Entrevista concedida ao jornalista Alexandre Nunes

É possível conceituar filosoficamente o que seja fé e ateísmo?

Em meio ao cipoal de polissemia reinante nos diversos campos de saberes, torna-se cada vez mais complicado definir-se alguma coisa. Mas, é, sim, possível ousar um conceito para os termos propostos, pelo menos para, dentro da Filosofia da práxis, por lidar especificamente com o agir humano e as concepções em que se apoia, situar o que, nesta entrevista, entendo por cada um dos conceitos mencionados. Entendo fé como a atitude de adesão de alguém a uma determinada divindade, em função do que ela ordena ao crente. Penso, por exemplo, no exemplo clássico da narrativa do episódio envolvendo a figura do patriarca Abraão, em resposta radical ao que lhe ordena Javé, de deixar sua terra e empreender caminhada com os seus, rumo a uma nova terra. Penso, também, na figura de Saulo/Paulo, outro judeu, cuja fé o levava a afirmar, convicto: “Eu sei Aquele a quem dei minha adesão.!” Trata-se, pois, de uma atitude de obediência às indicações recebidas, conforme suas convicções, pelo Deus em quem confia, incondicionalmente. Por sua vez, entendo por ateísmo a postura de quem declara não acreditar em qualquer divindade, de modo a cingir sua existência a valores estritamente do universo terreno. Sabe-se, também, de uma outra forma de ateísmo – o ateísmo militante -, segundo o qual não bastaria não professar qualquer credo religioso, mas também de empenhar-se no combate  a qualquer espécie de crença religiosa.

Ao longo da história, tais atitudes (de fé ou de ateísmo) têm convivido, ora em conflito, inclusive conflitos sanguinários, ora de modo pacífico, ora ainda de modo colaborativo.

Historicamente, como se deu a eclosão dessas formas de pensar e agir?
De que maneiras as pessoas podem vivenciar essas duas experiências de forma saudável?

Na prática, qual o espaço de ocupação e interferência de cada um desses conceitos na humanidade?

É possível uma convergência pacíficas entre as pessoas que vivenciam experiências tão antagônicas?

Se a inexistência de Deus carece de prova filosófica, então o que sustenta os postulados do ateísmo?

O conhecimento científico tem alguma coisa a ver com o ateísmo, ou isso é pura ficção?

O ateísmo poderia ser considerado uma espécie de rebeldia, um egocentrismo, uma revolta, uma falta de racionalidade, de uma certa forma dogmática, ou uma forma diferenciada de viver a vida?

E a fé é uma crença ou uma certeza na existência de Deus?

Existe pontos de convergência entre fé e racionalidade?

Como se proteger dos fanatismos e das verdades absolutas, sem afetar a fé?

É possível pensar a fé como força transformadora da sociedade e como fonte alimentadora, do amor, caridade, igualdade e que deixe o homem mais livre e mais humano?

É possível o senhor falar sobre as diferenças e semelhanças entre o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo?

Obs: O senhor pode acrescentar mais sobre o tema Fé e Ateísmo e as implicações que esses dos conceitos têm na contemporaneidade, ou outras visões e nuance que possa querer abordar sobre o assunto.

O senhor poderia me responder até o final da próxima terça-feira (25)?

Abraços

Historicamente, como se deu a eclosão dessas formas de pensar e agir?

Fé e Ateísmo constituem conceitos antiquíssimos, ao longo da história . Trata-se de expressões que antecedem significativamente a contribuição dos filósofos gregos. Suas origens remontam a vários povos, inclusive chineses, indus, povos do Oriente Médio, etc. Ambos os conceitos se associam, positiva ou negativamente, a crença religiosas, a valores atribuídos a uma determinada ou a determinadas divindades – para os que crêem, enquanto não são raros os registros históricos de povos comportando parcela de seus membros que não professam qualquer crença religiosa em alguma divindade.

De que maneiras as pessoas podem vivenciar essas duas experiências de forma saudável?

Como, então, lidar com tais posições, num contexto de diálogo entre crentes e não crentes? Ou, para rememorar iniciativas e experiências de reflexão sobre a temática, como passar do anátema ao diálogo? Eis um relevante desafio, também para os nossos dias, especialmente quando toma corpo uma aspiração geral a uma convivência ecumênica?

Neste sentido, importa buscar precisar melhor o)s) sentido(o)s atribuído(s) a cada uma dessas expressões – “Fé” e “Ateísmo”, a despeito de inexistir qualquer pretensão a definições “precisas”. Menos ainda, quando se sabe da polissemia existente entre conceitos, não apenas das ciências humanas, também nas ditas exatas.

“Fé” nos remete a uma atitude de crença numa força superior e exterior ao ser humano. Força capaz de orientar atitudes e escolhas humanas. Força em relação à qual os humanos devem obediência, não raramente submissão incondicional. A fé é, com frequência, interpretada como um valor a ser introjetado nos humanos, de modo incondicional, e à qual se deve obediência inquestionável. Tal interpretação encontra amparo na imensa maioria das religiões, inclusive nas religiões de matriz cristã. Impensável compreender-se alguém sem fé, alguém que não creia numa força superiora, bem acima dos mortais, e a quem estão submetidos os destinos dos seres humanos.  Aí tem lugar a existência de um deus a cujos desígnios todos devem submissão incondicional. Um sentido que parece amplamente majoritário. Mas, isto não quer dizer alcançar todo o conjunto dos crentes. Há, com efeito, entre estes, que expressam outra avaliação;

O exercício da fé e condição de ateu são expressões legítimas da condição humana. Integram o mesmo processo de humanização que, por ser histórico, comporta uma variada gama de escolhas, inclusive de caráter axiológico. Estamos diante da ampla diversidade de expressões da mesma condição humana. Diversidade que se dá tanto neste quesito, como em tantos outros. A diversidade faz parte definitivamente da condição humana. Não é problema, é ganho, quando trabalhada com um olhar de complementaridade. Se, ao longo da história, se tem registrado diferentes modos de se lidar com tal diversidade – ora com obcecada oposição, ora com certa tolerância, a depender da conjuntura -, a conjuntura atual vem emitindo sinais convincentes de que é chegado o momento de superar pela raiz o clima de confrontos.

Ainda que se trate de situações minoritárias, convém atentar para pistas bem-sucedidas, quanto às condições de uma boa convivência entre crentes e não crentes. Referimo-nos a diversos caminhos que se têm mostrado propícios a uma tal convivência. Todas essas vias passam, de alguma maneira, pela Filosofia – pelo menos, pela Filosofia da Práxis. Quando se elege a vida como valor supremo, as diferenças tendem a ser exercitadas positivamente. Crentes e não crentes têm em comum a vida, não importando – ou importando pouco – o nome ou os nomes pelo)s) qual/quais venha a ser experienciada. Se para muitos, importa chamá-la por um nome (Deus, Alá, Javé, etc. -, e se para outras pessoas, basta que a vida seja vivida plenamente, sem ligação com uma força sobrenatural, o importante é que a vida seja cuidada como a casa comum a todos, em todas as suas manifestações. O exercício comum desta biofilia a todos faz bem, isto é, a todos que têm na vida seu valor supremo. Neste caso, os condicionamentos doutrinários, legítimos para os crentes, já não são mais assumidos como algo obrigatório para todos. E isto, no caso dos crentes, com base em sua próprias crença. Por exemplo, a quem se dá ao trabalho de pesquisar a histórica do Cristianismo (e de outras confissões religiosas), não resulta estranho que, para certos grupos daquela sociedade judia do seu tempo, o próprio Jesus foi acusado de não ser um crente exemplar, à medida que estava seguidamente a desobedecer a normas da Antiga Lei. Quem se der ao trabalho de ler, por exemplo, do cap. 5 a 7 do Evangelho de Mateus, por exemplo, há de perceber que Jesus não acata todas as normas da Lei Antiga. E não o fazia apenas, de boca para fora, mas suas atitudes contrastavam, por vezes, várias as normas da Lei. Tal atitude constituiu um fator decisivo de sua condenação à morte de cruz. Entre seus acusadores, estiveram autoridades do Império Romano, ao qual a Palestina estava subordinada, que não hesitaram em condenar Jesus, acusando-o de ateu, por não adorar o único deus por eles pretendido: César. Isto acena para o fato de que, antes de acusar ou repelir alguém por declarar-se ateu, importa entender a relatividade desta condição. Será que Jesus, por exemplo, não se manifestava  como um ateu, em relação ao deus Mamon? E, ao mesmo tempo, será que Jesus de Nazaré, ao observar a opressão de sua gente por aqueles que, em nome de Deus, subjugavam parcelas expressivas do seu povo, também não considerava ateus aos opressores de seu povo?

… e especialmente em razão de seu foco específico estar centrado no agir humano, ligado às suas respectivas concepções e valores.

Buscando ainda explorar as pistas propícias pela  abordagem filosófica, desponta surpreendente a atitude de vários ateus, a exemplo de Karl Max, que, sem abdicar de suas convicções de alguém sem filiação religiosa, cuidava de retrucar e até de tirar as máscaras de não poucos que, em se confessando filiados  às suas respectivas crenças, manifestavam práticas que pouco ou nada tinha a ver com suas respectivas fontes e horizontes de crença. Assim o fez, por exemplo, em relação a figuras que se declaravam cristãs, ao tempo em que exigiam obediência incondicional ao Sacro Império da Prússia, cujo titular traía sua fonte cristã, para a qual “Não se pode servir a dois senhores.” Como se o ateu estivesse a dizer ao crente: “Cuide de ser coerente com o que você prega e declara ser sua fonte de orientação…” Por que tal posição? Porque a vida se punha em primeiro lugar. No caso, a vida de largas parcelas daquela população, entre as quais pobres lenhadores, drasticamente punidos pela coleta de lenha, condição de sua sobrevivência – sua e de de sua família. Marx faria o mesmo em relação a representantes de outras religiões – na China, na Índia, no Oriente Médio… “Tratem de ser coerentes com as fontes e o horizonte de suas fontes declaradas”…

Há outras pistas capazes de propiciar uma convivência saudável também entre crentes e ateus. A própria Teologia pode erigir-se, em determinados casos, como uma via de saudável convivência enter crentes e não crentes. No caso da Teologia da Libertação, por exemplo, temos um campo fecundo de demonstrações de boa convivência entre cristãos e ateus; entre cristãos e gente de diversas outras religiões. Figuras de ateus que se notabilizaram em várias partes do mundo – uma delas, Michael Löwy – são autores de diversas reflexões e análises dando conta desta saudável e pacífica convivência. E aqui, não se trata desta ou daquela religião. Mesmo ao interno do Cristianismo, são notórias as divergências, já não entre atues e crentes, mas no interior do próprio mundo cristão, e ainda particularmente no interior do próprio mundo católico.

Nesse sentido, resulta útil lembrar os contrastes notáveis observados, por exemplo, durante a recente campanha eleitoral – e para além dela! – entre pessoas e grupos internos ao próprio Catolicismo (e a outras denominações cristãs). E aqui, mais uma vez, pontificam critérios também teológicos. Muitos e muitos católicos perguntam-se como é possível assegurar-se apoio a candidatos que apologizam a tortura, o ódio ao inimigo, a aversão a povos indígenas, a comunidades quilombolas, às mulheres, a comunidade LGBTI e até à gente do Nordeste, e, ao mesmo tempo, fazê-lo em nome do Cristianismo… Não se trata de justificar tal posição, por não se aceitar outra candidatura, até porque diante de impasses ou de objeção de consciência, ninguém é obrigado a votar num ou noutro…

Na prática, qual o espaço de ocupação e interferência de cada um desses conceitos na humanidade?

Mais que uma mera interferência conceitual, as práticas correspondentes a amplas parcelas de crentes e ao seguimento declarado ateu demonstram significativas consequências, MUNDO A FORA. Tanto consequências negativas – em sua enorme maioria – quanto sinais de positividade. Talvez mais hoje do que em outras conjunturas, a dimensão do Sagrado vem t proporções extraordinárias, de modo a contrastar com previsões positivistas do fim das religiões. Ao contra´rio, o Sagrado se tem revelado como detentor de forças poderosas, tanto numa direção r conservadora/reacionária quanto, em menor grau, numa perspectiva de transformação social. Os exemplos se manifestam profusamente, por toda parte. Mesmo no Ocidente secularizado, segue sendo forte a influência do Sagrado, como fator de peso em processos eleitorais. Não é por acaso que candidatos norte-americanos  que não contem com apoio dos cristãos (em especial dos cristãos protestantes) reúnem bem menos chances de sucesso. E o quê dizer da força impactante que, por exemplo, o o Islamismo e o Judaísmo exercem na eleição e na condução das políticas dos respectivos crentes? Em menor grau, pode-se dizer também em relação à influência da fé, numa perspectiva progressista. É o caso dos cristãos próximos da Teologia da Libertação, especialmente na América Latina. Influência também considerável, ao ponto de um analista que se declara ateu – Michael Lowy – ter afirmado, nos anos 80, a propósito dos cristãos pela libertação, que, na América Latina, a revolução se fará com a participação dos cristãos, ou não se fará. Afirmação bem apropriada para aquela conjuntura, pois de lá para cá, no contexto da Igreja Católica, tem havido um duradouro recuo, especialmente durante o longo pontificado do Papa João Paulo II, seguido por mais uns sete anos de pontificado do Papa Bento XVI, com a perseguição feita às forças progressistas – a Teologia da Libertação, as CEBs, em breve, a “Igreja na Base”…

É possível uma convergência pacíficas entre as pessoas que vivenciam experiências tão antagônicas?

Mais do que possível, é fortemente desejável uma convivência pacífica entre crentes e não-crentes, especialmente no contexto histórico de um mundo tão polarizado. Curioso é que tal polarização não se dá apenas, nem principalmente, pelas diferenças entre crentes e ateus. Desafio talvez ainda maior se produz ao interno mesmo dos próprios crentes. Isto nos faz indagar se o “X” do problema reside mesmo entre crentes e ateus, de um lado, ou, antes, entre crentes e idólatras: Talvez o problema mais grave resida nas multiformes manifestações idolátricas dos nossos dias. Por exemplo, no interior mesmo do mundo cristão, observam-se, não raramente, situações em que é infinitamente a distância entre crentes e ateus do que entre crentes e crentes que, em nome de Deus, testemunham atitudes visivelmente contrárias à fonte da fé que declaram defender.

Se a inexistência de Deus carece de prova filosófica, então o que sustenta os postulados do ateísmo?

O conhecimento científico tem alguma coisa a ver com o ateísmo, ou isso é pura ficção?

O ateísmo poderia ser considerado uma espécie de rebeldia, um egocentrismo, uma revolta, uma falta de racionalidade, de uma certa forma dogmática, ou uma forma diferenciada de viver a vida?

As duas hipóteses merecem ser consideradas. A depender de como as pessoas lidam com relação com o Sagrado, negando-o, sua atitude poder orientar-se no sentido de adortarem um posição militante h de militância obsessiva como uma atitude de convivência serena, por meio de vivenciar sua condição de ateu como uma foram de encarar a existência humana. No primeiro caso, resultou traumática a dogmatização do ateísmo no período stalinista, na ex-URSS, em que se pregava uma perseguição cega a quem ousasse manifestar em sua fé, suas crenças. Neste caso, o ateísmo acaba transformando-se numa religião às avessas. Na segunda hipótese, o ateísmo se revela uma legítima atitude humana, expressão de uma escolha frente a qualquer divindade, não se constituindo necessariamente um óbice a uma cooperação sadia com projetos de sociedade compartilhados com crentes, do que resulta um fecundo mutirão pelas boas causas da humanidade, inclusive pela paz e pelo respeitos à dignidade do Planeta e dos humanos.

E a fé é uma crença ou uma certeza na existência de Deus?

Embora a pergunta comporte uma gradação entre “crença” e “certeza”, ambas as atitudes (de crença e de certeza) orientam-se na mesma direção, para amplas parcelas de crentes. Por outro lado,, do ponto de vista do processo de humanização,  uma fé amadurecida não deveria estar isenta de dúvida. Quando se experimenta uma certeza absoluta, prospera a tendência a uma fé cega, desprovida de qualquer ajuda ou de incidência de racionalidade, assim produzindo um indesejável hiato entre fé e razão, já  quando se sabe que, já na Idade Média, os chamados “Padres da Igreja” entre os quais Tomás de Aquino, já propugnavam pela associação entre fé e razão – “Fides ac scientia”. Uma fé assumida sem qualquer participação da razão tende ao fundamentalismo, ao fanatismo, causa de não poucas ocorrências extremas de consequências terríveis para a humanidade. Por trás de uma atitude cega e incondicional  gente à divindade, esconde-se certa avidez de poder, de projeto pessoal, que leva o crente a confundir a sua própria vontade com a vontade da Divindade: “Faça-se a minha vontade”, em vez de “Faça-se vossa vontade”… Quando a fé é vivenciada em meio a situações de questionamento, os crentes se revelam mais amadurecidos, em sua  fé, à medida que se vêem como pessoas no mesmo pé de igualdade das que agem diferentemente; mostram-se mais abertas à diversidade, buscando aí encontrara unidade com os seu Deus e com as demais pessoas, crentes e não crentes. Em suma, dispõem-se ao diálogo aberto com pessoas e grupos que pensam diferentemente, isto é, contribuem com os processos de paz para a humanidade.
Existem pontos de convergência entre fé e racionalidade.

Eis outra questão de relevância e  de grande oportunidade. Só por meio de interpretações extremadas, que desfiguram os próprios textos sagrados em que se pretendem embasar, resultam comportamentos fundamentalistas, quer da parte de crentes, quer da parte de não-crentes. Claro que seguem legítimas as diferenças de interpretações dos textos sagrados. A hermenêutica sozinha não resolve os enigmas contidos em trechos ou expressões de sus respectivas fontes codificadas. Mas, tais diferenças têm limite. Não podem, por exemplo, descampar para uma apologia da violência e crimes semelhantes. Isto se dá sempre que interesses de ordem política ou econômica se sobrepõem  às fontes sagradas. Ou, no caso, dos que não se confessam filiados a qualquer credo religioso, sucumbem igualmente a dogmatismos secularizados, erigidos em verdades pétreas e absolutas. É lastimável constatar , a este propósito, a onda de fanatismos que se registra, também na atualidade. Como enfrentar, de forma exitosa, tal desafio? Como se trata der um fenômeno complexo, comportando múltiplas implicações, nas mais diferentes esferas da realidade, aqui nos restringimos a destacar o que nos parece exercer maior capacidade de superação desse impasse: a priorização do processo formativo, inclusive no tocante ao Sagrado. Justamente pela falta ou insuficiência de tal processo processo formativo, é que observamos gigantescas contradições entre as indicações normativas dos textos sagrados, de um lado, e as atitudes de transgressão, frequentemente cometidas em nome da mesma fé, de sorte que, enquanto os textos sagrados acenam para a paz, segmentos de seus seguidores, por interesses inconfessos, leem indevidamente conselhos para a violência, para os preconceitos, para as discriminações de todo gênero. No caso da população brasileira, observa=-se que à medida que segmentos da “Igreja na Base”, por exemplo, foram tomando distância de seu enraizamento nas comunidades do campo e nas periferias urbanas, por meio das Comunidades de Base e de outras expressões do Sagrado, foram dando lugar à progressiva penetração e multiplicação d, nesses mesmo lugares, de experiências feitas em nome da religião, mas desprovidas de uma prática contextualizada, de observância de normas mínimas de uma hermenêutica em diálogo com a razão, a partir de uma leitura submissa à literalidade dos textos sagrados.  Sobretudo a partir de então, prospera nesses lugares a experiência de relação com o Sagrado,cujos frutos se mostram desprovidos não apenas de racionalidade, mas também de bom senso. O processo formativo surge como essencial a uma retomada, em novo estilo, do processo formativo, em suas mais diversas capilaridades, inclusive numa perspectiva de educação e reeducação da fé, em diálogo com a razão, com a ciência.

Como se proteger dos fanatismos e das verdades absolutas, sem afetar a fé?

É possível pensar a fé como força transformadora da sociedade e como fonte alimentadora, do amor, caridade, igualdade e que deixe o homem mais livre e mais humano?

É possível o senhor falar sobre as diferenças e semelhanças entre o Judaísmo, o Cristianismo e o Islamismo?

Pergunta: Existem pontos comuns…

Há, sim, vários pontos comuns entre quem crê e quem não crê numa divindade, apenas se e quando, de parte a parte, se resguarda uma disposição ao diálogo sobre as grandes causas da humanidade e do Planeta, tais como justiça, solidariedade, paz, respeito à dignidade dos humanos e de toda a comunidade dos viventes. Em outras palavras, os pontos comuns se acham fundamentalmente no terreno da Ética, da Filosofia da Práxis, não no plano doutrinário. Tal experiência acontece, ainda que em escala bem menor do que a que se passa entre crentes e não crentes de posição extremada, fundamentalista, terreno em que malogram as iniciativas de diálogo e trabalho em comum.

É possível pensar a fé como força transformadora da sociedade e como fonte alimentadora, do amor, caridade, igualdade e que deixe o homem mais livre e mais humano?

Entendida a fé, em seu sentido amplo e generoso, isto é, de modo a incluir até quem se declara não confessional,  resulta não apenas possível, mas já presente em algumas experiências de convivência frutuosa, em diversas partes do mundo. Mais uma vez, isto se dá, quando se trabalha menos doutrina e mais os temas e desafios mais urgentes pra o Planeta e para os humanos. Neste caso, a fé desponta como um componente de enorme potencial de transformação social, exercitada e movida por valores essenciais ao processo de humanização, na perspectiva dos valores essenciais presentes nos respectivos textos sagrados: a horizontalidade entre os seres humanos, a fraternidade, a liberdade, a autonomia, a solidadriedade, a partilha, o cuidado com a Casa Comum.

PERGUNTA SOBRE AS DIFERENÇAS ENTRE Judaísmo…

Conquanto o reconhecimento de notáveis diferenças entre tais expressões do Sagrado, confessamo-nos mais propensos a acentuar suas afinidades. Entre, por exemplo, Judaísmo e Cristianismo, uma diferença marcante reside  no lugar em ambas ocupado pela figura de Jesus de Nazaré. Enquanto no Judaísmo, Jesus é apreciado como um profeta famoso, mas não como um Messias, no Cristianismo, com o se sabe,, seu lugar resulta central para os cristãos e cristãs. Ele marca a inauguração da Nova Aliança, à medida que, sendo um judeu, ousa centrar sua proposta no Amor, na compaixão, na solidariedade, na universalidade da Salvação. Universalidade que, de certa forma, contraria as convicções mais fortes dos líderes religiosos judeus que entendem Israel (isto é, seu povo) como detentor da Salvação, enquanto Jesus propõe o Novo Israel, estendendo a todos os humanos o acesso à Salvação, por meio do Mandamento do Amor a Deus e ao próximo. São, por outro lado, consideráveis os pontos comuns, principalmente na lugar por ambos atribuído aos profestas, de quem Jesus foi uma expressão privilegiada. Co relação ao Islamismo, este também comporta diferenças notáveis, seja em relação ao Judaísmo, seja em relação Cristianismo.Em relação a este, por exemplo, talvez sejam ainda mais acentuadas as diferenças que o Islamismo guarde com o Cristianismo, mas importa, não menos, sublinhar seus pontos comuns, por meio de valores axiais tais como a justiça, a compaixão, o perdão, a paz, a parrilha. A este respeito, vêm-me ao espírito dois exemplos. Um, que nos remete aos anos 50 e 60, em que judeus, muçulmanos e cristãos testemunhavam uma frutuosa convivência, trabalhando e vivendo juntos, na bela experiência testemunhada pelos “Kibutzim”, onde judeus, palestino e cristãos mostravam ao mundo como se contribui na prática por um mundo de irmãos. Outro exemplo diz respeito a um cristão, Roger Garaudy, que se converteu ao Islamismo, seguindo a dar igual testemunho de sua sede de justiça e de paz.

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