Escrevo para

escrevoComo tudo que fazemos, o escrever também muda substancialmente, de acordo com as motivações e intenções. E, obviamente, de acordo com os interesses a que servimos com a palavra. Posso escrever porque me mandaram fazer isto, e então, a minha escrita não é propriamente minha, e, sim, de quem me mandou escrever isto ou aquilo.

Não é o meu caso, não escrevo porque alguém me mandou escrever, e, sim, porque necessito passar a vida a limpo, necessito me ver de verdade, me conhecer e conhecer as pessoas e o mundo à minha volta. Quando escrevo, é como quando falo, vejo claro, começo a enxergar. Ninguém se enxerga sozinho, como disse Peter Berger, o sociólogo.

Escrevo desde alguma perspectiva, com algum propósito. Lembro de algo que Graciliano Ramos escreveu, em algum dos seus livros, a este respeito. Dizia ele que a opinião das pessoas mudava de acordo com o que liam, e o que liam, por sua vez, estava de acordo com o que os mandantes dos jornalistas desejavam.

Não deixa de ser verdade que a maior parte das opiniões que temos sobre muitos assuntos, é oriunda de um jornalismo pago. Aonde quero chegar com estas observações? Ao fato de que a escrita, para ser libertadora, deve nascer de uma vontade de dissipar as trevas, de esclarecer a si e aos outros, e não de atender a interesses nem sempre explícitos.

Na minha escrita, a tentativa é a de ir dissolvendo as afirmações que incorporamos sem crítica, sem saber de verdade a que interesses servem. Os preconceitos, as ideias falsas, a calúnia e a difamação, tudo isto deve ir se dissolvendo e desaparecendo, para que possamos enxergar a realidade, vir para a realidade.

Há uma diferença substancial entre a escrita que obscurece a realidade e aquela que nos fornece instrumentos para virmos a conhecer as coisas como são. Tentarei sempre estar nesta última perspectiva.