Entrevista concedida por Álder Júlio F. Calado a “Caderno de Classe”

1- Qual a sua avaliação sobre o nível de organização da classe trabalhadora brasileiros na atualidade?
AJ. – Sem ignorar honrosas exceções (frações de classe), avalio o atual contexto sócio-histórico da Classe Trabalhadora no Brasil, em especial quanto ao seu nível de consciência, como bem aquém do desejável.        Entendo haver, a par de outras manifestações de crise (econômica, política, ética… ), também uma crise de identidade da Classe Trabalhadora. A despeito de que sempre tem sido desafiante avançarmos satisfatoriamente neste quesito – temos raízes históricas prolongadas e profundas de relações ambíguas entre a casa grande e a senzala -, entendo que já tivemos períodos mais favoráveis. Sublinho, por exemplo, a conjuntura dos anos 1980, com a formação de algumas organizações de base de nossa sociedade, com características bem mais animadoras, tais como:
– investimento na organização e manutenção de núcleos, conselhos, círculos ou que outros nomes tenham tais experiências. Núcleos cuja força fincava raízes em seu esforço de autonomia perante o Mercado e perante o Estado, com decisões tomadas pela base;
– núcleos ou círculos ou conselhos marcados pelo protagonismo do conjunto de seus membros, com vigilância crítica em relação aos riscos de manipulação pela coordenação ou por um pequeno grupo;
– núcleos interconectados a distintas instâncias (partidárias, sindicais, populares), por meio de seus respectivos delegados e delegadas, controlados pelas respectivas bases;
– um maior cuidado com não se permitir o continuísmo de coordenadores ou dirigentes, evitando que estes se perpetuem na direção, uma vez que, passado o período de sua gestão, tinham que voltar para a base dos movimentos, enquanto eram escolhidos membros da base para a coordenação, no período seguinte;
– investimento permanente no processo formativo dos seus membros, onde se assegurava espaço mais propício ao exercício da consciência de classe, seja pela introdução aos clássicos, seja pela atenta análise de conjuntura nacional e internacional;
– a proximidade, inclusive de estilo de vida, entre base e coordenação;
– o profundo enraizamento no cotidiano popular, no campo e na cidade, em suas lutas.
 
 2 – Por que está cada vez mais difícil mobilizar os/as trabalhadores/as, sobretudo a classe, entorno dos seus próprios interesses?
AJ. – Há toda uma confluência de fatores e condições aí interagindo, tanto os de caráter objetivo quanto os de caráter subjetivo. Por um lado não há como subestimar a precarização crescente das condições de trabalho, num vasto leque de itens. Indo desde a situação salarial, as condições de trabalho, a ausência ou insuficiência da política educacional, etc , e. por outro lado. combinando com o acúmulo de empregos, seja pela necessidade de sobrevivência, seja em decorrência dos atrativos consumistes do “Mercado”. De todos os modos, esse quadro concorre sobremaneira para a dispersão e o esfacelamento da categoria. E muito mais ainda para o empalidecimento da consciência de classe…
3 – Como senhor avalia o fato de muitos sindicatos estarem atrelados a partidos políticos?
AJ. –  Uma coisa é a condição política – inclusive como Classe Trabalhadora – inerente a todo sindicalista consciente, no exercício de sua cidadania; outra coisa e fazê-lo,  de forma partidarizada em nome de sua categoria. Também sobre este quesito já tivemos maior clareza, em conjuntura precedente. Combatia- se, de modo contundente, a tendência a tornar o sindicato uma correia de transmissão de um partido. Isto que hoje aparece, de modo escancarado, por exemplo, na postura de um Paulinho, da Força.. Mas, infelizmente, sabemos tratar-se de algo bem mais frequente… É claro que tal postura tem tudo a ver com a perda ou com a ausência da consciência de classe. Aqui, mais uma vez, o processo formativo PERMANENTE é condição imprescindível para uma retificação de rumos e de caminhos.
 
4 – Qual deve ser o papel do sindicalismo docente na conjuntura atual?
A.J. – Sem qualquer pretensão de “responder” a esta pergunta, cuido de externar algumas inquietações, a partir dela. Uma primeira; em que pese sua especificidade, o sindicato docente reflete, em grande medida, os impasses enfrentados por outras categorias. De resto, toda a estrutura sindical deve encarar o desafio de se reinventar, a partir da priorização de uma agenda (a ser cumprida a curto, médio e longo prazos) que lhe permita recuperar sua identidade de Classe Trabalhadora, algo bem mais complexo, como se sabe, do que lidar-se com a respectiva categoria. Isto implicaria vários
passos concretos, tais como;
– tomar a sério uma agenda formativa CONTÍNUA, de modo a comportar o exercício da memória histórica dos “de baixo”
– suas lutas, conquistas, fracassos, aspirações, esperanças…
– um diálogo crítico com os bons clássicos, em especial os da corrente da filosofia da práxis;
– contínuo exercício de leitura da realidade social (internacional, nacional, regional, local), valendo-se de fontes diversificadas (distintas correntes);
– circulação de um boletim. com periodicidade adequada, para compartilhar passos formativos e outras atividades organizativas (Isto pode dar-se. também, por meio de uma página na internet)
 
5 – Recentemente temos percebido que movimentos que lutam pela Educação tem sido combatidos com uma Intensa repressão policial (Greve do Paraná e Ocupaçáo de escolas em São Paulo). Como explicar esse excesso de violência do Estado contra estudantes e professores?
A.J. – Sem esquecer que a violência do Estado é algo habitual, em determinadas circunstâncias, ela se exacerba, até em relação a segmentos tidos como alvo menos preferencial, como os exemplos mencionados. Aí se dá a combinação de alguns fatores; uma certa extensão do ódio de classe, cultivado principalmente no Sul do País, nesses últimos anos, o fato desconcertante (para os “de cima”) do protagonismo dos estudantes, o que incomoda enormemente a quem pretende ter o monopólio da gestão das políticas sociais; o perfil classista do aparelho repressivo do Estado – eis alguns aspectos que destacaria. Nunca é demais lembrar as fundas raízes escravagistas que remanescem, velada ou abertamente (dependendo da conjuntura), em nosso dia-a-dia. Não se dá por acaso que, dentre os países do continente americano, tenha sido a escravidão no Brasil a mais longeva (enquanto os países latino-americanos fizeram coincidir seu processo de “Independência” com a abolição (jurídica) da escravidão, entre nós, a escravidão conviveu 66 anos com a “Independência”, sem esquecer também que, entre nós, ela se estendeu por todas as regiõe além do enorme contingente de africanos e africanas escravizados no Brasil. Haja desafio: para nós e as próximas gerações!
Fonte: Caderno de Classe é o informativo do SINTEPE (Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Pernambuco) – Caruaru, n.2, ano 2, Jan/Fev/Mar 2016.
Share

Comentários

comentários