deuses. Lembram muito os barões e outros detentores de títulos nobiliárquicos. Cometem ilegalidades, não se importam: estão acima da lei, são eles a lei, sem controle externo real.

13. O poeta romano Juvenal eternizou: Quis custodiet ipsos custodes? Quem vigia os vigilantes? Estão à vontade. O STF não vai fazê-lo. Dizem que se acovardaram. Um dos ministros, o mais incisivo, declarou no julgamento do Habeas corpus: um dia histórico em que rasgaram a Constituição. Não adianta: não é um debate, e sim marcação de posições. Escolhe o que quer, justifica depois.

14. A democracia deu um passo atrás. Mas já estava caminhando, às vezes com a ajuda dos que hoje foram golpeados. Acordos aqui, lei antiterrorismo ali: de erro em erro, chegamos aqui. As pessoas alheias, sem consciência do processo, da gravidade. Outra banalidade no Brasil, as grandes viradas sem povo, ou com o povo imaginando que participa, sem conhecer o script.

15. Agora é observar, resistir, denunciar, uma continuidade para alguns, outros haviam esquecido a luta. Dá para fazer melhor na próxima oportunidade. Quando será? Não tenho a menor ideia. Mas está longe, até lá muitos retrocessos virão. Estamos certamente na defensiva, é preciso aceitar para atuar de acordo com essa realidade.

 


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