Escrever, ser

Quando não escrevo, falta-me alguma coisa. Falto-me a mim mesmo. Mas não no sentido de falta como pecado, erro, mas de ausência. Se não escrevo, é como se eu não estivesse. E gosto de estar, gosto de estar presente. Ontem mesmo, refletia, como o tenho feito desde que a li por primeira vez, numa frase de Julio Cortázar, que diz: a literatura desfaz a falsa objetividade criada pelo intelectualismo, pela codificação cotidiana e pelo realismo ingênuo. Diz isto no contexto do seu relato acerca de como se sentia estranho no mundo, no meio das outras pessoas. Já nos livros, se encontrava por inteiro. Isto me deu uma alegria profunda. E ao refletir ontem, como tantas outras vezes, pensava: quando me chateia o mundo, a vida, o que há na minha volta, pode ser por falta de literatura. Ou seja: se as coisas já não me dizem mais nada, se penso que são as mesmas de novo, que tudo é o mesmo, é porque não mais as estou vendo, não mais as estou registrando como novidade.

E se isto acontece, é porque não mais estou presente. Fui-me embora, numa desconexão aparentemente tão trivial e insignificante, mas que faz toda a diferença. Ao invés de ver as coisas, a luz da tarde no teto do quarto e nas paredes, ao invés de ouvir o barulho do ventilador, o que for, aceitei a sua cópia arquivada na memória, como diz Cortázar no “Manual de Instruções,” em Histórias de Cronópios e de Famas. Então me chateio, me aborreço, isso que está aí não me toca, não tem a ver comigo. Mas se presto atenção, se escuto o canto do pássaro não mais como “canto de pássaro”, e sim escutando este canto de pássaro, neste momento, do modo como esse som que parecem campainhas de cristal tinindo, ou um gorjeio, então é o canto do pássaro, e o pássaro e eu estamos completos, estamos em relação, então há alegria, há celebração.

Isto que relato aqui, foi uma experiência de ontem à tarde. À noite, fui à missa de um ano pelo falecimento de José Comblin, um padre amigo, com a minha esposa e com um grande e muito querido amigo, que deu testemunho sobre a atividade missionária e teológica de José Comblin, sobre a sua forma de estar no meio das pessoas humildes, a pesar da sua grande sapiência. Era uma igreja bem  agradável, no bairro do Altiplano. Nesse estar aí, outra vez, veio como que uma superposição de outros estares em igrejas, os ontem acumulados, se superpondo e invadindo de alguma forma o estar aí, nessa igreja, nessa noite de 27 de março de 2012, com a minha esposa e o meu amigo. Não sei como, consegui me desvencilhar desse ontem invasivo, dessa pressão do recordado sobre o que está aqui presente, e estive aí, me permiti estar presente nessa noite, nessa igreja, do modo como foi nessa ocasião, e não como deveria ter sido ou como poderia ter sido. Isto me deu uma alegria muito grande.

Pensava que as pessoas que ali estavam, os padres, os diáconos, as pessoas no meio da missa, estariam cada uma dos seus próprios modos, não modos iguais, mas modos cambiantes, conflitantes, superpostos, projetados ou vindos de diversos passados de alguma forma misturados com o aqui e agora tal como podia estar acontecendo comigo. Vi a minha mulher do lado direito, cantando um hino. Lindo. Um hino que escutei Airton Barreto cantar em vários encontros da Terapia Comunitária, e que diz mais ou menos assim: quem diz que não temos nada para oferecer, etc. Então veio uma grande tristeza, lembrei de alguém morto sendo velado numa igreja em Mendoza  nos anos da delinquência militar, 1960 e pouco. Os desaparecidos, a repressão, o medo, a mentira. Os hinos chamavam para a unidade no Espírito Santo, e  eu sentia uma vastidão se abrindo adiante, onde Comblin deveria estar. Como faz bem rezar, cantar em comunidade, ouvir falar de Deus, de Jesus, da vida como missão. E agora as coisas aprecem ir se fechando. Escrever, ter um lugar, assim começam estas linhas e assim terminam estas reflexões, ou  não. Nada termina, tudo continua, de outras formas.

Dizia no começo que sinto falta de mim mesmo se não escrevo. Ao escrever, sintonizam-se o passado e o presente, costura-se a unidade. O texto de Cortázar sobre a dissolução da falsa objetividade criada pelo intelectualismo tem me desafiado e continua a fazê-lo. Uma das formas de evitar a alienação, é estar presente, sermos capazes de prestar atenção ao que está ocorrendo, independentemente do que possamos ter pensado que deveria estar ocorrendo. Isto refaz a novidade do mundo. Isto evita o tédio, e vai costurando eternidade. Agora que escrevi estas coisas, algo se situou no seu lugar, algo está como deveria ser. Uma tênue película vai se desfazendo, de repente não estamos em absoluto separados uns dos outros, cada um de nós do resto da realidade, da totalidade.