Entre a praia e a noitada

Seria absolutamente redundante e, talvez, até simplista, publicar uma nova crítica do Big Brother Brasil (BBB) baseada em argumentos como o de que o programa global representa a decadência moral e ética, a banalização do sexo e a ignorância e alienação do povo brasileiro.

Muito provavelmente, desde a primeira ou segunda edição do BBB, esses são aspectos já levantados com frequência em diferentes ambientes – seja entre amigos na mesa de bar ou em mesas-redondas de congressos acadêmicos. De tal modo que, hoje, trazê-los à tona novamente, por si só, é cair no chavão, no clichê (por mais que nunca seja demais lembrar do assunto).

O que talvez seja mais profícuo discutir é como um programa que já está em sua 12ª edição continua a atrair tamanha audiência, mesmo sem efetivamente inovar em termos de conteúdo, com novidades que não vão muito além de competições ao estilo “Passa ou Repassa” – aquele antigo programa do SBT –, exploradas como peças publicitárias, e, claro, das mudanças no plantel de participantes.

É bem possível que a maior razão para o sucesso do programa resida justamente nos novos corpos e rostos – principalmente os que atendem aos padrões de beleza vigentes – que são escalados para compor o cenário da casa do Projac. Mas isso, por si só, não explicaria a manutenção do bom Ibope. Para isso, é fundamental a aplicação de outras fórmulas, como as festinhas com músicas da moda em que todos ficam bêbados e mais propícios a se agarrar, bem como a constante sensação de que um “barraco” poderá ocorrer a qualquer momento.

O primeiro deles, embora não seja o melhor exemplo do tradicional barraco, já aconteceu: um dos participantes foi expulso da casa por, aparentemente, ter se aproveitado da embriaguez de uma mulher para fazer sexo com ela. Isso foi o suficiente para que as páginas de jornais e portais de internet que já faziam incessante cobertura do programa – como se fosse uma realidade paralela à da cidade do Rio de Janeiro – incrementassem ainda mais o número de matérias sobre os acontecimentos da casa.

Certamente, contudo, essa não será a única das polêmicas a serem suscitadas pelo programa. Afinal – e esta é, possivelmente, a raiz da questão – o BBB vem adquirindo, ao longo dos anos, um ar cada vez mais novelesco. Basta notar como vem ficando mais fácil, mesmo para quem não assiste ao programa, prever quais serão os desfechos da “trama”.

Assim, o público, tal quais os telespectadores assíduos de telenovelas, fica atento a cada “capítulo” para ver, em primeira mão, quem está pegando quem, quais os “personagens” que não se gostam, os casais que se formarão, que mulheres não agüentarão a pressão e acabarão por fazer o que não devem embaixo do edredom, e assim por diante.

Mas o pulo do gato do BBB não se resume à roteirização dos acontecimentos da casa – e, nesse ponto, não se pode deixar de dar o mérito aos editores, que conseguem, mal ou bem, emprestar alguma dinâmica à tediosa rotina de seus moradores pseudo-adolescentes. Seu diferencial é mostrar o dia-a-dia de playboys e patricinhas entre a piscina (praia) e a noitada, denotando uma versão-modelo da diversão e prazer que a população jovem, solteira e abastada – ícone maior da sociedade do consumo – busca em seus finais de semana.

Em meio à rotina desgastante dos brasileiros, assistir a um programa no qual corpos pré-fabricados de acordo com os moldes ideais do momento vivem um eterno sábado, com direito ao descanso de domingo, pode produzir uma espécie de efeito catártico, através de um espelho que reflete exatamente o oposto do que é vivido pela maior parte da população do país, mas que está na ordem do dia dos desejos e fantasias do telespectador.

As telenovelas, há muito, já fazem isso: mansões e mesas de café-da-manhã repletas de alimentos e sucos, com empregados e motoristas uniformizados a servirem os personagens ricos e bonitos compõem o cenário  de quase todas elas. O que o BBB fez foi adotar, processar e concentrar essa fórmula, deixando de lado a dramaturgia (explícita) e apostando no corte do editor para compensar essa falta – pois o (reality) show não pode parar.

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