Ernesto Che Guevara

Hoje se recorda a morte de Ernesto Che Guevara na Bolívia, em 1967. Lembro meu pai apontando o dedo para a notícia no diário Los Andes, de Mendoza. Eu estava na secundária e nem fazia idéia de quem era o Che Guevara. Anos depois, o seu rosto aparecia nas paredes da cidade, pintado por colegas da oposição ao regime militar da hora.

Seria possível, pensava. Seria possível uma América Latina como ele pensava, sem opressores, sem fome, sem dominação. Uma América Latina justa, fraterna, de irmãos. Quando ele ia morrer, se conta, encorajou o soldadinho encarregado de matá-lo. Cumpra com a sua tarefa, ele disse.

Esse rosto dele morto, do Che Guevara olhando com um olhar que ainda nos olha, que ainda vê um mundo dividido entre quem come e quem passa fome, quem ama e quem sofre desamores de toda a espécie, esse rosto ainda nos diz: Você pode, levanta-te e anda! Vá atrás dos seus sonhos!

Não desista, insista, resista! Hoje fazem já tantos anos daquele dia, e ainda te lembramos, Che Guevara. Não para idolatrar um mito, seria um modo a mais de te matar, de trair o sentimento que te levou à guerrilha na Bolívia onde foste para não te trair, para não virar um burocrata a mais em Cuba, para não deixar se ser quem eras, para continuar sendo alguém capaz de sentir a menor das injustiças cometidas contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo, como escreveste aos teus filhos.

Seria confortável terminar estas linhas com a tua consigna, Até a vitória sempre, venceremos, e talvez seja a forma mais adequada, não sei. Como se homenageia alguém a não ser seguindo com a sua luta. Não luta armada, não. Não creio em armas, não as que matam. Não cria naqueles anos da juventude, em que os guerrilheiros enfrentavam até a morte o engenho do ódio.

Os admirava, sem dúvida, quando distribuíam comida nas favelas e enfrentavam o exército e a polícia. Não gostei quando os trucidaram em Trelew, mas tampouco gostava que matassem policiais pelo mero fato de serem policiais. Quando a ciranda da morte se ensenhoreou do meu país, Argentina se tornou um mundo sem lei, a lei do revólver.

Os genocidas ainda impunes, seus apoiadores eclesiásticos e financeiros, jornalísticos e outros, ainda impunes. A tua morte, impune? Creio em outra justiça. Santo Ernesto de La Higuera, te batizaram os índios e camponeses bolivianos. Não sei se és ou eras santo. Apenas sei que continuas a ser um exemplo a seguir. Alguém fiel a si mesmo. Um amor incondicional.

Nisso creio, nisto te assemelhaste a Jesus de Nazaré, que nos guia desde a eternidade para essa terra onde sempre brilha o sol, onde não há exploradores nem explorados. Até lá, Che Guevara! Até sempre, até a vitória, sempre!