Esqueceram de combinar com o povo

El País/reproduçãoO mundo não para de dar voltas.

O ‪‎FMI‬, que nos anos 90 quebrou muitas economias exigindo corte de gastos, agora fala na “necessidade de se apoiar no investimento público para impulsionar as infraestruturas”. Na contramão, poderíamos pensar, mesmo do que o governo brasileiro está pregando na imprensa. Por que?

Uma chamada no El País – “Brasil é o terceiro país com maior dívida externa, atrás da Espanha e EUA” – esconde que o endividamento “brasileiro” não é necessariamente público, e sim público e privado.

Além disso, e talvez pior ainda, esconde que a dívida brasileira é baixa se comparada com o PIB e as exportações, um valor muito mais razoável a ser levado em conta.

Assim, o leitor fica sem saber que em geral os países ricos e com sistemas sociais funcionais têm dívidas muito maiores, e daí? A questão não é essa.

Aí vem a seguinte pegadinha, registrada ao final da matéria do El País:

“(…) O FMI ajusta a proposta aos países às “necessidades” específicas em infraestruturas públicas, as quais são uma “contribuição indispensável” para a produção econômica, que, aliás, é altamente complementar a outras contribuições como o emprego e o capital privado (não correspondente a infraestruturas). Nesse sentido, a instituição insiste em que é “complicado pensar em um processo de produção em qualquer setor que não dependa das infraestruturas”, e ressalta que qualquer deficiência é percebida rapidamente. “Cortes energéticos, abastecimento insuficiente de água e estradas em mau estado afetam negativamente a qualidade de vida da população e impõem barreiras significativas ao trabalho das empresas”, adverte. (…)”

Quais são as “necessidades” específicas? Quanto é a “contribuição indispensável”? A mensagem do FMI é clara: pagar a dívida é importantíssimo, mas não parem de dar dinheiro para as empresas, aumentando o investimento público em “infraestruturas” sem as quais nós, o “privado”, dependemos abertamente. É complicado, sabe, viver sem essa graninha…

Sem meias palavras: é “público” quando eu estou pedindo a grana, mas “privado” quando é pra receber os lucros. Só desenhando mesmo pra ficar mais claro.

E a área econômica do governo brasileiro segue a cartilha: vamos cortar “linearmente” (educação primeiro, saúde depois etc) pra “equilibrar as contas”. Como a pirâmide do sistema educacional brasileiro (para citar apenas um exemplo) é invertida (quanto mais próximo da universidade mais dinheiro, quanto mais próximo da creche menos dinheiro), as universidades já estão em crise antes mesmo do início do ano letivo.

Aparentemente, faltou combinar com a “população” citada de forma meio envergonhada pelo FMI que as “necessidades” específicas não incluem coisas pouco importantes para a iniciativa “privada”, como o ensino público ou a rede de saúde.